

O Ofício Do Ócio É Fácil , Difícil É Oficializar o Vício
Ambas se chamavam Maria. E não era essa a única semelhança. Olhos, boca, penteado, textura da pele, marca de nascença na virilha, gestos, tremor no lábio sempre que mentiam, tudo era exatamente igual. Só após um exame minucioso poderia se perceber uma leve dessemelhança nos olhares. Maria-bancária guardava sempre um leve ar de enfado e Maria-puta tinha olhares mais atentos e levemente maliciosos.
Ambas se encontraram primeira vez no vagão do trem. Maria-bancária ia para o trabalho e Maria-puta voltava da lida. Depois do estranhamento inicial tornaram-se grandes amigas. E nenhuma delas lembrava qual tinha sido a primeira a sugerir a troca, porque foi como uma ideia que brotou naturalmente e se expandiu vegetativamente pelos recantos do inconsciente de ambas... Talvez a ideia tenha surgido na mente de Maria-bancária enquanto ela explicava a um cliente as “vantagens” de um empréstimo consignado e pensava em Maria-puta se recolhendo meio ébria e dolorida em uma cama macia de um quarto vermelho vivo… ou talvez a idéia tenha surgido na mente de Maria-puta enquanto ela gemia em falsete sob o corpo enorme e cabeludo de um cliente e pensava em Maria-bancária vendo tevê sem pensar em nada, envolta na luz romântica da tela, repousando a cabeça, no mesmo braço, todas as noites...
Ambas ousaram a troca como uma loucura compartilhada, e com as pernas tremendo enfrentaram o desconhecido da vida da outra. Maria-puta aventurou-se no ambiente financeiro, nas metas comerciais tributárias e na rotina do matrimônio classe média. E Maria-bancária mergulhou na noite, no comércio das taras secretas, nos cheiros, ruídos e formatos de outras geografias masculinas. E ambas, apesar dos nojos e assombros iniciais, acabaram indo muito bem vestindo a história da outra. Maria-puta usou sua experiência em massagear vaidades e disfarçar sorrisos e assim prosperou na orgia mercantil. Maria-bancária usou sua eficiência em atender vontades e a calcular riscos e oportunidades e assim prosperou no mercado sexual.
E ambas perceberam que muitos dos seus clientes eram os mesmos! Mas, estranhamente, nunca percebiam que a Maria que lhes entregava o salário suado do mês era idêntica à Maria a quem, à noite, pagavam (com as mesmas cédulas) os seus minutos de doce desvario. Ambas, porém, logo perceberam que não era distração apenas, é que nunca esses mesmos homens se deram ao luxo de as olharem nos rostos gêmeos.
E enfim ambas perceberam que seus corpos valiam o mesmo na rotina de esforços repetitivos, e entre suas colegas de trabalho havia a mesma cumplicidade entremeada de invejas e concorrência na dura labuta de metas a cumprir… e ambas sentiram a mesma exploração e humilhação de seus patrões, e tinham que se controlar pra não chamar o cafetão de gerente e o gerente de cafetão… pois eles até fumavam a mesma marca de cigarro importado, e tinham a mesma cadeira forrada em couro só deles, a mesma fotografia da família sobre a mesa, e riam com os mesmos dentes cerrados, tinham a mesma ironia maldosa nas declarações e a mesma mania de explodir em gritos esmurrando a mesa o mesmo número de vezes (ambos votavam no mesmo deputado democrata).
Até que ambas igualaram-se até mesmo em seus olhares. Ficaram completamente iguais. Maria-puta ganhava um ar de enfado e Maria-bancária, uma malícia um pouco mais atenta nos olhos… Até que ambas esqueceram de se destrocar, confundidas uma na outra, como se o papel que exerciam agora, no mesmo sem sentido dos dias, tivesse sido aquele de sempre e nada mais. Perderam-se uma da outra, na rotina de seus dias-há-dias… até que um dia ambas se encontram no vagão do trem. Maria-puta-bancária ia para a lida e Maria-bancária-puta voltava do trabalho. E se espantaram, como se nunca tivessem visto uma a outra milhares de vezes.
Jorge de Barros
guardo
não fosse o sino, os carregadores não poderiam com o peso das próprias almas
é o sino que carrega o caixão embalando o coração dos vivos
nas cidades grandes onde não há sinos possíveis usam-se carros
quando minha morte chegar, não quero carros
quero que toquem os sinos da igreja de João Alfredo
assim meu caixão, ditando o ritmo do trânsito, seguirá sozinho, pairando entre os carros na avenida Barão de Mauá.
e então descerei a Serra do Mar...
