Feriado na quarta-feira, aniversário de São Paulo, levantei cedo para ir protestar.
Confesso que não sou um habitué de protestos. Claro que participei de alguns na faculdade, quem não o faz? Além do Fórum Social Mundial, embora o Fórum tenha muito mais cara de evento oficial.
Parei em frente ao espelho e pensei: “com que roupa eu vou?”. Parece um detalhe banal, mas depois dos eventos da USP com o “revolucionário da GAP”, a imagem pode se tornar uma verdadeira armadilha.
No metrô, eu encontrei a massa. Mas não estava indo pra nenhum protesto, eram torcedores do Corinthians, pois também era dia de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior.
Já na Praça da Sé, deparei-me com um caldo ralo de manifestantes que tentavam se espalhar e circulavam sem muita ordem. Bandeiras de alguns partidos de esquerda, outros à esquerda da esquerda. Um grupo de palhaços. Um grupo de estudantes. O pessoal do Sindicato. Algumas pessoas que vieram da comunidade ameaçada do Pinheirinho em São José dos Campos. O grupo de apoio aos massacrados da Cracolândia. E também, sentados nas muretas ou deitados no chão, com seus olhares esquivos e movimentos de coral, os mendigos da Sé. Este é um dos lugares mais tristes de São Paulo.
Eu circulei por ali, procurando algum rosto conhecido e então me lembrei do 35. O carregador de malas da estação da Luz do conto de Mário de Andrade. Aquele que saiu no primeiro de maio, em pleno regime do Estado Novo, buscando irmanar-se com os seus, mas só encontrou uma cidade vazia, eventos oficiais, policiais por todo o canto para garantir a “ordem” e também um jogo de futebol! “...aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o Primeiro de Maio...” Era isso, eu me sentia um pouco como o 35.
Foi então que um dos manifestantes começou a gritar da escadaria: “A Kassab está na missa!”, então resolvi entrar na igreja, pensando no mau gosto de se referir ao prefeito no feminino com intenção depreciativa. Opção sexual de ninguém deveria ser usada desse modo.
Dentro da igreja, eu reencontrei a massa. A catedral estava lotada, era a missa em homenagem à cidade de São Paulo. Apesar de alguns olhares atravessados para o adesivo “Somos todos Pinheirinho” no meu peito, eu até que me sentia em casa, pois cresci correndo entre bancos de igreja ouvindo “psiu” dessas mesmas beatas. E até acho bonito ouvir a voz do povo ressoando na catedral. O bispo Dom Odílio Scherer, que dias antes havia elogiado a ação da polícia na Cracolância, fazia um discurso de conciliação durante a homilia. A velha Igreja de sempre.
E o bispo lembrou a vida de Paulo de Tarso, que dá o nome à cidade, e de como ele ouviu o chamado de Cristo e, de perseguidor dos cristãos, passou a apóstolo. São Paulo era soldado, oprimia e matava uma minoria religiosa em nome do Império Romano. Eu lá em pé, ao lado da pilastra, fiquei pensando quando é que a cidade também teria a sua epifania e deixaria de massacrar os pobres.
Lá fora, os manifestantes ligaram os carros de som. “vamos cercar!”, “ele tá lá dentro!”, “vamos nos dividir nas saídas para ele ver a gente!”. Então eu me persignei e fui lá fora atender esse chamado.
Uma ideia logo chegou ao microfone: “vamos dar um abraço na catedral!”. No início foi um pouco difícil organizar as pessoas, eu duvidei de que havia gente o suficiente, mas logo aconteceu. E de braços dados começamos a gritar palavras de ordem e canções de luta. Mas havia também muita raiva naquela corrente. As ações da Polícia Militar no Pinheirinho, na Cracolância, na USP... logo alguém gritou: “Assassino!” e depois outro, e mais outro... eu fiquei imaginando o prefeito e o governador tomando sua hóstia ao som dessas vozes.
