quarta-feira, 21 de outubro de 2009

BLOGAGEM COLETIVA - DIA DE AMAR SEU CORPO



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

AMBAS MARIAS

Estudo para côncavo e convexo - Monica Piloni

Ambas se chamavam Maria. E não era essa a única semelhança. Olhos, boca, penteado, textura da pele, marca de nascença na virilha, gestos, tremor no lábio sempre que mentiam, tudo era exatamente igual. Só após um exame minucioso poderia se perceber uma leve dessemelhança nos olhares. Maria-bancária guardava sempre um leve ar de enfado e Maria-puta tinha olhares mais atentos e levemente maliciosos.

Ambas se encontraram primeira vez no vagão do trem. Maria-bancária ia para o trabalho e Maria-puta voltava da lida. Depois do estranhamento inicial tornaram-se grandes amigas. E nenhuma delas lembrava qual tinha sido a primeira a sugerir a troca, porque foi como uma ideia que brotou naturalmente e se expandiu vegetativamente pelos recantos do inconsciente de ambas... Talvez a ideia tenha surgido na mente de Maria-bancária enquanto ela explicava a um cliente as “vantagens” de um empréstimo consignado e pensava em Maria-puta se recolhendo meio ébria e dolorida em uma cama macia de um quarto vermelho vivo… ou talvez a idéia tenha surgido na mente de Maria-puta enquanto ela gemia em falsete sob o corpo enorme e cabeludo de um cliente e pensava em Maria-bancária vendo tevê sem pensar em nada, envolta na luz romântica da tela, repousando a cabeça, no mesmo braço, todas as noites...

Ambas ousaram a troca como uma loucura compartilhada, e com as pernas tremendo enfrentaram o desconhecido da vida da outra. Maria-puta aventurou-se no ambiente financeiro, nas metas comerciais tributárias e na rotina do matrimônio classe média. E Maria-bancária mergulhou na noite, no comércio das taras secretas, nos cheiros, ruídos e formatos de outras geografias masculinas. E ambas, apesar dos nojos e assombros iniciais, acabaram indo muito bem vestindo a história da outra. Maria-puta usou sua experiência em massagear vaidades e disfarçar sorrisos e assim prosperou na orgia mercantil. Maria-bancária usou sua eficiência em atender vontades e a calcular riscos e oportunidades e assim prosperou no mercado sexual.

E ambas perceberam que muitos dos seus clientes eram os mesmos! Mas, estranhamente, nunca percebiam que a Maria que lhes entregava o salário suado do mês era idêntica à Maria a quem, à noite, pagavam (com as mesmas cédulas) os seus minutos de doce desvario. Ambas, porém, logo perceberam que não era distração apenas, é que nunca esses mesmos homens se deram ao luxo de as olharem nos rostos gêmeos.

E enfim ambas perceberam que seus corpos valiam o mesmo na rotina de esforços repetitivos, e entre suas colegas de trabalho havia a mesma cumplicidade entremeada de invejas e concorrência na dura labuta de metas a cumprir… e ambas sentiram a mesma exploração e humilhação de seus patrões, e tinham que se controlar pra não chamar o cafetão de gerente e o gerente de cafetão… pois eles até fumavam a mesma marca de cigarro importado, e tinham a mesma cadeira forrada em couro só deles, a mesma fotografia da família sobre a mesa, e riam com os mesmos dentes cerrados, tinham a mesma ironia maldosa nas declarações e a mesma mania de explodir em gritos esmurrando a mesa o mesmo número de vezes (ambos votavam no mesmo deputado democrata).

Até que ambas igualaram-se até mesmo em seus olhares. Ficaram completamente iguais. Maria-puta ganhava um ar de enfado e Maria-bancária, uma malícia um pouco mais atenta nos olhos… Até que ambas esqueceram de se destrocar, confundidas uma na outra, como se o papel que exerciam agora, no mesmo sem sentido dos dias, tivesse sido aquele de sempre e nada mais. Perderam-se uma da outra, na rotina de seus dias-há-dias… até que um dia ambas se encontram no vagão do trem. Maria-puta-bancária ia para a lida e Maria-bancária-puta voltava do trabalho. E se espantaram, como se nunca tivessem visto uma a outra milhares de vezes.

Jorge de Barros

terça-feira, 29 de setembro de 2009

CINECLUBE

guardo
na gaveta atrás dos olhos
a ilusão da vida e
abro os braços atentos à ilusão do vídeo

há um silêncio antes do filme
como um pacto nas sombras

- o durante não se explica -

o depois
devolve-me o eu pra mim
(o corpo surpreso com o peso de existir)
resta agora plasmar sentidos...

há na sala um silêncio breve
(como os que precedem as revoluções)

Jorge de Barros

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

VÍCIO

O médico examinou a chapa
Depois me olhou por cima dos óculos
Como se analisasse um cancro ou uma fratura...
_O senhor é poeta?
_Sim...
_Há quantos anos?
_Desde os 12...
Fez-se um silêncio duro cortado apenas pelo zunir da caneta doutoral
_Tome esses remédios e pare com os versos.
_Mas, doutor, eu fico nervoso, daí eu escrevo...
_Ou para, ou morre!

Na rua, o azul do céu queimou meus olhos
Deslizei pelos tons cinza de concreto e carne
E então na praça
(começo e fim de todos os mistérios)
Lancei meu último verso à avidez dos pombos
E levantei-me como pó da estrada...

Jorge de Barros

domingo, 13 de setembro de 2009

CORTEJO

não fosse o sino, os carregadores não poderiam com o peso das próprias almas

é o sino que carrega o caixão embalando o coração dos vivos

nas cidades grandes onde não há sinos possíveis usam-se carros

quando minha morte chegar, não quero carros

quero que toquem os sinos da igreja de João Alfredo

assim meu caixão, ditando o ritmo do trânsito, seguirá sozinho, pairando entre os carros na avenida Barão de Mauá.

e então descerei a Serra do Mar...

