sábado, 18 de fevereiro de 2012

152

White Wave - Milton Avery; 1954

Todo dia, o primeiro 152 sai do terminal Sacomã às 5h30min, segue pela via Anchieta, em direção ao litoral, mas não chega nunca ao mar. Seu destino é São Bernardo do Campo. Seus ocupantes se conhecem há anos, mas sem trocar palavras, apenas os olhares cúmplices congestionados de sono. Trabalhadores de fábrica, atendentes de telemarketing, empregadas domésticas e três professoras. E todos, inclusive o motorista e o cobrador, jamais foram à praia, sequer viram o mar. Todos os dias, há anos, veem a placa LITORAL, mas nunca sentiram a areia quente formigar sob os pés, a espuma da vaga efervescer sobre a pele, a frescura salobra das águas irritar os olhos... Foi isso o que, a seu modo, disse dona Juraci, 61 anos, doméstica, preta, óculos fundo de garrafa com armação cor de casco de tartaruga: “Nunca que eu vi o mar grande!”. E todo mundo calou com essa frase ecoando fundo na alma. E o ônibus parado por causa de um caminhão que se complicou com a lei da gravidade, o trânsito congestionado a perder de vista, quilômetros de gente atrasada. As professoras ainda mais agoniadas, pois o sinal da escola já ressoara alhures e os alunos deviam estar em estado de alegria caótico, com as coordenadoras de disciplina em calculado estado de desespero. As empregadas aflitas com as patroas preocupadas e furiosas, esperando o pão quente da padaria, precisando delas para deixar as crianças na escola e seguir para o trabalho (ou shopping), e as atendentes de telemarketing e os trabalhadores das fábricas já estavam angustiados com as explicações tartamudeadas que iriam bater nos muros de aço da indiferença dos chefes irascíveis. Vinte minutos passados. Trinta. O sol se levantando em mais um dia escaldante. E o desespero inicial se transformando lentamente em resignação. O que haveriam de fazer? Era esperar a consequência do atraso, apenas as professoras ainda se angustiavam, pois agora se viam na iminência de perder também a segunda aula. E perderam mesmo, bem como a terceira, e foi aí que o trânsito se movimentou. “Nunca, nunca vi o mar!”, “Já tamo tudo atrasado mesmo!”, “O mar como será que ele é?”, “Você também nunca viu?”, “Não acredito!”, “Nem eu!”, “Eu também não!”. Foi assim que, naquela segunda-feira, o 152 não pegou a saída do Km 18, seguiu em frente, desceu a serra, arrebentou a cancela do pedágio, cruzou a Avenida Beira-Mar, enfiou-se pela areia e, enquanto seus ocupantes risonhos fechavam cuidadosamente as janelas, mergulhou no Oceano Atlântico para sua grande aventura marinha...