(dêem-me um óbolo para que eu possa pagar o pedágio da Anchieta)
e que meu esquife flutue no Atlântico
(como outrora boiei no ventre de minha mãe)
e que Iemanjá me receba com a ternura indiferente das mães universais
Jorge de Barros

O boteco nem bem abrira a porta, e as duas moças do balcão já se desdobravam em limpar, arrumar e preparar chapa, cafeteira, liquidificadores. Do lado de fora, um rapaz esperava alguém. Estava muito bem vestido, roupas caras, muito bem penteado, usava um fino cavanhaque, perfeitamente alinhado, seus olhos eram muito limpos, assim como seus dentes, e até as unhas, perfeitas e claras. Uma das moças do balcão admirava-o furtivamente. Para ela, ele se parecia com um ator de novela, um homem como os das revistas que ela colecionava, como os dos pôsteres no seu quarto, um gato, como os dos seus sonhos. E ela não era feia, o avental e o boné é que escondiam as formas e o cabelo. Mas, mesmo assim, algo nela chamava muita atenção: olhos verdes-verdes, que lhe rendiam diárias cantadas dos cachaceiros, tantas que ela nem esboçava mais reação, não lhe incitavam mais ódio nem riso. Coisa do comum.
E o rapaz, embora um pouco receoso com a higiene do bar, resolveu entrar. Era cedo e ele não havia tomado café. Então, reparou nos belos olhos verdes que o miravam. Ela adiantou-se, sorrindo toda, fazendo os olhos ficarem ainda mais verdes: ― Pois não?
― Um canoa chapado e um chocolate, por favor. Ela piscou algumas vezes, julgou ter ouvido mal.
― Como?
― Um canoa chapado e um guaraná.
Ela continuava sem entender, olhava-o com uma interrogação marcada na testa. Então, um pouco impaciente, ele explicou: ― Canoa chapado é um pão, com manteiga, sem miolo, bem passado.
― Mas sem miolo?
― É, sem miolo!
― Tá bom.
Enquanto ela preparava, ia intrigada. Como alguém podia jogar o miolo do pão fora? Bem, pelo menos, ela podia comê-lo depois, de graça.
― Ei, moça, fica mais fácil se você cortar o pão antes e, com a colher, tirar o miolo.
― Como?
― Assim, corta o pão normal e depois tira o miolo com uma colher.
― Assim?
― É, pode tirar mais, deixa só a casquinha mesmo.
Ela achava aquilo muito esquisito, metade do pão ia pro lixo? Ia. Mas que desperdício aquele pão sem miolo…
E quando o rapaz ia pagando o café, não resistiu…
― Nossa, você tem olhos verdes lindos! Como é seu nome?
Mas ela, impassível, não respondeu. Deu-lhe o troco e foi atender o próximo cliente.
Ora! Que desperdício… Pão sem miolo!
Jorge de Barros
E Lexy Soares ilustrou Xampu:
no abismo do meu travesseiro
perturba-me o dobre funerário dos sinos da igreja de Nossa Senhora da Conceição da cidade de João Alfredo
agreste pernambucano
o som tísico de uma gargalhada em ferro
atravessa vales e morros
sobrevoa o rio São Francisco
mergulha na Serra do Mar
e escorre pra dentro da minha insônia
os sinos que cantaram para meus avós defuntos
e esquecidos antepassados
que naquela terra hirsuta
fizeram ouro
misturando o doce sangue da cana
com o amargo caldo da escravidão
e era tanto ouro que virava terra que virava ouro e que virou pó
entre desditas e maldições
e badalares irônicos
dos sinos fúnebres da igreja de Nossa Senhora da Conceição de João Alfredo
agreste do meu sangue
sertão da minha memória
Fábula
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
disse, com os olhos brilhantes de raposa
o principezinho guardou consigo essa verdade como quem recebe uma jóia
e estendeu a mão com um passo à frente
seus dentes finos de raposa (ela não come pão) sorriram
antevendo, com delicado prazer, a textura tenra daqueles dedinhos róseos
e seu coração de raposa batia forte, na ânsia de vingar as irmãs abatidas
pois foram eles, os homens, que primeiro perverteram a inocência
e era das águas
profundas do mar
um véu de odalisca
deleitosamente
fundindo-se à noite de pretura plácida
mistura de altivez
e sedução primeva
emblemática deusa
cheirosamente negra
em laivos de púrpura
de que yorubá
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?
e eram de fruta
doce adstringente
fendida e fibrosa
exoticamente
expondo-se em carne de polpa e sumo
como brisa refrescante
no mormaço noturno
arrepios de sonhos
negramente negra
rescindindo axé
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?
que eram seus passos
Oxum que nas águas
ondeia sereia
sinuosamente
atraindo os olhos de tudo que é vivo
enquanto fiquei-me
eu só mais minha ânsia
de escrutinar o DNA de suas tranças
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?
Jorge de Barros
a Camila, flor que cresceu e ensaia seus passos no vento
semente que plana
tal ave entre azul,
foi menino que te desfez a cabeleira branca?
“teu pai é careca!” – risos nos prados serras e sertões –
ou foi o vento numa valsa bruta
de impaciente amante?
o mesmo vento que te leva ao colo
como se insuflasse panos
das caravelas soltas no mar
– dentes-de-leão lançados ao léu – ?
o mesmo vento que te pousa agora
no enxoval da noivinha maria
e a faz desabrochar sorrisos
cheia de graça
e a livra de todo mal-me-quer?
(cuidado, menina, que amor de homem, como essa flor, se desfaz num sopro!)