(dêem-me um óbolo para que eu possa pagar o pedágio da Anchieta)

e que meu esquife flutue no Atlântico

(como outrora boiei no ventre de minha mãe)

e que Iemanjá me receba com a ternura indiferente das mães universais

Jorge de Barros

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

CANOA CHAPADO


O boteco nem bem abrira a porta, e as duas moças do balcão já se desdobravam em limpar, arrumar e preparar chapa, cafeteira, liquidificadores. Do lado de fora, um rapaz esperava alguém. Estava muito bem vestido, roupas caras, muito bem penteado, usava um fino cavanhaque, perfeitamente alinhado, seus olhos eram muito limpos, assim como seus dentes, e até as unhas, perfeitas e claras. Uma das moças do balcão admirava-o furtivamente. Para ela, ele se parecia com um ator de novela, um homem como os das revistas que ela colecionava, como os dos pôsteres no seu quarto, um gato, como os dos seus sonhos. E ela não era feia, o avental e o boné é que escondiam as formas e o cabelo. Mas, mesmo assim, algo nela chamava muita atenção: olhos verdes-verdes, que lhe rendiam diárias cantadas dos cachaceiros, tantas que ela nem esboçava mais reação, não lhe incitavam mais ódio nem riso. Coisa do comum.

E o rapaz, embora um pouco receoso com a higiene do bar, resolveu entrar. Era cedo e ele não havia tomado café. Então, reparou nos belos olhos verdes que o miravam. Ela adiantou-se, sorrindo toda, fazendo os olhos ficarem ainda mais verdes: ― Pois não?

― Um canoa chapado e um chocolate, por favor. Ela piscou algumas vezes, julgou ter ouvido mal.

― Como?

― Um canoa chapado e um guaraná.

Ela continuava sem entender, olhava-o com uma interrogação marcada na testa. Então, um pouco impaciente, ele explicou: ― Canoa chapado é um pão, com manteiga, sem miolo, bem passado.

― Mas sem miolo?

― É, sem miolo!

― Tá bom.

Enquanto ela preparava, ia intrigada. Como alguém podia jogar o miolo do pão fora? Bem, pelo menos, ela podia comê-lo depois, de graça.

― Ei, moça, fica mais fácil se você cortar o pão antes e, com a colher, tirar o miolo.

― Como?

― Assim, corta o pão normal e depois tira o miolo com uma colher.

― Assim?

― É, pode tirar mais, deixa só a casquinha mesmo.

Ela achava aquilo muito esquisito, metade do pão ia pro lixo? Ia. Mas que desperdício aquele pão sem miolo…

E quando o rapaz ia pagando o café, não resistiu…

― Nossa, você tem olhos verdes lindos! Como é seu nome?

Mas ela, impassível, não respondeu. Deu-lhe o troco e foi atender o próximo cliente.

Ora! Que desperdício… Pão sem miolo!


Jorge de Barros

DOIS DESENHOS

Dois amigos artistas fizeram ilustrações para meus contos. A artista Neli Vieira ilustrou Uma Questão Bem Simples:

E Lexy Soares ilustrou Xampu:


Muchas Gracias, Neli e Lexy, vocês são porretas!
Jorge de Barros

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A PESTE

H1N1 - A nova vedete do momento, em Close-Up!

"Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz."
A PESTE - Albert Camus

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mais um cadim de Quinta Poética



todas as noites

no abismo do meu travesseiro

perturba-me o dobre funerário dos sinos da igreja de Nossa Senhora da Conceição da cidade de João Alfredo

agreste pernambucano

o som tísico de uma gargalhada em ferro

atravessa vales e morros

sobrevoa o rio São Francisco

mergulha na Serra do Mar

e escorre pra dentro da minha insônia

os sinos que cantaram para meus avós defuntos

e esquecidos antepassados

que naquela terra hirsuta

fizeram ouro

misturando o doce sangue da cana

com o amargo caldo da escravidão

e era tanto ouro que virava terra que virava ouro e que virou pó

entre desditas e maldições

e badalares irônicos

dos sinos fúnebres da igreja de Nossa Senhora da Conceição de João Alfredo

agreste do meu sangue

sertão da minha memória





Fábula

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
disse, com os olhos brilhantes de raposa
o principezinho guardou consigo essa verdade como quem recebe uma jóia
e estendeu a mão com um passo à frente

seus dentes finos de raposa (ela não come pão) sorriram
antevendo, com delicado prazer, a textura tenra daqueles dedinhos róseos
e seu coração de raposa batia forte, na ânsia de vingar as irmãs abatidas
pois foram eles, os homens, que primeiro perverteram a inocência


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mais "Quinta Poética" - NEGRA PASSANTE


Em vídeo de Cristiane Martins e Edição de Márcio Barreto

de que yorubá
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?

só sei-lhe da pele
e era das águas
profundas do mar
um véu de odalisca
deleitosamente
fundindo-se à noite de pretura plácida


e passou
mistura de altivez
e sedução primeva
emblemática deusa
cheirosamente negra
em laivos de púrpura


de que yorubá
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?


só sei-lhe dos lábios
e eram de fruta
doce adstringente
fendida e fibrosa
exoticamente
expondo-se em carne de polpa e sumo


e passou
como brisa refrescante
no mormaço noturno
arrepios de sonhos
negramente negra
rescindindo axé


de que yorubá
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?


só sei-lhe da dança
que eram seus passos
Oxum que nas águas
ondeia sereia
sinuosamente
atraindo os olhos de tudo que é vivo


e passou
enquanto fiquei-me
eu só mais minha ânsia
de escrutinar o DNA de suas tranças


de que yorubá
mandinga, haussá
de que daomé,
banto, que será?

Jorge de Barros

Quinta Poética. Casa das Rosas 30-07-2009


Quinta Poética - 30-07-2009, promovido pela Casa das Rosas e Escrituras Editora (São Paulo, Brasil). Participação da bailarina Kiusam de Oliveira e do poeta Jorge de Barros. Acompanhamento: o músico Henrique Crispim, o grupo Percutindo Mundos e Marcello Santos.


"O OURO"



O amigo Edson Bueno de Camargo e o belo poema que dedicou a mim (valeu!).



Henrique Crispim canta Neres



Participação do poeta José Geraldo Neres (anfitrião). Acompanhamento: Marcello Santos e Bebe.



O mestre
João de Jesus Paes Loureiro.



Leitura de poema de Marcelo Ariel.



Gran Finale - Música Livre Caiçara

Obrigado aos amigos que compareceram, ao Neres que me convidou, à Kiusam que dançou meu poema e ao Henrique Crispim, ao Marcello Santos e ao Percutindo Mundos que o "musicaram".
Quem quiser mais um pouco dessa gente boa, visite:

Edson Bueno de Camargo

Henrique Crispim

João de Jesus Paes Loureiro

José Geraldo Neres

Kiusam de Oliveira

Marcello Santos

Marcelo Ariel

Percutindo Mundos


domingo, 28 de junho de 2009

MISSÃO CUMPRIDA!