Jorge de Barros

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JOÃO FICÇÃO

Wild Man - Ron Mueck, 2005
 
João se levantou às cinco da manhã, como fazia todos os dias. Tomou banho, acordou os meninos pra escola, tomou o café ralo da mulher, foi ao espelhinho do banheiro pra conferir o penteado e teve a nítida e súbita consciência de que era um personagem de ficção... Mas o relógio já caminhava e não dava tempo pra pensar na vida, e lá foi ele descer o morro. Depois o ônibus, o trem, e ainda caminhar uma porção até a firma. E foi pensando em como era engraçado tanta coisa real, assim, ao alcance de sua mão, tanto detalhe no mundo, tanta gente, tanto carro, tanto tudo ser apenas coisa de ficção. Mas aí a rotina do trabalho lhe roubou o tempo de pensar em qualquer coisa. Ele fazia pneus. Trabalho duro, sistemático, alienante. Ainda bem que tinha o horário de almoço pra merecidamente encher o bucho, preencher o tempo com papo de futebol e ainda fumar um cigarrinho. Mas nada daquilo era de verdade – ele sabia – nem o arroz com feijão, nem o gol do fim de semana, nem Zé Titela, seu parceiro de máquina, palitando os dentes bem ali na sua frente... e João olhava a fumaça do cigarro subindo, subindo, depois sumindo devagar, no vento... então sentiu uma coisa estranha que ele nunca tinha sentido antes e nem sabia bem explicar. Era um tipo de inquietação.
A tarde trouxe mais trabalho, tinha que bater a meta do dia e “pensamento em linha de produção não é luxo pra peão”. Suor até o fim do expediente. Depois a condução de volta: caminhada, trem, ônibus e, pra completar, o escadão do morro... Bem no meio da subida, o preto Izé, na sua cadeira de entrevado, sempre saudava: “Ê João, Feliz foi o Jesus que só subiu o calvário uma vez!”. Ao que ele respondia: “Pois é, véi Izé, foi que eu parcelei minha cruz em suaves prestações”. Aí um dedinho de prosa, uma pausa pra descansar, um copo d’água, notícias da comadre e dos meninos, o segundo cigarrinho do dia. Depois terminar a subida pensando em como podia ser aquilo… no momento em que virava as costas, seu Izé, na sua cadeira pobre, o lençol velho no colo, o emaranhando de rugas, a carapinha revolta, a voz rouca cheia de chistes, tudo isso desaparecia, porque a realidade toda, nessa ficção que era sua vida, só podia existir em função dele. Será que os degraus iam desaparecendo conforme ele os deixava pra trás? Virou-se rapidamente, mas viu apenas os velhos degraus tão conhecidos do morro: deformados ao capricho do terreno, displicentemente cimentados, e o capim bravo a retomar espaço entre as fissuras e falhas. Não dava pra enganar o reflexo do espelho...
Mas, então, o aconchego do barraco e o feijão da patroa fizeram-no esquecer tudo por mais uns minutos. Logo, ouviu as notícias das crianças e as traquinagens do telejornal... tudo mentira, tudo ficção, um mundo inteirinho inventado. Mas pra quê? Foi aí que ele pensou se não seria possível inventar uma realidade melhor... Porque tudo tinha que ser tão do jeito que era? Ah, se ele fosse inventar uma história, ia ser uma bem diferente da sua, uma bem bonita, com princesa loira, com bandido que vira mocinho – ele achava que os melhores heróis eram os que antes tinham sido vilões – com bang-bang, com escapadas espetaculares e com um beijo no final... Pra que inventar uma história tão sem sabor feito a dele? Foi aí que notou o reflexo de seus olhos pensativos nos olhos cansados da esposa. E sentiu uma pena danada dela, que só existia pra lhe fazer o café todas as manhãs, e depois só voltava a existir, no fim da tarde, pra lhe servir a janta quente.
Saiu pra fumar o último cigarro do dia, em cima da laje, olhando a multidão de janelas pobres iluminadas por reflexos de televisores. A mesma luz mortiça e indecisa em todo canto. Tudo tão repetitivo, tudo tão cotidiano, tudo tão terrível de tanta esperança aflita... Mas, nesse instante, teve uma ideia que trouxe algum alívio pra suas angústias: num mundo como aquele, era bom mesmo que tudo não passasse de uma grande mentira...
E foi assim que João fechou seus olhos pra enxergar, enfim, só a verdade.
Jorge de Barros

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

SciFi - Spleen - SP



GODZILLA!
salve-me da sombra desses arranha-céus!