Jorge de Barros
entre máquinas de escrever, fonógrafos, daguerreótipos, mata-borrões, pince-nezes, enciclopédias e quiçás
o poeta acena
com a esperança de improváveis porvires
e uma profunda inveja dos guarda-chuvas
Jorge de Barros
“Estupra, mas não mata” é a fala
das mais equivocadas proferida,
porque tentando defender a vida
jogou a honra na mais suja vala;
mas não só o Maluf se equivoca:
“Ela é mulher, mas é boa ministra” ¹
é outra pérola também sinistra
deste colar que a ética sufoca.
E o absurdo está por todo lado;
o absurdo é o mar da nossa ilha,
mas é muito pior ser obrigado
ao absurdo que se compartilha,
quando diz hoje o pobre do empregado:
“Patrão! Pode explorar, mas não me humilha!”
¹ a frase original é do empresário Mario Amato, e é na verdade assim: “A ministra (Dorothea Werneck) é muito inteligente, apesar de ser mulher”...
a uma inflamação de garganta
a musa-febre
lambe meus olhos
umidecendo-os de saliva quente
enquanto isso
geme baixinho
e dança ao som do meu ranger de dentes
o seu abraço
ferve minha pele
e em vapor converte minha mente
os seus cabelos
me sufocando
me afogando em turbilhão dolente
as minhas forças
me abandonam
são exiladas num país distante
a febre nua
pousa em meus ombros
seus braços verdes lisos putrescentes
sua boca morta
crava-se em mim
e rala em mim o sexo decadente
rasga-me em postas
senta em meu crânio
metodológica masca meu ente
a musa verde
gorgolejante
como uma puta vã sorri indecente
e satisfeita
me abandona
e fico só triste e convalescente
Jorge de Barros
A outra face tal qual um cristo
Um esforcinho de tua parte
Tentando ler (sei que é difícil)
As entrelinhas do meu calar-se…
!
Jorge de Barros (funcionário do mês)
Mensagem formada por 12oo índios durante o FSM -2009Fórum Social Mundial Belém - 2009
Decepção e Catarse
Seguir na marcha de abertura do Fórum Social Mundial, sob a chuva abençoada – puro suor da Amazônia – acompanhando tantas cores, tantos rostos, tantas línguas e sotaques, tantas lutas, tantos sonhos e utopias... foi catártico.
Perceber as contradições irreconciliáveis, a mesquinharia de alguns partidos arautos do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, os oportunismos de última hora, a arrogância infantil dos que creem sua luta superior às demais... foi decepcionante.
Ouvir as grandes vozes das grandes mulheres, dos grandes homens, que, seguindo a orientação de Sartre, elegeram uma bandeira e descruzaram os braços, desceram dos muros das teorias para juntar mãos militantes na construção do outro mundo possível... foi catártico.
Ouvir asneiras dos que diminuíram o Fórum como “ninho dos desocupados”, “mero celeiro de hippies e rebeldias anacrônicas” ou, ainda pior, perceber que há certa classe de “militontos”, que vomita ecologismos e socialismos, mas só pratica o hedonismo e o proselitismo... foi decepcionante.
Conhecer a Belém dos pescadores veneráveis, dos vendedores simpáticos do Ver-O-Peso, das bruxas de encantamentos coloridos, da juventude de iaras e botos, do carimbó, do tacacá, da maniçoba... foi catártico.
Descobrir que, ao se preparar para o Fórum, os poderes da cidade sumiram com mendigos, vira-latas e urubus (sabe-se lá o que fizeram a eles), sem falar na repressão à população pobre durante o Fórum, impedida de participar pela taxa de 30 reais ou pela borracha da polícia... foi decepcionante.
Presenciar tantos povos indígenas reunidos e, mais do que isso, organizados. Vê-los passar durante a marcha, com seu colorido, seus movimentos, seus passos, seus semblantes. Tudo próprio e original como toda cultura original... foi catártico.
Presenciar a vexaminosa postura dos que se digladiavam para tirar uma foto ao lado de um índio, como se o mesmo fosse um boneco da Disney, evidência da tamanha distância que separa brasileiros de brasileiros nativos, sem falar na demora da organização do Fórum em terminar a tenda dedicada aos índios (deveria ter sido prioridade)... foi decepcionante.
Ver a história arquitetônica da cidade, a Basílica de Nazaré, os casarões, o centro velho, as vielas históricas, as mangueiras centenárias, o Forte do Castelo, a Casa de 11 Janelas... foi catártico.
Ver a mesma história corroída e esquecida, com rachaduras tecidas pelo tempo ou reformas (mal) realizadas por mãos inábeis... foi decepcionante.
Mas difícil mesmo é descrever o maior misto de catarse e decepção a que se poderia chegar nesse importante evento:
A catarse das vozes dos povos, os matizes de suas lutas: Indígenas, Quilombolas, Sem Terra, Sem Universidade, Marcha das Mulheres, Povos Sem Estado, GLBT’s, Palestinos, Periféricos, Atingidos Por Barragens, Igrejas, Defensores dos Animais, Trabalhadores e Sindicatos... mas, ao apurar ouvidos e olhos, em busca de uma voz unânime, de uma cor predominante, de uma idéia geral que unisse tantas lutas dissonantes... a decepção de não encontrar nada... Ou apenas a musa frágil (porém musa!) do lema: “Um Outro Mundo É Possível”.