“esse é seu beijo de adeus, cachorro!”
Muntazer al-Zaidi


haveria quem tivesse dó
haveria quem clamasse sangue
haveria quem se indignasse frente à infâmia
- patriotismos puídos surgindo do pó

na História também se entra errando
e errando nós o revelamos qual truão
o polichinelo sorrindo amarelo
- triste títere de um humor doente

erramos! mas que fazer?
fosse barata, nós acertaríamos!
sendo uma Mentira, não...


Sapatos de Muntazer al-Zaidi, Psicosapatografados por Jorge de Barros

quinta-feira, 4 de junho de 2009

TARÁXACO


a Camila, flor que cresceu e ensaia seus passos no vento


semente que plana

tal ave entre azul,

foi menino que te desfez a cabeleira branca?

“teu pai é careca!” – risos nos prados serras e sertões –

ou foi o vento numa valsa bruta

de impaciente amante?


o mesmo vento que te leva ao colo

como se insuflasse panos

das caravelas soltas no mar

– dentes-de-leão lançados ao léu – ?


o mesmo vento que te pousa agora

no enxoval da noivinha maria

e a faz desabrochar sorrisos

cheia de graça

e a livra de todo mal-me-quer?


(cuidado, menina, que amor de homem, como essa flor, se desfaz num sopro!)

Jorge de Barros

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Caco

Excursion into philosophy,1959 - Edward Hopper

Foi numa manhã de segunda-feira. O mundo amanheceu doendo em mim muito mais do que nunca. Eu só podia confiar em três pessoas nesse mundo inteiro, mas não via seus rostos. As demais não eram dignas de nenhuma confiança sob hipótese nenhuma e jamais seriam. E não chegariam sequer a me compreender nem por um segundo. E ririam ou sentiriam pena ou nem ao menos dariam por mim na rua. Tudo cinza e gelado ao redor. Eu era como uma criança estrangeira nua, suja e esquecida numa fria sala de espera de um órgão burocrático qualquer e sem permissão de sentar em uma das poltronas. Meus dentes bateram e meus movimentos engasgavam de espasmos. Quando dei por mim, percebi que minha alma roçara pela friagem da superfície congelante da mais cristalina e pura loucura. Entretanto já era hora de me levantar para mais um dia de trabalho.

Jorge de Barros

quinta-feira, 14 de maio de 2009

PEQUENO PRÍNCIPE por HENFIL

GUARDA-CHUVAS

Sr. Mikawaya



entre máquinas de escrever, fonógrafos, daguerreótipos, mata-borrões, pince-nezes, enciclopédias e quiçás
o poeta acena

com a esperança de improváveis porvires

e uma profunda inveja dos guarda-chuvas


Jorge de Barros

PROVÉRBIO e SAPATEIROS

ao poeta do século passado


"A PRESSA É INIMIGA DA POESIA"

por isso nós, companheiro, sapateiros da palavra
destes tempos somos desconhecidos

por isso nós, companheiro, Bandarras que somos
professamos a fé na loucura

e de que vale sermos antena da raça,
se é tempo de GPS, empreendedores e muros?

Jorge de Barros

segunda-feira, 27 de abril de 2009

AO SUL DO RIO BRAVO

madeira reutilizada e óleo


Segundo dados da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), 44% da população da A.L. mora em favelas...

Jorge de Barros

sexta-feira, 17 de abril de 2009

CONVERSA DE LOBOS


_Você tem medo de lobisomen?
_Lógico! Vai confiar num bicho que é meio-homem...

Jorge de Barros

quinta-feira, 9 de abril de 2009

SONETO DO ASSÉDIO MORAL


“Estupra, mas não mata” é a fala

das mais equivocadas proferida,

porque tentando defender a vida

jogou a honra na mais suja vala;


mas não só o Maluf se equivoca:

“Ela é mulher, mas é boa ministra” ¹

é outra pérola também sinistra

deste colar que a ética sufoca.


E o absurdo está por todo lado;

o absurdo é o mar da nossa ilha,

mas é muito pior ser obrigado


ao absurdo que se compartilha,

quando diz hoje o pobre do empregado:

“Patrão! Pode explorar, mas não me humilha!”


Jorge de Barros

¹ a frase original é do empresário Mario Amato, e é na verdade assim: “A ministra (Dorothea Werneck) é muito inteligente, apesar de ser mulher”...

terça-feira, 31 de março de 2009

AUTOCRÍTICA

Metamorfose de Narciso - 1937 - Dalí


a regular irregularidade dos meus versos
não sei

se brota da minha incompleta formação literária
ou se da minha completa falta de vergonha

na cara

Jorge de Barros

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Horror... O Horror...

Bush y Uribe


A sociedade dos ricos espertos do norte
com os ricos estúpidos do sul
é a maior força destruidora da História.

Jorge de Barros

quinta-feira, 19 de março de 2009

A EXPLICAÇÃO DA CRISE


A explicação da Crise não está no que Marx escreveu, mas no que ele não escreveu. Bons hackers não contam todos os seus segredos...

Jorge de Barros

domingo, 15 de março de 2009

DANÇA FEBRICITANTE

cena de O Sétimo Selo - Ingmar Bergman


a uma inflamação de garganta

a musa-febre

lambe meus olhos

umidecendo-os de saliva quente


enquanto isso

geme baixinho

e dança ao som do meu ranger de dentes


o seu abraço

ferve minha pele

e em vapor converte minha mente


os seus cabelos

me sufocando

me afogando em turbilhão dolente


as minhas forças

me abandonam

são exiladas num país distante


a febre nua

pousa em meus ombros

seus braços verdes lisos putrescentes


sua boca morta

crava-se em mim

e rala em mim o sexo decadente


rasga-me em postas

senta em meu crânio

metodológica masca meu ente


a musa verde

gorgolejante

como uma puta vã sorri indecente


e satisfeita

me abandona

e fico só triste e convalescente


Jorge de Barros

quarta-feira, 11 de março de 2009

QUERIDO CHEFE...