Jorge de Barros

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DIA DE PROTESTO



Feriado na quarta-feira, aniversário de São Paulo, levantei cedo para ir protestar.
Confesso que não sou um habitué de protestos. Claro que participei de alguns na faculdade, quem não o faz? Além do Fórum Social Mundial, embora o Fórum tenha muito mais cara de evento oficial.
Parei em frente ao espelho e pensei: “com que roupa eu vou?”. Parece um detalhe banal, mas depois dos eventos da USP com o “revolucionário da GAP”, a imagem pode se tornar uma verdadeira armadilha.
No metrô, eu encontrei a massa. Mas não estava indo pra nenhum protesto, eram torcedores do Corinthians, pois também era dia de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior.
Já na Praça da Sé, deparei-me com um caldo ralo de manifestantes que tentavam se espalhar e circulavam sem muita ordem. Bandeiras de alguns partidos de esquerda, outros à esquerda da esquerda. Um grupo de palhaços. Um grupo de estudantes. O pessoal do Sindicato. Algumas pessoas que vieram da comunidade ameaçada do Pinheirinho em São José dos Campos. O grupo de apoio aos massacrados da Cracolândia. E também, sentados nas muretas ou deitados no chão, com seus olhares esquivos e movimentos de coral, os mendigos da Sé. Este é um dos lugares mais tristes de São Paulo.
Eu circulei por ali, procurando algum rosto conhecido e então me lembrei do 35. O carregador de malas da estação da Luz do conto de Mário de Andrade. Aquele que saiu no primeiro de maio, em pleno regime do Estado Novo, buscando irmanar-se com os seus, mas só encontrou uma cidade vazia, eventos oficiais, policiais por todo o canto para garantir a “ordem” e também um jogo de futebol! “...aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o Primeiro de Maio...” Era isso, eu me sentia um pouco como o 35.
Foi então que um dos manifestantes começou a gritar da escadaria: “A Kassab está na missa!”, então resolvi entrar na igreja, pensando no mau gosto de se referir ao prefeito no feminino com intenção depreciativa. Opção sexual de ninguém deveria ser usada desse modo.
Dentro da igreja, eu reencontrei a massa. A catedral estava lotada, era a missa em homenagem à cidade de São Paulo. Apesar de alguns olhares atravessados para o adesivo “Somos todos Pinheirinho” no meu peito, eu até que me sentia em casa, pois cresci correndo entre bancos de igreja ouvindo “psiu” dessas mesmas beatas. E até acho bonito ouvir a voz do povo ressoando na catedral. O bispo Dom Odílio Scherer, que dias antes havia elogiado a ação da polícia na Cracolância, fazia um discurso de conciliação durante a homilia. A velha Igreja de sempre.
E o bispo lembrou a vida de Paulo de Tarso, que dá o nome à cidade, e de como ele ouviu o chamado de Cristo e, de perseguidor dos cristãos, passou a apóstolo. São Paulo era soldado, oprimia e matava uma minoria religiosa em nome do Império Romano. Eu lá em pé, ao lado da pilastra, fiquei pensando quando é que a cidade também teria a sua epifania e deixaria de massacrar os pobres.
Lá fora, os manifestantes ligaram os carros de som. “vamos cercar!”, “ele tá lá dentro!”, “vamos nos dividir nas saídas para ele ver a gente!”. Então eu me persignei e fui lá fora atender esse chamado.
Uma ideia logo chegou ao microfone: “vamos dar um abraço na catedral!”. No início foi um pouco difícil organizar as pessoas, eu duvidei de que havia gente o suficiente, mas logo aconteceu. E de braços dados começamos a gritar palavras de ordem e canções de luta. Mas havia também muita raiva naquela corrente. As ações da Polícia Militar no Pinheirinho, na Cracolância, na USP... logo alguém gritou: “Assassino!” e depois outro, e mais outro... eu fiquei imaginando o prefeito e o governador tomando sua hóstia ao som dessas vozes.

Bispo: O corpo de Cristo.

Vozes: ASSASSINO!

Governador: Amém.
De repente, um cabeludo com sotaque espanhol entrou na roda com a namorada brasileira e me perguntou: ¿Por qué estás gritando "Asesino" para la iglesia?”. Eu expliquei pra ele os últimos acontecimentos, a truculência, as mortes, os desaparecimentos. “Ah, el prefeito está ahí dentro?” E ele então se juntou a nós. Nossos hermanos latinos sabem protestar bem, tratam isso com muito mais naturalidade do que a gente. A namorada brasileira dele estava claramente constrangida, enquanto ele agia com a maior naturalidade, como se nós estivéssemos empurrando um carro enguiçado e ele tomasse a iniciativa de ajudar a fazer o bicho pegar na banguela. Foi uma gentileza de vizinhos.
Depois foram as tentativas do prefeito de sair da igreja, a primeira, frustrada, a segunda, com ovadas, socos e cotoveladas, gás pimenta e bomba de efeito moral. Mas o que mais se disparou foram fotografias para os jornais. Resultado: um ferido, uma dúzia de ovos desfalecidos e o movimento todo reduzido à meia dúzia de fotos mal tiradas.