Nem mesmo com relação ao mote do Fórum de Belém – a Amazônia –, há consensos visíveis: existem os que defendem o paraíso absolutamente intocável, contra os que preferem o estudo sistemático para proveito da própria região e da ciência, em outras palavras, a exploração sustentável. Também há quem fale em patrimônio da humanidade, mas contra estes se erguem as vozes de latino-americanos que bradam: “A Amazônia É Nossa”, chamando, dessa forma, atenção para a nossa responsabilidade frente ao uso/preservação desse fantástico bioma.
Mas será que consensos são possíveis nesse universo de idéias multicores? O fórum clama: “Um Outro Mundo É Possível!” e a sociedade, meio cética, meio apática, cruza os braços, olha de soslaio, e pergunta: “Qual”? Confesso que eu mesmo fui a este Fórum Social, o primeiro da minha vida, com o intuito de buscar respostas. E eis que retorno cheio de decepções... e catarses, mas resposta nenhuma.
Acontece, porém, que também encontrei muita gente tentando, ao seu modo, fazer um outro mundo possível... índios que vieram exigir saúde ou mostrar e ensinar para seus “parentes” projetos de reflorestamento, jornalistas que ainda acreditam no poder da informação para a difusão de novas idéias e ideais, comunidades e movimentos sociais que, de diversas maneiras, criaram redes de economia solidária. Micro-soluções locais, pequenos gestos de boa vontade, solidariedade, fé... E também os grandes movimentos sociais, organizados contra os latifúndios, contra as grandes empresas poluidoras, contra as guerras movidas pelo capital, contra a poluição do meio-ambiente, contra a escravidão e todo o tipo de opressão.
Aliás, percebi que se amplia, cada vez mais, a noção de que as lutas sociais e as ecológicas não podem seguir dissociadas. Defender o meio ambiente sem pensar na erradicação da pobreza é falácia, da mesma maneira que a luta por justiça social que ignore o conceito de sustentabilidade do planeta é pura ignorância.
Enfim, percebi que as forças como as que atuaram no Fórum Social Mundial, com todos os seus embates e contradições, são como uma obra em pontilhismo: se nós olharmos de perto, veremos uma confusão irritante de pigmentos, aparentemente sem sentido, superficialmente caótica. Mas se nos afastarmos lentamente (e esse afastamento só é possível com a passagem do tempo), uma forma vai surgir, como mágica, frente a nossos olhos. Entretanto, é impossível enxergá-la agora: o quadro está bem à frente do nosso nariz, estamos imersos demais dentro dele para perceber. E os pintores desse quadro, os povos do mundo, os movimentos sociais, usam o pincel da boa vontade e as cores da insatisfação... Só o passar dos anos nos permitirá olhar, com nitidez, tudo o que se está construindo a partir de eventos como esse. Mas a melhor coisa, creio eu, não é ficar só esperando pra ver qual forma irá constituir o mundo futuro. O ideal é pegarmos nossa boa vontade e nossa revolta e nos juntarmos ao coro da humanidade ofendida.
Pois enquanto um só Ser Humano estiver sob a bota da opressão e a Natureza sofrer com nossa ação predatória, não haverá redenção para a Humanidade. Entretanto Ela também estará definitivamente perdida, no dia em que ninguém tiver voz para gritar contra a injustiça e a violência que atinge nossos irmãos e nossa Mãe-Terra.
Jorge de Barros

Minha amiga Crica me convidou para multiplicar esta idéia (que é do Tom Zé, que é do Léo do Peixe) . Leiam abaixo e procurem mais com ela no blogue http://quintaldacrica.blogspot.com/
Aí vai:"Pessoal, na cidade de Pirapora, Minas Gerais, um feirante, Leonardo Diniz Filho, conhecido por todos como Léo do Peixe, mantém um círculo de leitura, que se põe em atividade assim que Léo termina o serviço na banca de peixe. Ele estava precisando de alguns milhares de livros para que a circulação da biblioteca beneficie maior número de pessoas. Num país em que a leitura tem de ser cultivada como se fosse um criatório de peixes, de bichos, de plantas, com cuidados que tais, quem puder colaborar com Léo do Peixe e lhe mandar livros estará fazendo muito.
Fiquei encantado com a história de Léo, que poderia estar fazendo qualquer coisa com seu tempo mas escolheu o coletivo, escolheu a todos nós. Pirapora é pequena, mas nela coube uma ideia. Fiquei sabendo do caso de Léo do Peixe pela revista Globo Rural, quando manifestei vontade de ajudar a revista veio aqui me entrevistar, botou meu retrato, espero que tenha ajudado a mandar livros pra Pirapora.