Louis XIV, o Rei Sol - Hyacinthe Rigaud, 1701


F
iz-te um favor sendo educado
I
njuriei-me e me contive
L
i nos teus olhos o sarcasmo
H
umilhação maior não tive
O
uvi porém minha consciência:

Deitei aos tapas honrosamente
A outra face tal qual um cristo

Posto que agora me é devido
Um esforcinho de tua parte
Tentando ler (sei que é difícil)
As entrelinhas do meu calar-se…
!


Jorge de Barros (funcionário do mês)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fórum Social Mundial Belém - 2009 / Decepção e Catarse

Mensagem formada por 12oo índios durante o FSM -2009


Fórum Social Mundial Belém - 2009
Decepção e Catarse

Seguir na marcha de abertura do Fórum Social Mundial, sob a chuva abençoada – puro suor da Amazônia – acompanhando tantas cores, tantos rostos, tantas línguas e sotaques, tantas lutas, tantos sonhos e utopias... foi catártico.
Perceber as contradições irreconciliáveis, a mesquinharia de alguns partidos arautos do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, os oportunismos de última hora, a arrogância infantil dos que creem sua luta superior às demais... foi decepcionante.
Ouvir as grandes vozes das grandes mulheres, dos grandes homens, que, seguindo a orientação de Sartre, elegeram uma bandeira e descruzaram os braços, desceram dos muros das teorias para juntar mãos militantes na construção do outro mundo possível... foi catártico.
Ouvir asneiras dos que diminuíram o Fórum como “ninho dos desocupados”, “mero celeiro de hippies e rebeldias anacrônicas” ou, ainda pior, perceber que há certa classe de “militontos”, que vomita ecologismos e socialismos, mas só pratica o hedonismo e o proselitismo... foi decepcionante.
Conhecer a Belém dos pescadores veneráveis, dos vendedores simpáticos do Ver-O-Peso, das bruxas de encantamentos coloridos, da juventude de iaras e botos, do carimbó, do tacacá, da maniçoba... foi catártico.
Descobrir que, ao se preparar para o Fórum, os poderes da cidade sumiram com mendigos, vira-latas e urubus (sabe-se lá o que fizeram a eles), sem falar na repressão à população pobre durante o Fórum, impedida de participar pela taxa de 30 reais ou pela borracha da polícia... foi decepcionante.
Presenciar tantos povos indígenas reunidos e, mais do que isso, organizados. Vê-los passar durante a marcha, com seu colorido, seus movimentos, seus passos, seus semblantes. Tudo próprio e original como toda cultura original... foi catártico.
Presenciar a vexaminosa postura dos que se digladiavam para tirar uma foto ao lado de um índio, como se o mesmo fosse um boneco da Disney, evidência da tamanha distância que separa brasileiros de brasileiros nativos, sem falar na demora da organização do Fórum em terminar a tenda dedicada aos índios (deveria ter sido prioridade)... foi decepcionante.
Ver a história arquitetônica da cidade, a Basílica de Nazaré, os casarões, o centro velho, as vielas históricas, as mangueiras centenárias, o Forte do Castelo, a Casa de 11 Janelas... foi catártico.
Ver a mesma história corroída e esquecida, com rachaduras tecidas pelo tempo ou reformas (mal) realizadas por mãos inábeis... foi decepcionante.
Mas difícil mesmo é descrever o maior misto de catarse e decepção a que se poderia chegar nesse importante evento:
A catarse das vozes dos povos, os matizes de suas lutas: Indígenas, Quilombolas, Sem Terra, Sem Universidade, Marcha das Mulheres, Povos Sem Estado, GLBT’s, Palestinos, Periféricos, Atingidos Por Barragens, Igrejas, Defensores dos Animais, Trabalhadores e Sindicatos... mas, ao apurar ouvidos e olhos, em busca de uma voz unânime, de uma cor predominante, de uma idéia geral que unisse tantas lutas dissonantes... a decepção de não encontrar nada... Ou apenas a musa frágil (porém musa!) do lema: “Um Outro Mundo É Possível”.
Nem mesmo com relação ao mote do Fórum de Belém – a Amazônia –, há consensos visíveis: existem os que defendem o paraíso absolutamente intocável, contra os que preferem o estudo sistemático para proveito da própria região e da ciência, em outras palavras, a exploração sustentável. Também há quem fale em patrimônio da humanidade, mas contra estes se erguem as vozes de latino-americanos que bradam: “A Amazônia É Nossa”, chamando, dessa forma, atenção para a nossa responsabilidade frente ao uso/preservação desse fantástico bioma.
Mas será que consensos são possíveis nesse universo de idéias multicores? O fórum clama: “Um Outro Mundo É Possível!” e a sociedade, meio cética, meio apática, cruza os braços, olha de soslaio, e pergunta: “Qual”? Confesso que eu mesmo fui a este Fórum Social, o primeiro da minha vida, com o intuito de buscar respostas. E eis que retorno cheio de decepções... e catarses, mas resposta nenhuma.
Acontece, porém, que também encontrei muita gente tentando, ao seu modo, fazer um outro mundo possível... índios que vieram exigir saúde ou mostrar e ensinar para seus “parentes” projetos de reflorestamento, jornalistas que ainda acreditam no poder da informação para a difusão de novas idéias e ideais, comunidades e movimentos sociais que, de diversas maneiras, criaram redes de economia solidária. Micro-soluções locais, pequenos gestos de boa vontade, solidariedade, fé... E também os grandes movimentos sociais, organizados contra os latifúndios, contra as grandes empresas poluidoras, contra as guerras movidas pelo capital, contra a poluição do meio-ambiente, contra a escravidão e todo o tipo de opressão.
Aliás, percebi que se amplia, cada vez mais, a noção de que as lutas sociais e as ecológicas não podem seguir dissociadas. Defender o meio ambiente sem pensar na erradicação da pobreza é falácia, da mesma maneira que a luta por justiça social que ignore o conceito de sustentabilidade do planeta é pura ignorância.
Enfim, percebi que as forças como as que atuaram no Fórum Social Mundial, com todos os seus embates e contradições, são como uma obra em pontilhismo: se nós olharmos de perto, veremos uma confusão irritante de pigmentos, aparentemente sem sentido, superficialmente caótica. Mas se nos afastarmos lentamente (e esse afastamento só é possível com a passagem do tempo), uma forma vai surgir, como mágica, frente a nossos olhos. Entretanto, é impossível enxergá-la agora: o quadro está bem à frente do nosso nariz, estamos imersos demais dentro dele para perceber. E os pintores desse quadro, os povos do mundo, os movimentos sociais, usam o pincel da boa vontade e as cores da insatisfação... Só o passar dos anos nos permitirá olhar, com nitidez, tudo o que se está construindo a partir de eventos como esse. Mas a melhor coisa, creio eu, não é ficar só esperando pra ver qual forma irá constituir o mundo futuro. O ideal é pegarmos nossa boa vontade e nossa revolta e nos juntarmos ao coro da humanidade ofendida.
Pois enquanto um só Ser Humano estiver sob a bota da opressão e a Natureza sofrer com nossa ação predatória, não haverá redenção para a Humanidade. Entretanto Ela também estará definitivamente perdida, no dia em que ninguém tiver voz para gritar contra a injustiça e a violência que atinge nossos irmãos e nossa Mãe-Terra.