Mas depois veio a marcha até a prefeitura. Os manifestantes pareciam ter triplicado, pessoas que estavam na missa devem ter se juntado ao grupo inicial, além de alguns transeuntes. Ah, o 35 deve ter nos seguido, bem velhinho, ao passo solene dos anciões, mesmo com o ciático incomodando. E ele, se fosse jovem, teria se juntado ao grupo moreno de sindicalistas, que após a confusão ficaram contando vantagens de quantos socos e pontapés deram e omitindo os que levaram, com o ritmo de narradores de futebol. Imaginei que depois, no fim do dia, os policiais do outro lado também deveriam conversar entre si sobre as borrachadas e coturnadas que desferiram. Vinte segundos de pescoções equivalem a meses de narrativas homéricas.
Mas à passeata. Foi nesse momento que eu senti aquilo. Estávamos nas ruas da cidade e elas eram nossas. Parecia que, se permanecêssemos juntos daquela forma, e pudéssemos deliberar, consentir e agir, tudo seria possível. O planeta ficaria bem e as crianças estariam seguras. Mas durou pouco essa sensação, porque depois que atravessei o Viaduto do Chá e meus olhos se alongaram no Vale do Anhangabaú, eu vislumbrei, mais uma vez, a massa...

Estava acontecendo um show em homenagem ao aniversário da cidade. E era tanta gente reunida que minha marcha ficou parecendo um pinguinho de gente. Será que eles sabiam? Será que, se nós fôssemos lá avisá-los de que há gente perdendo suas casas para empresários podres de rico construírem “empreendimentos imobiliários”, eles se juntariam a nós?
Então eu deixei a marcha e fui em direção à massa. Estavam felizes, dançando, brincando, flertando e, quando me juntei, o cantor puxou o coro do hino do Corinthians, porque o time paulista havia vencido o campeonato. Enfim... feriado, futebol e música. A vida é boa! Os problemas a gente vai levando.
Encolhido, como o 35 no fim do seu Primeiro de Maio, esmagado pela apatia, tomei o metrô de volta pra casa. Foi aí que eu reparei em um garotinho se esforçando ao máximo para explicar para um pai gigantesco e sonolento o que era “SOPA” e “PIPA” e como o governo americano estava ameaçando a liberdade na internet. Era um garoto de uns nove anos, no máximo, que se estorcia para dar exemplos para um pai indiferente, cujo olhar lembrava o indiferente vagar dos elefantes marinhos. E o menino falava, falava, falava mais ainda, até o desespero do pai, que não tinha alternativa senão ouvir. Sorri para aquela pequena cena doméstica e guardei comigo uma pequena epifania. Próximo protesto, estarei lá.
Jorge de Barros

domingo, 29 de janeiro de 2012

L'ART

Male and Female; 1942 - Pollock

o amor
assim como uma tela
na qual pintamos sobrecamadas
palimpsestos
retoques e repaisagens
sentindo fundo que a ideal beleza era a brancura original

Jorge de Barros

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

OS CÃES DO JORNAL DE HOJE

Domingo, 22 de janeiro de 2012, manhã.

Reintegração de posse no bairro do Pinheirinho em São José dos Campos.