Consegui mandar pra Léo perto de uma centena de livros do meu acervo pessoal. O endereço é Leonardo Diniz Filho (Léo do Peixe), Avenida Benjamin Constant, 1135, Pirapora, MG cep 392270-000. Menciono redes que os conhecidos ajudam a formar pelo mundo: um conhecido de Belo Horizonte, cidade que fica no jeito pra Pirapora, não é tão longe, de repente vem pra São Paulo ou sabe de alguém que esteja passando por aqui, dá a ideia ao itinerante e este volta de viagem com uns livros na bagagem. Enfim, pra blogueiro não preciso dar aula de iniciativa, vocês têm muita.
Abraços, obrigado.
Tom Zé - 25/02/09 "
Um povo
Noite...
Que nesta noite Adonai me dê sono sem sonhos. Porque minha mente só sabe conceber dois pesadelos. Ou a vida antes dessa morte, para acentuar minha dor: quanto era livre a tratar de Pachamama e a ser cuidado por Ela... nos verdes terraços férteis, sob colossais e belos picos, deuses grisalhos a cochilar tranquilos... e, ao acordar, as pestilências, esses catres superlotados, a monotonia dos uniformes listrados, as pulgas, os gemidos, os doentes... Ou então o fosso! Descer a escuridão da mina em busca do veio profundo... A vela débil, o azorrague, a morte todos os dias... os vapores fétidos e venenosos da ferida aberta no seio da mãe terra... a sede implacável dos meus algozes... a chaminé dos fornos a expelir fuligem e cinzas... nossas cinzas... Que Huiracocha limpe meus raros sonos de sonhos!
Sim, o Papa Paulo III os declarou como “verdadeiros homens”… mas… (que não nos ouçam)… eu duvido muito...
Por que, senhor?
Se você os visse... Seus olhos não têm expressão, sua fisionomia é desprovida de vontade… Deixam-se dominar com facilidade, são débeis… adoecem e morrem com uma rapidez imensa... Repugna-me apenas lembrar…
São mesmo raças inferiores.
Sim, com certeza não são humanos… com certeza… Dominá-los é o mínimo, escraviza-los é torná-los úteis e os afasta das heresias. Exterminá-los… um dever pátrio…
Eu já os vi de longe. Parecem humanos.
Creio que seja mais uma artimanha deles, o fato de se assemelharem a nós… inclusive as mulheres… há as bonitas… mas são lixo… deterioram nossa raça… envenenam nossas almas com seus feitiços pagãos…
Posso ver um de perto?
Daqui há alguns anos… se ainda existirem…
Senhor…
Diga-me! Você tem sonhos?!
O que quer este jovem SS? Mal tem barba, mal saiu dos cueiros… por que me olha assim? Por que me olha? O que perscruta em meus olhos… Aqui estou deitado para morrer... esgotado… aniquilado… vencido… e ele quer que eu tenha sonhos?
Senhor?
Imprestável! Responda!
O que quer o filho do mineiro? Seu lábio está tremendo? É um fio de suor que lhe escapa à têmpora? Está com medo de mim? Com medo de si? Com medo de Deus? Quer saber de mim, que há meses não sei que é vida, se tenho sonhos?
Como assim, senhor?
Sonhos! Não sabe o que é sonho?! É um animal?!
Sonhos... se sou um animal? Ele tem dúvidas? Porque os outros não têm dúvidas, tratam-nos como animais ou pior... mas este tem... este tem alma...
O senhor, quando me olha, vê um animal?
Não perguntei isso! Seu verme!
Um soco. No rosto. Só mais um... chego a sorrir disfarçado... ele não é bom nisso. Já levei tantos… tantos… tantos… Quanta revolta eu sentia! Quanto desespero de ódio! Agora é só um soco inexperiente de um rapaz franzino. É quase um afago nesta carne cevada a punhos e coronhadas...
Você é um verme, por isso não tem sonhos!
O senhor, quando me olha, vê um verme?
Um chute. No estômago. Já esperava até. A gente aprende a contrair os músculos tão logo um deles se aproxime. E aprende a gemer mais do que dói, para que parem. Mas não posso conter o riso entre dentes. Ele é tão bom de chutes quanto é de socos. Um oficial se aproxima, seu superior. Olha com aprovação a tortura aprendida na academia militar... é seu pai... orgulhoso do filho a controlar os mitayos mais rebeldes...
Senhor, o que quer de mim? Se digo que sou verme me matarás? Vai me poupar se eu disser que sou homem?
A dúvida em seu rosto é singular... os olhos são quase infantis, impregnados de humanidade, de religião... os olhos estão desesperados de dúvida! É provável que uma mãe caridosa, na sua ilha de amor doméstico, o tenha educado finamente, ensinado o valor da vida, da caridade, do amor ao próximo… Mas o pai se aproxima... meu algoz mais cruel, o capitão, desumano, assassino de mulheres e crianças... Então... eu cuspo na cara do filho!
Desgraçado! Peste imunda!
Soco. Soco. Chute. Chute… Chute. O pai sim, o capitão sabe bater...
Mate-o!
Isso.
Mate-o já! Seja homem! É uma ordem!
Então eu digo:
Mate-me, garoto, realize este meu último sonho!