Jorge de Barros

REDE DE LIVROS, PIRAPORA, LÉO DO PEIXE, TOM ZÉ


Minha amiga Crica me convidou para multiplicar esta idéia (que é do Tom Zé, que é do Léo do Peixe) . Leiam abaixo e procurem mais com ela no blogue http://quintaldacrica.blogspot.com/

Aí vai:

"Pessoal, na cidade de Pirapora, Minas Gerais, um feirante, Leonardo Diniz Filho, conhecido por todos como Léo do Peixe, mantém um círculo de leitura, que se põe em atividade assim que Léo termina o serviço na banca de peixe. Ele estava precisando de alguns milhares de livros para que a circulação da biblioteca beneficie maior número de pessoas. Num país em que a leitura tem de ser cultivada como se fosse um criatório de peixes, de bichos, de plantas, com cuidados que tais, quem puder colaborar com Léo do Peixe e lhe mandar livros estará fazendo muito.
Fiquei encantado com a história de Léo, que poderia estar fazendo qualquer coisa com seu tempo mas escolheu o coletivo, escolheu a todos nós. Pirapora é pequena, mas nela coube uma ideia. Fiquei sabendo do caso de Léo do Peixe pela revista Globo Rural, quando manifestei vontade de ajudar a revista veio aqui me entrevistar, botou meu retrato, espero que tenha ajudado a mandar livros pra Pirapora.
Consegui mandar pra Léo perto de uma centena de livros do meu acervo pessoal. O endereço é Leonardo Diniz Filho (Léo do Peixe), Avenida Benjamin Constant, 1135, Pirapora, MG cep 392270-000. Menciono redes que os conhecidos ajudam a formar pelo mundo: um conhecido de Belo Horizonte, cidade que fica no jeito pra Pirapora, não é tão longe, de repente vem pra São Paulo ou sabe de alguém que esteja passando por aqui, dá a ideia ao itinerante e este volta de viagem com uns livros na bagagem. Enfim, pra blogueiro não preciso dar aula de iniciativa, vocês têm muita.
Abraços, obrigado.
Tom Zé - 25/02/09 "

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

POTOSI - AUSCHWITZ

Sem Saída - Ricardo Amadasi

Um povo

Este peso que levo nos ombros feridos é a materialização dessa opressão. Queria ter nascido verme. Verme que fosse. E que habitasse as tripas de um desses espanhóis. Erra-se ao pensar que um escravo inveje o pássaro. Pássaro não, porque há a caça e há gaviões. Mas também não quero ser gavião, já que conheço o desespero de estar comprimido por garras atrozes. Nem caçador, já que conheço o sem sentido de ser atingido sem sequer esperar aviso. Um verme gordo e inconsciente é que seria bom. A habitar os intestinos gordos de um desses nazistas gordos. Refestelar-me de seus banquetes gordos enquanto sugo-lhe a vida pouco a pouco e o impeço de dormir em qualquer noite.
Noite...
Que nesta noite Adonai me dê sono sem sonhos. Porque minha mente só sabe conceber dois pesadelos. Ou a vida antes dessa morte, para acentuar minha dor: quanto era livre a tratar de Pachamama e a ser cuidado por Ela... nos verdes terraços férteis, sob colossais e belos picos, deuses grisalhos a cochilar tranquilos... e, ao acordar, as pestilências, esses catres superlotados, a monotonia dos uniformes listrados, as pulgas, os gemidos, os doentes... Ou então o fosso! Descer a escuridão da mina em busca do veio profundo... A vela débil, o azorrague, a morte todos os dias... os vapores fétidos e venenosos da ferida aberta no seio da mãe terra... a sede implacável dos meus algozes... a chaminé dos fornos a expelir fuligem e cinzas... nossas cinzas... Que Huiracocha limpe meus raros sonos de sonhos!

Senhores

Pai, é verdade que eles tem alma?
Sim, o Papa Paulo III os declarou como “verdadeiros homens”… mas… (que não nos ouçam)… eu duvido muito...
Por que, senhor?
Se você os visse... Seus olhos não têm expressão, sua fisionomia é desprovida de vontade… Deixam-se dominar com facilidade, são débeis… adoecem e morrem com uma rapidez imensa... Repugna-me apenas lembrar…
São mesmo raças inferiores.
Sim, com certeza não são humanos… com certeza… Dominá-los é o mínimo, escraviza-los é torná-los úteis e os afasta das heresias. Exterminá-los… um dever pátrio…
Eu já os vi de longe. Parecem humanos.
Creio que seja mais uma artimanha deles, o fato de se assemelharem a nós… inclusive as mulheres… há as bonitas… mas são lixo… deterioram nossa raça… envenenam nossas almas com seus feitiços pagãos…
Posso ver um de perto?
Daqui há alguns anos… se ainda existirem…

Resiste

Você! Levante-se!
Senhor…
Diga-me! Você tem sonhos?!

O que quer este jovem SS? Mal tem barba, mal saiu dos cueiros… por que me olha assim? Por que me olha? O que perscruta em meus olhos… Aqui estou deitado para morrer... esgotado… aniquilado… vencido… e ele quer que eu tenha sonhos?
Senhor?
Imprestável! Responda!

O que quer o filho do mineiro? Seu lábio está tremendo? É um fio de suor que lhe escapa à têmpora? Está com medo de mim? Com medo de si? Com medo de Deus? Quer saber de mim, que há meses não sei que é vida, se tenho sonhos?
Como assim, senhor?
Sonhos! Não sabe o que é sonho?! É um animal?!