Seis mil moradores. Conflitos. Sangue e lágrimas. Desentendimentos entre as autoridades. O governo federal se disse surpreendido, o poder estadual, na figura do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Sartori, mandou soltar os cachorros. Enquanto os tribunais discutiam as suas incompetências, o choque cumpria a “ordi”, porque “missão dada é missão cumprida”.
Domingo, 22 de janeiro de 2012, manhã.
Manifestação pró-animais da Avenida Paulista.
Cinco mil manifestantes, pelo menos. Indignados com a enfermeira que espancou o yorkshire e contra outras barbáries cometidas contra os animais. “au, au, au, Justiça Animal”. Gente fantasiada, alguns com seus cãezinhos assustados a tiracolo. Os organizadores surpreenderam-se com a quantidade de manifestantes. Destaque para o rapaz com o poodle gigante.
Com cães assim tão explícitos nas páginas dos jornais não há quem não se sinta inclinado a escolher um lado. Haverá quem diga que é futilidade demais desfilar fantasiado na paulista, com seus pets e bibelôs, enquanto a uns 90 quilômetros dali famílias estão sendo expulsas de suas casas e agredidas brutalmente pelo Estado. Haverá quem diga o oposto, que as famílias foram notificadas dentro dos prazos legais, que as radicalidades é que causam os conflitos e que os protestos pacíficos como os da Paulista são mais aceitáveis dentro dos processos de participação cidadã.
Porém, qual violência é maior? Se é que é possível medir assim a violência...
Machado de Assis, em Esaú e Jacó, conta a história dos gêmeos univitelinos Pedro e Paulo que, apesar da aparência idêntica, comportavam-se de maneira oposta, mas eventualmente suas ações contrárias visavam ao mesmo fim. Por exemplo, quando tinham sete anos e sua mãe lhes proibira de subir nas árvores para pegar frutas, eles passaram a usar um moleque...
Paulo era mais agressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fruta das árvores, era um moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, e às vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e outro dos gêmeos não soubesse agredir e dissimular; a diferença é que cada um sabia melhor o seu gosto, coisa tão óbvia que custa escrever.                                  
Machado de Assis, Esaú e Jacó, Cap XVIII
A história se passa durante a mudança de regime no Brasil e o Bruxo do Cosme Velho esfrega na nossa cara que, Monarquia e República eram irmãs gêmeas e que, no final das contas, o povo, tal qual o moleque da “parábola”, terminaria sem a fruta e com um galo na cabeça ou uma promessa falsa. São dois dos modus operandi preferidos de um estado autoritário... mas voltemos aos cães e à questão:
O que é pior? Levar uma bofetada por defender uma causa, ou ser recebido com tapinhas nas costas, elogios à sua nobre causa e receber promessas falsas, desmobilizantes e depois um escarnecedor “adeus até nunca mais”? O que foi mais inútil? Se é possível medir assim as inutilidades... A “Tropa de Choque” do Pinheirinho ou a manifestação da Paulista que a mídia cobriu como um carnaval de excêntricos?
Eu voltei pra casa pensando nestas coisas todas e, olhando o jornal, uma coisa me chamou a atenção. As fotos da repressão em São José dos Campos e do protesto pacífico na Paulista eram muito diferentes, mas havia uma importante semelhança, melhor, uma essencial semelhança. Havia, naquelas cenas, olhares gêmeos, como destaco a seguir. Reparem nos olhos, apenas neles, esqueçam, por um segundo, o cenário e o contexto ao redor:

Perceberam? Eles estão confusos, não sabem o que está acontecendo, não sabem o que tudo aquilo significa, não gostam do barulho e queriam estar nas suas respectivas caminhas sem serem carregados, confusamente, pelas pessoas que mais amam.
O mundo que nós construímos, com toda a sua lógica, com toda a sua tecnologia, com todas as suas leis e modelos de mercado, só começará a caminhar para algum lugar decente se os donos desse tipo de olhar se tornarem a prioridade máxima de todos os governos, movimentos sociais, corporações, sindicatos, etc... etc... Porque por enquanto, este é o mundo que temos a oferecer para eles:


Esta foto também estava no jornal de hoje. Aconteceu alguma coisa na Nigéria, mas não na primeira página.

Jorge de Barros

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Da Economia da Maldade

“Tinha que matar logo tudo!” ele me disse. O chaveiro aqui da rua. Fui fazer uma cópia da chave da nova fechadura. Questão de segurança. A cidade anda muito violenta. E enquanto o pacato velhinho fazia a cópia, eu ouvi sua velha televisão noticiar mais um incêndio em uma favela. Incêndios em favela me comovem. Na verdade, as favelas me comovem. Eu já tive vergonha da comoção que sinto pela pobreza, sentimento burguês, mas minha criação católica, graças a Deus, entranhou em mim a compaixão (além da imagem antiquada e boba de um velhinho sentado num trono que me vem toda vez que o assunto é Deus, embora eu saiba que essa imagem seja boba e antiquada).