Agora ele sabe que sou um homem! E treme, treme muito. Outros já se aproximam... o capitão, o pai está perto, olha com olhos injetados e inflamados. São na verdade esses olhos que puxarão o gatilho. O filho não pode dar esse desgosto ao pai, o bom soldado não pode trair a sua pátria. O pobre rapaz não tem escolha… quase chego a arrepender-me do que fiz… Quase…
Quem quiser adquirir o seu é só procurar uma loja da editora ou pelo site:
http://www.avemaria.com.br/lojavirtual/produto.jsp?cID=8&pID=501236


( Domingo. Como um frango cozido. Lia, minha esposa, faz um maravilhoso frango cozido. Meus filhos não gostam muito. Pegam uma coxa um, o outro um pedaço do peito. Eu prefiro o espinhaço, o pescoço, a asa, o pé... Chupar os ossinhos suculentos... Comer com a mão...
Depois, como meu pai sempre fazia, abro um pote de goiabada. Se bem que, naquele tempo, não era pote, era lata. Meu pai, cerimonioso, silencioso, abria a lata com uma faca de ponta, dando batidas no cabo e, furo a furo, ia libertando primeiro o cheiro, depois a cor e, finalmente, o arenoso sabor da boa goiabada cascão... E nós, ao redor, apreensivos, aguardávamos ele distribuir o doce.
A minha goiabada é muito menos, é até pálida... aguada. Filha distante daquela outra. Não é cascão e, com um puxão da tampa plástica, abre-se com facilidade. As embalagens adaptam-se aos homens. Meu pai dava murros em faca, concentrado no aço que defendia o doce. Eu puxo a tampa flexível, entediado, e olho a data de validade. Meus filhos nem percebem meus movimentos à mesa, já estão na sala vendo desenhos. Passam por mim, abrem a geladeira e pegam iogurtes. Não gostam de goiabada.
E eu fico a admirar a superfície lisa e vermelha do doce, então, com uma faca sem ponta, daquelas de passar manteiga, talho uma fatia gorda e brilhante e espeto na própria faca. Assim é a maneira mais gostosa de se comer goiabada. Meu pai fazia desse jeito, ia espetando e distribuindo, primeiro pra mamãe e depois para os filhos, do mais novo ao mais velho. E a gente corria pela casa, pelo quintal, com a goiabada espetada na faca, comendo devagar pra depois fazer inveja aos outros. Como era boa aquela goiabada!
Minha mulher me observa, me examina... será que ela também sente essa saudade? )
…
– Arnaldo, eu já não te disse que temos potes de sobremesa?
Jorge de Barros
Dedico:
A todas as que se dizem putas
E as que não se dizem
“Éramos tão pouco reservados em nossas carícias, que não tínhamos paciência para esperar ficarmos sós”
Abbé Prevost
“Marguerite: Coração... É a única ameaça de naufrágio na travessia que estou fazendo.”
Alexandre Dumas Filho
“sentia sim com tal acrimônia e desespero, que o prazer a estorcia em câimbras pungentes”
José de Alencar
“Remexida de linda, representava mesmo uma rapariga, uma murixaba carecida de caçar homens, mais forte, muito, que os homens”
Guimarães Rosa
“Ah, coito,coito, morte de tão vida”
Drummond
“Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo”
Manuel Bandeira
“Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado”
Bocage
“Uma estrelinha desnuda
Está brincando no charco.”
Mário Quintana
“Não olheis eu ser morena:
foi o sol que me queimou;
os filhos de minha mãe
se voltaram contra mim,
fazendo-me guardar as vinhas,
e minha vinha, a minha
eu não pude a guardar.”
Cântico dos Cânticos 1,6
Silêncio!
Salomé prepara sua dança
tragam o véu
tragam o cepo
e sirvam-se de bandejas de prata
expressão máxima da solidão: fazer poema?
não.
ir a um puteiro só pagar um drinque
epifania
há mulheres que surgem
como se fossem idéias
Darlene era a puta mais bonita
lhe contei minhas melhores piadas
lhe abri meus ingênuos projetos
ela sorria
― Você gosta de falar, né?
decote
toda mulher adora
brincar de metonímia
a cintura um desaforo
os seios um disparate
a bunda empinadinha
um despautério
a nuca em suas pelugens
um absurdo
era toda digna de boas dentadas
homens
a umidade é que nos mata
Darlene era toda aconchegante.
― Toda?
Toda…
buscando
a volúpia da violência
morre-se
na violência da volúpia
Darlene me mostrou o paraíso
quando disse
― Me bate…
como se a essência eu lhe sugasse
e a minha ela esgotasse
uma disputa
a ver quem chega
por último
sutileza
meu bem,
como eu gostaria de beijar
todos os seus lábios…
“No princípio…
(…)
… Amém.”
orgasmo
ainda sinto
as unhas
e o gosto
da nuca
volátil
quando a pinga é boa escorre da parede do copo como lágrima de óleo fosse
com amor e poesia não é diferente
epílogo
como quem restaura um quadro
lentamente
ela se veste
se tão contrário a si é o mesmo amor
como pode?