Sonhos... se sou um animal? Ele tem dúvidas? Porque os outros não têm dúvidas, tratam-nos como animais ou pior... mas este tem... este tem alma...
O senhor, quando me olha, vê um animal?
Não perguntei isso! Seu verme!

Um soco. No rosto. Só mais um... chego a sorrir disfarçado... ele não é bom nisso. Já levei tantos… tantos… tantos… Quanta revolta eu sentia! Quanto desespero de ódio! Agora é só um soco inexperiente de um rapaz franzino. É quase um afago nesta carne cevada a punhos e coronhadas...
Você é um verme, por isso não tem sonhos!
O senhor, quando me olha, vê um verme?

Um chute. No estômago. Já esperava até. A gente aprende a contrair os músculos tão logo um deles se aproxime. E aprende a gemer mais do que dói, para que parem. Mas não posso conter o riso entre dentes. Ele é tão bom de chutes quanto é de socos. Um oficial se aproxima, seu superior. Olha com aprovação a tortura aprendida na academia militar... é seu pai... orgulhoso do filho a controlar os mitayos mais rebeldes...
Senhor, o que quer de mim? Se digo que sou verme me matarás? Vai me poupar se eu disser que sou homem?
A dúvida em seu rosto é singular... os olhos são quase infantis, impregnados de humanidade, de religião... os olhos estão desesperados de dúvida! É provável que uma mãe caridosa, na sua ilha de amor doméstico, o tenha educado finamente, ensinado o valor da vida, da caridade, do amor ao próximo… Mas o pai se aproxima... meu algoz mais cruel, o capitão, desumano, assassino de mulheres e crianças... Então... eu cuspo na cara do filho!
Desgraçado! Peste imunda!
Soco. Soco. Chute. Chute… Chute. O pai sim, o capitão sabe bater...
Mate-o!
Isso.
Mate-o já! Seja homem! É uma ordem!
Então eu digo:
Mate-me, garoto, realize este meu último sonho!
Agora ele sabe que sou um homem! E treme, treme muito. Outros já se aproximam... o capitão, o pai está perto, olha com olhos injetados e inflamados. São na verdade esses olhos que puxarão o gatilho. O filho não pode dar esse desgosto ao pai, o bom soldado não pode trair a sua pátria. O pobre rapaz não tem escolha… quase chego a arrepender-me do que fiz… Quase…

É bem verdade que não se chega a ouvir o estampido.

Jorge de Barros
!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Publicação d"O Presépio da Capela São José Operário"

E não é que o meu bom e velho cordelzinho ainda dá pano pra manga? A Editora Ave Maria achou por bem publicá-lo, olha aí:


Quem quiser adquirir o seu é só procurar uma loja da editora ou pelo site: http://www.avemaria.com.br/lojavirtual/produto.jsp?cID=8&pID=501236

Abraço!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

GOIABA


( Domingo. Como um frango cozido. Lia, minha esposa, faz um maravilhoso frango cozido. Meus filhos não gostam muito. Pegam uma coxa um, o outro um pedaço do peito. Eu prefiro o espinhaço, o pescoço, a asa, o pé... Chupar os ossinhos suculentos... Comer com a mão...

Depois, como meu pai sempre fazia, abro um pote de goiabada. Se bem que, naquele tempo, não era pote, era lata. Meu pai, cerimonioso, silencioso, abria a lata com uma faca de ponta, dando batidas no cabo e, furo a furo, ia libertando primeiro o cheiro, depois a cor e, finalmente, o arenoso sabor da boa goiabada cascão... E nós, ao redor, apreensivos, aguardávamos ele distribuir o doce.

A minha goiabada é muito menos, é até pálida... aguada. Filha distante daquela outra. Não é cascão e, com um puxão da tampa plástica, abre-se com facilidade. As embalagens adaptam-se aos homens. Meu pai dava murros em faca, concentrado no aço que defendia o doce. Eu puxo a tampa flexível, entediado, e olho a data de validade. Meus filhos nem percebem meus movimentos à mesa, já estão na sala vendo desenhos. Passam por mim, abrem a geladeira e pegam iogurtes. Não gostam de goiabada.

E eu fico a admirar a superfície lisa e vermelha do doce, então, com uma faca sem ponta, daquelas de passar manteiga, talho uma fatia gorda e brilhante e espeto na própria faca. Assim é a maneira mais gostosa de se comer goiabada. Meu pai fazia desse jeito, ia espetando e distribuindo, primeiro pra mamãe e depois para os filhos, do mais novo ao mais velho. E a gente corria pela casa, pelo quintal, com a goiabada espetada na faca, comendo devagar pra depois fazer inveja aos outros. Como era boa aquela goiabada!

Minha mulher me observa, me examina... será que ela também sente essa saudade? )

– Arnaldo, eu já não te disse que temos potes de sobremesa?

Jorge de Barros

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Vida Plena


Me disseram que uma vida plena consiste em:
- ter um filho;
- plantar uma árvore;
- escrever um livro.

Mas, pensando bem, se...
- o filho virar “bad boy”;
- a árvore for eucalipto;
- o livro for de auto-ajuda...

Melhor ficar assim quietinho quietinho…

Jorge de Barros

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

DARLENE

Luz del Fuego

Dedico:

A todas as que se dizem putas

E as que não se dizem



“Éramos tão pouco reservados em nossas carícias, que não tínhamos paciência para esperar ficarmos sós”

Abbé Prevost

Marguerite: Coração... É a única ameaça de naufrágio na travessia que estou fazendo.”

Alexandre Dumas Filho

“sentia sim com tal acrimônia e desespero, que o prazer a estorcia em câimbras pungentes”

José de Alencar

“Remexida de linda, representava mesmo uma rapariga, uma murixaba carecida de caçar homens, mais forte, muito, que os homens”

Guimarães Rosa

“Ah, coito,coito, morte de tão vida”

Drummond

“Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo”

Manuel Bandeira

“Não lamentes, oh Nise, o teu estado;

Puta tem sido muita gente boa;

Putíssimas fidalgas tem Lisboa,

Milhões de vezes putas têm reinado”

Bocage

“Uma estrelinha desnuda

Está brincando no charco.”