“No interior, a gente matava verme com creolina, isso aí tudo é verme, tinha que matar logo tudo” e riu. Uma risada que buscava minha concordância ou minha complacência. Eu podia ter discutido. Podia ter falado sobre direitos humanos, sobre miséria e sobre crueldade. Até sobre democracia, marxismo, eu podia até ter falado sobre o Cristo. Mas peguei minha chave e, sem esboçar qualquer reação ou sentimento, a não ser um levantar de sobrancelhas ambíguas, dei as costas, apressado. Fiz isso porque me cansei de discutir com comerciários em geral. Eles costumam ter uma opinião muito fixa, como o ponto de sua loja ou o preço na vitrine. Prefiro discutir com camelôs. São mais flexíveis.

Mas também tem o fato de que não se deve discutir ou ofender a convicção de um homem que sabe abrir portas trancadas. Não que eu esteja desconfiando do caráter de meu chaveiro, mas é que eu posso, um dia, procurá-lo de madrugada para resolver um problema de tranca emperrada e necessitar muito de sua boa vontade.

A questão, porém, que eu trouxe pra casa como um pensamento empedrado é: de onde vem a maldade do meu chaveiro? Talvez ele a tenha aprendido do trio de ladrões que, certa noite, entrou em sua casa (porque, afinal, a ciência dos chaveiros não é tão oculta quanto desejamos) e espancou a ele e a esposa, o que o obrigou a mudar para um apartamento, o que deixou a mulher triste longe de suas plantas e seus gatos, o que a levou à depressão e ao suicídio debaixo de um ônibus que ninguém admite. E assim, o velho chaveiro levou, daquela surra, uma dor no ciático que dói quando a temperatura cai e que o lembra da lápide que dói mais profunda ainda. É possível.

Quem sabe se a maldade daquela madrugada fatídica, concentrada em uma única parcela amarga, ele venha agora distribuindo em pequenas doses para seus clientes desavisados na forma inofensiva de palavras hostis contra qualquer miserável que ele veja sofrendo ou definhando por aí. E que, ainda como um brinde, lhe dá a esperança da existência do Deus vingador que não o socorreu naquela noite. Maldade essa que a sua senhora, sem poder exorcizar assim pouco a pouco nos ouvidos alheios, devolveu ao mundo de uma vez só, na forma de seu corpo imolado em via pública. Talvez.

Mas isso não justifica o fel das palavras do velho. Mas explica. “E se você tivesse sua mulher, sua irmã ou sua mãe estuprada e morta por um desses, continuaria defendendo os direitos humanos?”, eu ouço por aí de muita gente que nem imagina que a própria revolta e indignação que as move está na raiz da formação desses direitos. Ah, se eu perdoasse o genocida de tudo quanto eu mais amo, que coisa estranha seria. Seria a santidade? A loucura? Ou será que eu ia querer vingança? Então há alguma lei que me proteja e me impeça de me tornar igual ao meu algoz, um genocida? Espero que haja, no caso de eu não suportar uma auréola.

Mas de onde vem a maldade do trio? O trio que humilhou, roubou e espancou um casal de velhinhos do bairro do Ipiranga? Talvez da violência da falta de recursos e de alternativas. Talvez da discriminação que vai pingando gota a gota como um ácido no caráter. Porque há recursos que são desviados, da merenda, dos projetos educacionais, da saúde, da infraestrutura. Há esquemas que estão implantados nos sistemas de licitação para levar um além e não importa se o remédio vai faltar, o asfalto esfarinhar e a sopa azedar. Uma maldade oficial que vai se acumulando como a sujeira que decanta na água turva e forma a lama amniótica que engendra os monstros. E que de tanto acumular um dia forma uma ilha, um monturo de ódio, de medo e de revolta, que sem que ninguém espere cai como uma avalanche de merda sobre o cotidiano de um pacato cidadão inocente que não fez nada para merecer aquilo. Fez? Não, não fez, mesmo que tenha votado muito errado.