Bispo: O corpo de Cristo.
Vozes: ASSASSINO!
Governador: Amém.
De repente, um cabeludo com sotaque espanhol entrou na roda com a namorada brasileira e me perguntou: “¿Por qué estás gritando "Asesino" para la iglesia?”. Eu expliquei pra ele os últimos acontecimentos, a truculência, as mortes, os desaparecimentos. “Ah, el prefeito está ahí dentro?” E ele então se juntou a nós. Nossos hermanos latinos sabem protestar bem, tratam isso com muito mais naturalidade do que a gente. A namorada brasileira dele estava claramente constrangida, enquanto ele agia com a maior naturalidade, como se nós estivéssemos empurrando um carro enguiçado e ele tomasse a iniciativa de ajudar a fazer o bicho pegar na banguela. Foi uma gentileza de vizinhos.
Depois foram as tentativas do prefeito de sair da igreja, a primeira, frustrada, a segunda, com ovadas, socos e cotoveladas, gás pimenta e bomba de efeito moral. Mas o que mais se disparou foram fotografias para os jornais. Resultado: um ferido, uma dúzia de ovos desfalecidos e o movimento todo reduzido à meia dúzia de fotos mal tiradas.
Mas depois veio a marcha até a prefeitura. Os manifestantes pareciam ter triplicado, pessoas que estavam na missa devem ter se juntado ao grupo inicial, além de alguns transeuntes. Ah, o 35 deve ter nos seguido, bem velhinho, ao passo solene dos anciões, mesmo com o ciático incomodando. E ele, se fosse jovem, teria se juntado ao grupo moreno de sindicalistas, que após a confusão ficaram contando vantagens de quantos socos e pontapés deram e omitindo os que levaram, com o ritmo de narradores de futebol. Imaginei que depois, no fim do dia, os policiais do outro lado também deveriam conversar entre si sobre as borrachadas e coturnadas que desferiram. Vinte segundos de pescoções equivalem a meses de narrativas homéricas.
Mas à passeata. Foi nesse momento que eu senti aquilo. Estávamos nas ruas da cidade e elas eram nossas. Parecia que, se permanecêssemos juntos daquela forma, e pudéssemos deliberar, consentir e agir, tudo seria possível. O planeta ficaria bem e as crianças estariam seguras. Mas durou pouco essa sensação, porque depois que atravessei o Viaduto do Chá e meus olhos se alongaram no Vale do Anhangabaú, eu vislumbrei, mais uma vez, a massa...
Estava acontecendo um show em homenagem ao aniversário da cidade. E era tanta gente reunida que minha marcha ficou parecendo um pinguinho de gente. Será que eles sabiam? Será que, se nós fôssemos lá avisá-los de que há gente perdendo suas casas para empresários podres de rico construírem “empreendimentos imobiliários”, eles se juntariam a nós?
Então eu deixei a marcha e fui em direção à massa. Estavam felizes, dançando, brincando, flertando e, quando me juntei, o cantor puxou o coro do hino do Corinthians, porque o time paulista havia vencido o campeonato. Enfim... feriado, futebol e música. A vida é boa! Os problemas a gente vai levando.
Encolhido, como o 35 no fim do seu Primeiro de Maio, esmagado pela apatia, tomei o metrô de volta pra casa. Foi aí que eu reparei em um garotinho se esforçando ao máximo para explicar para um pai gigantesco e sonolento o que era “SOPA” e “PIPA” e como o governo americano estava ameaçando a liberdade na internet. Era um garoto de uns nove anos, no máximo, que se estorcia para dar exemplos para um pai indiferente, cujo olhar lembrava o indiferente vagar dos elefantes marinhos. E o menino falava, falava, falava mais ainda, até o desespero do pai, que não tinha alternativa senão ouvir. Sorri para aquela pequena cena doméstica e guardei comigo uma pequena epifania. Próximo protesto, estarei lá.
Jorge de Barros