Darlene tinha olhos de ver
olhava através
assustava-se com nada
não sabia cochichar
não sabia dar bitocas
não sabia bebericar
tudo nela era demasia
falava de boca cheia
corria pulava gritava
chorava quando gozava
mas também fingia chorar
Aquiles
jamais pensa em calcanhares
oblíqua
― você tem medo?
― de quê, Darlene?
― apanhar ser preso brigar trabalhar…
― mas… apanhar de quem?
― não nada, desculpe que estou meia maluca…
e foi logo pegando no meu pau
nova esfinge
― devora-me
ou decifro-te!
Darlene chorava:
― preciso lhe falar…
soluçou como menina e dormiu
de manhã era toda sacana
― e ontem, meu bem?
― era nada…
e nunca mais vi Darlene chorar
Margherite
muito lhe será perdoado
pelo muito que amou
mas não tudo
Darlene quis passear num domingo
eu inventei uma desculpa sórdida
e nunca mais ela me pediu nada
como quem muda os móveis da sala
mudava
o meu espírito
certa vez confessara
que meu cenho franzido
excitava
Darlene riu de mim em pleno coito
― que foi?
― nada…
― QUE FOI!?
quebrei o abajur ameacei um tapa
― é que você respira…
de um jeito tão engraçado…
Ela: “o poder não vem
de quem armas tem
mas de quem as empunha
, meu bem”
― Darlene, vamos terminar!
Ela assustou-se
― a gente é tão diferente, Darlene!
― não seja bobo
e foi logo pegando no meu pau
diálogo
― Mestre, julgais Afrodite mais implacável que Ares?
― Filho, o mais que Ares pode é matar-te
tão simples como morre o sol
Darlene virara desamor
mas
não acreditei nos lábios
não acreditei nos olhos
não acreditei nos gestos
só quando ela gemeu em falsete
um gozo cínico
ofensivo
final
a mulher de Ló sorria?
os vizinhos ardiam, ora
pra provocar Darlene
brinquei com Nana
dancei com Nana beijei a Nana me atraquei com Nana
na frente de Darlene
mas Darlene não tinha nem olhos
Darlene impassível estátua de sal
e Nana arremedava sorrisos
sorria os olhos
era toda gritinhos
e eu desejei mais e mais
Darlene impassível
estátua de sal
ela passou...
…
…e as outras ficaram um pouco menos femininas
ela passou…
…
…e então se podia jogar os olhos fora
ela passou…
…
…e aí que eu fui entender a Ilíada
mas
depois de Darlene vieram outras
e antes mesmo tivera muitas
saldo final:
Darlene
e as muitas outras
a cor do conhaque é triste
e a luz na superfície parda-dourada
é a do sol de lembranças antigas
ancestrais
entranhadas
um cheiro de quase
e o gosto de algo que se descobriu fascinante
mas já era tarde.
17h59
ontem
um dia depois de muitos
o perfume de Darlene visitou meu cárcere ensaiou um pé de valsa e se foi entediado
eu nunca tive nem
esse perfume.
Jorge de Barros
pasmo fiquei olhando as mãos vazias
rindo. não vi o corroer dos dias,
quando notei, já tinha o amor partido.
nenhum sinal, assim como roubado
fosse, no tempo de eu olhar pro lado.
sem terremoto. não senti nem coice.
a dor do sofrimento não previ.
olho o passado, olho o presente, junto
e isso é dor maior que já senti:
não conseguir chorar o amor defunto.
Jorge de Barros
Dois dias. Quarenta e Oito Horas. Dois mil oitocentos e oitenta minutos. Cento e setenta e dois mil e oitocentos segundos. Não posso dormir. Não posso dormir aqui.
Lembrar… é preciso lembrar. O acidente. Este gesso no meu braço. Tudo é bastante simples, a história não é nova: autônomo, pequena empresa, investimento, acidente, internação, tratamento, poupança, aluguel, contas atrasadas, e a queda. Agora estou na miséria? Não. Ainda não. Não devo nada pra ninguém. Nada.
Calor … tenho que fazer essa barba! E este gesso coça... coça. Por mais que faça não dá pra alcançar a fonte da coceira... é lá bem no meio do gesso. Inalcançável... Vou me sentar aqui... No chão, não! O chão, não! Ali, o banco da praça! Lugar certo de se sentar!
Esta barba, esta barba… este gesso, este gesso… Devo estar com a cara horrível. Dois dias sem dormir. Quarenta e oito horas. Dois mil oitocentos... e oitenta minutos. Cento e setenta e dois segundos... mil segundos. Cento e setenta e dois mil segundos... Este banco... Esse sol... Não, não, não e não, não vou desistir. Em frente!
_O Senhor pode me dar um copo d’água?
_Não tem!
_Mas da torneira mesmo...
_Não tem! Tchau!
Mas peraí, o que é isso? Nunca me negaram um copo d’água? Que falta de educação! Mas será que...
_Mas eu só quero um copo d...
_Meu amigo, vai feder em outro lugar! Sai fora!