Uma maldade lenta e sistemática na malversação da coisa pública vai se acumulando em vários pontos espalhados, formando uma constelação de vidas desgraçadas, e assim como os micro-organismos do paleozoico submetidos à imensa carga de temperatura e pressão viram o óleo-combustível altamente inflamável, assim, o substrato da maldade acumulada na vida de um desses pobres marginalizados, de vez em quando, é vomitada num turbilhão de violência sobre um manso cristão que, se sobreviver ao encontro, sairá pela vida distribuindo a violência recebida como fedor escapando dos poros, pouco a pouco, pelo resto de sua existência.

Foi assim que o meu chaveiro me atingiu com seu mau hálito moral.

A Maldade que pinga, um dia transborda. A Maldade que despenca pesada sobre alguém, quando não se pode devolvê-la de uma vez, vai sendo distribuída aos poucos, de grão em grão a toda parte.

Mas a questão é, de onde vem a maldade dos nossos administradores públicos? Mas ao mesmo tempo em que eu sinto que essa é uma grande questão, a questão central deste problema, também penso que não devo enveredar pela História ou pela Religião, ou corro o risco de cair em um dilema do tipo ovo e galinha. Quero concluir apenas com uma esperança! Uma vaga suspeita, não comprovada, de que com a Bondade possa acontecer o mesmo ou algo parecido, mas a quantidade de eventos registrados é tão reduzida que ainda não me foi possível formular direito uma tese a respeito, do que se conclui, embora de forma temerária, que ela seja um tanto quanto discreta, e volátil às lentes da televisão. Assim como o bóson de higgs, ajudaria a explicar muita coisa, mas  quem lhe pega o rastro? Oremos.
Jorge de Barros

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

AULA DE ECONOMIA

economia de custos é rolamento da dívida
Léon Walras

a curva de Oferta é a mão de deus
a curva de Demanda é a mão do diabo
no plano cartesiano
a minha insignificância
é um Ponto de Equilíbrio no abismo
Jorge de Barros

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Professor de Matemática...

que incógnita é essa
que paira irresoluta
em sua lousa final?

Jorge de Barros

terça-feira, 5 de julho de 2011

da majestade


mendigos e reis de nada precisam
mesmo assim lhes devemos dádivas

majestoso é o rei que agradece
e ainda mais o mendigo
que olha e se cala

Jorge de Barros

quarta-feira, 15 de junho de 2011

quase haikais


o concreto fermenta
 lentamente, vagarosamente
o asfalto escorre











pombas tristes
 abdicam do voo
por migalhas












uma moto se cala
 despedaçando-se em êxtase
de desintegração












uma ambulância
 apavora o sono do trânsito
inutilmente












estamos aguardando
 movimentação
do trem à frente












um mendigo
 fita o crepúsculo
como um rochedo












luzes rubras vão
 sem começo ou fim
luzes brancas vêm












em becos úmidos
 dançam luzes de neon
cores proibidas












um grito voa
 entre espigões, vãos
e comerciais












silenciosamente
 o rio podre reflete
uma lua pura




Jorge de Barros

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Estação Tamanduateí

outono
(atrás das camadas de vidro,
horizonte serrilhado
em tons de rosa-chumbo

eu vejo refletido
meu ser - decapitado -
um astro moribundo)

Jorge de Barros
15/05/11 - 06h33

segunda-feira, 25 de abril de 2011

TODOS CANTAM SUA TERRA




minha cidade não tem beleza nenhuma
nasceu de um espasmo involuntário de progresso
num turbilhão de espermas e concretos

um entulho da ópera é minha cidade
é o sambaqui de Sampa
é um discurso de argumentos falhos

é impossível amá-la de olhos abertos
(mas se fecho os olhos corro risco
de cair em um de seus penhascos)

é como a feia que cura a virgindade dos moços
e não cobra ao menos “obrigado”
minha cidade de olhos sonsos

queria ser o Godzilla para abraçá-la
e reduzi-la com meu raio atômico
estrangulá-la de um amor tão réptil

e distribuirei travesseiros de alfazema
aos que tomam o primeiro trem
sussurrando mantras impossíveis:
Macunaíma Macabéa Mauá

Jorge de Barros

Sempre sobra alguma coisa...


sábado, 23 de abril de 2011