Mário Quintana

“Não olheis eu ser morena:

foi o sol que me queimou;

os filhos de minha mãe

se voltaram contra mim,

fazendo-me guardar as vinhas,

e minha vinha, a minha

eu não pude a guardar.”

Cântico dos Cânticos 1,6






Silêncio!

Salomé prepara sua dança

tragam o véu

tragam o cepo

e sirvam-se de bandejas de prata




expressão máxima da solidão: fazer poema?

não.

ir a um puteiro pagar um drinque






epifania

há mulheres que surgem

como se fossem idéias




Darlene era a puta mais bonita

lhe contei minhas melhores piadas

lhe abri meus ingênuos projetos

ela sorria

― Você gosta de falar, né?






decote

toda mulher adora

brincar de metonímia






a cintura um desaforo

os seios um disparate

a bunda empinadinha

um despautério

a nuca em suas pelugens

um absurdo

era toda digna de boas dentadas






homens

a umidade é que nos mata






Darlene era toda aconchegante.

― Toda?

Toda…






buscando

a volúpia da violência

morre-se

na violência da volúpia






Darlene me mostrou o paraíso

quando disse

― Me bate…






como se a essência eu lhe sugasse

e a minha ela esgotasse

uma disputa

a ver quem chega

por último






sutileza

meu bem,

como eu gostaria de beijar

todos os seus lábios…






“No princípio…

(…)

… Amém.”






orgasmo

ainda sinto

as unhas

e o gosto

da nuca






volátil

quando a pinga é boa escorre da parede do copo como lágrima de óleo fosse

com amor e poesia não é diferente






epílogo

como quem restaura um quadro

lentamente

ela se veste






se tão contrário a si é o mesmo amor

como pode?






Darlene tinha olhos de ver

olhava através

assustava-se com nada

não sabia cochichar

não sabia dar bitocas

não sabia bebericar

tudo nela era demasia

falava de boca cheia

corria pulava gritava

chorava quando gozava

mas também fingia chorar






Aquiles

jamais pensa em calcanhares






oblíqua

― você tem medo?

― de quê, Darlene?

― apanhar ser preso brigar trabalhar…

― mas… apanhar de quem?

― não nada, desculpe que estou meia maluca…

e foi logo pegando no meu pau






nova esfinge

― devora-me

ou decifro-te!






Darlene chorava:

― preciso lhe falar…

soluçou como menina e dormiu

de manhã era toda sacana

― e ontem, meu bem?

― era nada…

e nunca mais vi Darlene chorar






Margherite

muito lhe será perdoado

pelo muito que amou

mas não tudo






Darlene quis passear num domingo

eu inventei uma desculpa sórdida

e nunca mais ela me pediu nada






como quem muda os móveis da sala

mudava

o meu espírito

certa vez confessara

que meu cenho franzido

excitava





Darlene riu de mim em pleno coito

― que foi?

― nada…

― QUE FOI!?

quebrei o abajur ameacei um tapa

― é que você respira…

de um jeito tão engraçado…






Ela: “o poder não vem

de quem armas tem

mas de quem as empunha

, meu bem”






― Darlene, vamos terminar!

Ela assustou-se

― a gente é tão diferente, Darlene!

― não seja bobo

e foi logo pegando no meu pau






diálogo

― Mestre, julgais Afrodite mais implacável que Ares?

― Filho, o mais que Ares pode é matar-te






tão simples como morre o sol

Darlene virara desamor

mas

não acreditei nos lábios

não acreditei nos olhos

não acreditei nos gestos

só quando ela gemeu em falsete

um gozo cínico

ofensivo

final






a mulher de Ló sorria?

os vizinhos ardiam, ora






pra provocar Darlene

brinquei com Nana

dancei com Nana beijei a Nana me atraquei com Nana

na frente de Darlene

mas Darlene não tinha nem olhos

Darlene impassível estátua de sal

e Nana arremedava sorrisos

sorria os olhos

era toda gritinhos

e eu desejei mais e mais

Darlene impassível

estátua de sal




ela passou...

…e as outras ficaram um pouco menos femininas

ela passou…

…e então se podia jogar os olhos fora

ela passou…

…e aí que eu fui entender a Ilíada




mas

depois de Darlene vieram outras

e antes mesmo tivera muitas

saldo final:

Darlene

e as muitas outras






domecq

a cor do conhaque é triste

e a luz na superfície parda-dourada

é a do sol de lembranças antigas

ancestrais

entranhadas

um cheiro de quase

e o gosto de algo que se descobriu fascinante

mas já era tarde.






17h59

ontem

um dia depois de muitos

o perfume de Darlene visitou meu cárcere ensaiou um pé de valsa e se foi entediado

eu nunca tive nem

esse perfume.



Jorge de Barros

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

soneto do amor defunto

Room in New Yort- 1932; Edward Hopper

(como se nunca houvera existido)
pasmo fiquei olhando as mãos vazias
rindo. não vi o corroer dos dias,
quando notei, já tinha o amor partido.

não deu aviso, levantou e foi-se.
nenhum sinal, assim como roubado
fosse, no tempo de eu olhar pro lado.
sem terremoto. não senti nem coice.

fui surpreendido e estando assim incauto
a dor do sofrimento não previ.
olho o passado, olho o presente, junto

os dois, mas nem sequer um sobressalto!
e isso é dor maior que já senti:
não conseguir chorar o amor defunto.

Jorge de Barros

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O CHÃO


Dois dias. Quarenta e Oito Horas. Dois mil oitocentos e oitenta minutos. Cento e setenta e dois mil e oitocentos segundos. Não posso dormir. Não posso dormir aqui.

Lembrar… é preciso lembrar. O acidente. Este gesso no meu braço. Tudo é bastante simples, a história não é nova: autônomo, pequena empresa, investimento, acidente, internação, tratamento, poupança, aluguel, contas atrasadas, e a queda. Agora estou na miséria? Não. Ainda não. Não devo nada pra ninguém. Nada.

Calor … tenho que fazer essa barba! E este gesso coça... coça. Por mais que faça não dá pra alcançar a fonte da coceira... é lá bem no meio do gesso. Inalcançável... Vou me sentar aqui... No chão, não! O chão, não! Ali, o banco da praça! Lugar certo de se sentar!

Esta barba, esta barba… este gesso, este gesso… Devo estar com a cara horrível. Dois dias sem dormir. Quarenta e oito horas. Dois mil oitocentos... e oitenta minutos. Cento e setenta e dois segundos... mil segundos. Cento e setenta e dois mil segundos... Este banco... Esse sol... Não, não, não e não, não vou desistir. Em frente!