“vai feder em outro lugar...”, “vai feder em outro lugar...”, Dois dias sem tomar banho. Quarenta e oito horas sem comida. Cento e setenta e poucos mil segundos sem dormir. A fome já veio, foi, veio, foi, veio, foi... mas o sono é como uma pedra na nuca que só aumenta... aumenta...
Se eu deitar no chão estarei perdido. O chão vai me abraçar como uma cortesã maldita, seus dentes pretos, seu hálito detestável, sua pele áspera, seus braços sarnentos, a pele cinza... mas sua voz é doce... Eu preciso dormir... as camas são produtos artificiais, o chão é nossa morada mais antiga, nosso berço ancestral... Só pra reconstituir minhas forças, amanhã dou um jeito, faço a barba, arrumo emprego. Qualquer coisa serve, tenho experiência... Não. Dormir agora não!
O mal é este gesso... tenho que tirar, mesmo que o braço doa, ninguém vai me dar emprego assim. E como coça! Esse calor! Não quero pensar nisso, esta sujeira colada na minha pele. Dois dias entre fumaça de carros e poeira de asfalto. Devo estar horrível. Parecendo até um mendigo. Por isso é que aquele cara me tratou tão mal. Me confundiu com um mendigo. Coitado...
Dois dias... Quarenta e... oito horas. Cento e... sententa e dois mil oitocentos e oitenta minutos... Segundos? Dois mil oitocentos e setenta e dois minutos e cento e oitenta e oito mil e tralalá segundos. Parece que tenho areia nos olhos. Parece tudo um sonho sépia. As cores da cidade tão estranhas... O sol parece que está com defeito. Preciso me levantar, preciso me levantar, preciso andar. Parado não vou conseguir nada!
_Olha por onde anda!
Tanta gente aqui, tem tanta oportunidade por aí. Olha essa cidade. Olha o trânsito. Olha lá um Uno vermelho igual ao que eu tinha! Ê, delícia, dirigir o que é nosso! Buzinar, xingar o trânsito, pagar IPVA, reclamar da gasolina que sobe! Eita, como é bom! Se eu deitar no chão, nunca mais vou ter isso de volta. Não posso desistir! Vou achar um emprego hoje! Ah! Aqui tem aquela loja de equipamento! Já comprei muito ali, o dono me conhece! Conheço o funcionamento de todas essas peças, não tem nenhuma novidade para mim nessa vitrine... vitrine… Mas que é isso...? Esse aí sou eu?
_Pois não?
Tenho que sair daqui! Horror! Será que ele me reconheceu? Não... Nem eu me reconheci. Deus! O que é isso? Deus... Deus! DEUS! O que está acontecendo? O que eu fiz? Por que eu? EU! Por quê? POR QUÊ!? Dois dias sem tomar banho, sem dormir, só dois dias e já fiquei assim? Não é justo! Trabalhei, paguei meus impostos, sou um cidadão de bem! Sou um cidadão! Sou! O que acontece com os cidadãos quando se vêem em perigo? O governo... o governo tem que me amparar! Não é possível, não é possível que tudo tenha dado em nada...
_Policial, eu preciso de ajuda...
_Circulando. Não pode ficar aqui não!
_Eu não tenho aonde ir...
_Mas não pode ficar aqui. Vai! Vai!
Não, peraí... Eu estou fazendo alguma coisa errada... tem algo que eu não estou pensando...
_Senhor, desculpe minha aparência, estou duas noites sem dormir...
_Toma aqui.
_Não, não quero dinheiro, quero saber se tem algum lugar que eu possa ir, um lugar pra ajudar as pessoas com necessidade...
_Um abrigo? Parece que tem um lá na Praça...
_Abrigo? Abrigo de mendigo? O senhor não entendeu. O senhor acha mesmo que eu sou um mendigo?
_Desculpa, mas eu tenho que trabalhar.
Eu também.
Oito horas... Cento e quarenta minutos... Mil e oitocentos e oito segundos... Conforme o tempo passa eu vou ficando transparente... É isso, estou ficando cada vez mais fino, mais fino, a cinza da cidade está se colando na minha carne e eu estou virando parte dela. A cidade está colando
Esse chão irregular, esburacado, sujo, enferrujado, carcomido, azedo, este chão é meu lar agora? Ali tem uma sombra e um pedaço de papelão que minha mãe me preparou... Ah... é uma cama macia, um colo, útero. O útero de alcatrão dessa cidade imensa... Como é bom estar de volta neste local onde nunca estive. Quero me acabar aqui, como trapo sujo jogado a um canto. Mas que não me incomodem...
Colando o ouvido ao chão, posso ouvir o pulsar manso de milhões de passos, o escorregar rasteiro de milhões de rodas, o tilintar suave das britadeiras, a dança dos batedores de carteira, o cricrilar dos vendedores ambulantes, o coaxar nervoso das buzinas, o miado melancólico das sirenes… e sinto, quase imperceptível, o coração batendo em outros peitos que também se colam ao solo, que deitam os seus ouvidos no concreto... São meus irmãos, finalmente. Uma voz velha range uma canção de ninar. É nossa mãe, cidade, a embalar-nos no seu colo de chão... este chão... o chão…
Jorge de Barros