_O Senhor pode me dar um copo d’água?

_Não tem!

_Mas da torneira mesmo...

_Não tem! Tchau!

Mas peraí, o que é isso? Nunca me negaram um copo d’água? Que falta de educação! Mas será que...

_Mas eu só quero um copo d...

_Meu amigo, vai feder em outro lugar! Sai fora!

“vai feder em outro lugar...”, “vai feder em outro lugar...”, Dois dias sem tomar banho. Quarenta e oito horas sem comida. Cento e setenta e poucos mil segundos sem dormir. A fome já veio, foi, veio, foi, veio, foi... mas o sono é como uma pedra na nuca que só aumenta... aumenta...

Se eu deitar no chão estarei perdido. O chão vai me abraçar como uma cortesã maldita, seus dentes pretos, seu hálito detestável, sua pele áspera, seus braços sarnentos, a pele cinza... mas sua voz é doce... Eu preciso dormir... as camas são produtos artificiais, o chão é nossa morada mais antiga, nosso berço ancestral... Só pra reconstituir minhas forças, amanhã dou um jeito, faço a barba, arrumo emprego. Qualquer coisa serve, tenho experiência... Não. Dormir agora não!

O mal é este gesso... tenho que tirar, mesmo que o braço doa, ninguém vai me dar emprego assim. E como coça! Esse calor! Não quero pensar nisso, esta sujeira colada na minha pele. Dois dias entre fumaça de carros e poeira de asfalto. Devo estar horrível. Parecendo até um mendigo. Por isso é que aquele cara me tratou tão mal. Me confundiu com um mendigo. Coitado...

Dois dias... Quarenta e... oito horas. Cento e... sententa e dois mil oitocentos e oitenta minutos... Segundos? Dois mil oitocentos e setenta e dois minutos e cento e oitenta e oito mil e tralalá segundos. Parece que tenho areia nos olhos. Parece tudo um sonho sépia. As cores da cidade tão estranhas... O sol parece que está com defeito. Preciso me levantar, preciso me levantar, preciso andar. Parado não vou conseguir nada!

_Olha por onde anda!

Tanta gente aqui, tem tanta oportunidade por aí. Olha essa cidade. Olha o trânsito. Olha lá um Uno vermelho igual ao que eu tinha! Ê, delícia, dirigir o que é nosso! Buzinar, xingar o trânsito, pagar IPVA, reclamar da gasolina que sobe! Eita, como é bom! Se eu deitar no chão, nunca mais vou ter isso de volta. Não posso desistir! Vou achar um emprego hoje! Ah! Aqui tem aquela loja de equipamento! Já comprei muito ali, o dono me conhece! Conheço o funcionamento de todas essas peças, não tem nenhuma novidade para mim nessa vitrine... vitrine… Mas que é isso...? Esse aí sou eu?

_Pois não?

Tenho que sair daqui! Horror! Será que ele me reconheceu? Não... Nem eu me reconheci. Deus! O que é isso? Deus... Deus! DEUS! O que está acontecendo? O que eu fiz? Por que eu? EU! Por quê? POR QUÊ!? Dois dias sem tomar banho, sem dormir, só dois dias e já fiquei assim? Não é justo! Trabalhei, paguei meus impostos, sou um cidadão de bem! Sou um cidadão! Sou! O que acontece com os cidadãos quando se vêem em perigo? O governo... o governo tem que me amparar! Não é possível, não é possível que tudo tenha dado em nada...

_Policial, eu preciso de ajuda...

_Circulando. Não pode ficar aqui não!

_Eu não tenho aonde ir...

_Mas não pode ficar aqui. Vai! Vai!

Não, peraí... Eu estou fazendo alguma coisa errada... tem algo que eu não estou pensando...

_Senhor, desculpe minha aparência, estou duas noites sem dormir...

_Toma aqui.

_Não, não quero dinheiro, quero saber se tem algum lugar que eu possa ir, um lugar pra ajudar as pessoas com necessidade...

_Um abrigo? Parece que tem um lá na Praça...

_Abrigo? Abrigo de mendigo? O senhor não entendeu. O senhor acha mesmo que eu sou um mendigo?

_Desculpa, mas eu tenho que trabalhar.

Eu também.

Oito horas... Cento e quarenta minutos... Mil e oitocentos e oito segundos... Conforme o tempo passa eu vou ficando transparente... É isso, estou ficando cada vez mais fino, mais fino, a cinza da cidade está se colando na minha carne e eu estou virando parte dela. A cidade está colando em mim. As letras do meu RG e os números estão se apagando. Mas o que é isso? O ritmo do movimento das pessoas e carros diminui até que ficam quase parados. Eu caminho entre pessoas congeladas e carros em câmera lenta. O cheiro da fumaça é o meu cheiro. O pó e o cansaço da urbe, que antes eu lavava, aliviado, sob a ducha refrescante e paredes de porcelana, num passado que agora parece outra vida; agora esse pó é minha casa, esse cansaço, minha blusa. Sobre minha pele. uma casca começa a surgir: é o mesmo limo que cobre os muros e os tetos das casas, transformando-nos em uma só substância contínua, a cidade.

Esse chão irregular, esburacado, sujo, enferrujado, carcomido, azedo, este chão é meu lar agora? Ali tem uma sombra e um pedaço de papelão que minha mãe me preparou... Ah... é uma cama macia, um colo, útero. O útero de alcatrão dessa cidade imensa... Como é bom estar de volta neste local onde nunca estive. Quero me acabar aqui, como trapo sujo jogado a um canto. Mas que não me incomodem...

Colando o ouvido ao chão, posso ouvir o pulsar manso de milhões de passos, o escorregar rasteiro de milhões de rodas, o tilintar suave das britadeiras, a dança dos batedores de carteira, o cricrilar dos vendedores ambulantes, o coaxar nervoso das buzinas, o miado melancólico das sirenes… e sinto, quase imperceptível, o coração batendo em outros peitos que também se colam ao solo, que deitam os seus ouvidos no concreto... São meus irmãos, finalmente. Uma voz velha range uma canção de ninar. É nossa mãe, cidade, a embalar-nos no seu colo de chão... este chão... o chão…

Jorge de Barros