Páginas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Vida Plena


Me disseram que uma vida plena consiste em:
- ter um filho;
- plantar uma árvore;
- escrever um livro.

Mas, pensando bem, se...
- o filho virar “bad boy”;
- a árvore for eucalipto;
- o livro for de auto-ajuda...

Melhor ficar assim quietinho quietinho…

Jorge de Barros

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

DARLENE

Luz del Fuego

Dedico:

A todas as que se dizem putas

E as que não se dizem



“Éramos tão pouco reservados em nossas carícias, que não tínhamos paciência para esperar ficarmos sós”

Abbé Prevost

Marguerite: Coração... É a única ameaça de naufrágio na travessia que estou fazendo.”

Alexandre Dumas Filho

“sentia sim com tal acrimônia e desespero, que o prazer a estorcia em câimbras pungentes”

José de Alencar

“Remexida de linda, representava mesmo uma rapariga, uma murixaba carecida de caçar homens, mais forte, muito, que os homens”

Guimarães Rosa

“Ah, coito,coito, morte de tão vida”

Drummond

“Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo”

Manuel Bandeira

“Não lamentes, oh Nise, o teu estado;

Puta tem sido muita gente boa;

Putíssimas fidalgas tem Lisboa,

Milhões de vezes putas têm reinado”

Bocage

“Uma estrelinha desnuda

Está brincando no charco.”

Mário Quintana

“Não olheis eu ser morena:

foi o sol que me queimou;

os filhos de minha mãe

se voltaram contra mim,

fazendo-me guardar as vinhas,

e minha vinha, a minha

eu não pude a guardar.”

Cântico dos Cânticos 1,6






Silêncio!

Salomé prepara sua dança

tragam o véu

tragam o cepo

e sirvam-se de bandejas de prata




expressão máxima da solidão: fazer poema?

não.

ir a um puteiro pagar um drinque






epifania

há mulheres que surgem

como se fossem idéias




Darlene era a puta mais bonita

lhe contei minhas melhores piadas

lhe abri meus ingênuos projetos

ela sorria

― Você gosta de falar, né?






decote

toda mulher adora

brincar de metonímia






a cintura um desaforo

os seios um disparate

a bunda empinadinha

um despautério

a nuca em suas pelugens

um absurdo

era toda digna de boas dentadas






homens

a umidade é que nos mata






Darlene era toda aconchegante.

― Toda?

Toda…






buscando

a volúpia da violência

morre-se

na violência da volúpia






Darlene me mostrou o paraíso

quando disse

― Me bate…






como se a essência eu lhe sugasse

e a minha ela esgotasse

uma disputa

a ver quem chega

por último






sutileza

meu bem,

como eu gostaria de beijar

todos os seus lábios…






“No princípio…

(…)

… Amém.”






orgasmo

ainda sinto

as unhas

e o gosto

da nuca






volátil

quando a pinga é boa escorre da parede do copo como lágrima de óleo fosse

com amor e poesia não é diferente






epílogo

como quem restaura um quadro

lentamente

ela se veste






se tão contrário a si é o mesmo amor

como pode?






Darlene tinha olhos de ver

olhava através

assustava-se com nada

não sabia cochichar

não sabia dar bitocas

não sabia bebericar

tudo nela era demasia

falava de boca cheia

corria pulava gritava

chorava quando gozava

mas também fingia chorar






Aquiles

jamais pensa em calcanhares






oblíqua

― você tem medo?

― de quê, Darlene?

― apanhar ser preso brigar trabalhar…

― mas… apanhar de quem?

― não nada, desculpe que estou meia maluca…

e foi logo pegando no meu pau






nova esfinge

― devora-me

ou decifro-te!






Darlene chorava:

― preciso lhe falar…

soluçou como menina e dormiu

de manhã era toda sacana

― e ontem, meu bem?

― era nada…

e nunca mais vi Darlene chorar






Margherite

muito lhe será perdoado

pelo muito que amou

mas não tudo






Darlene quis passear num domingo

eu inventei uma desculpa sórdida

e nunca mais ela me pediu nada






como quem muda os móveis da sala

mudava

o meu espírito

certa vez confessara

que meu cenho franzido

excitava





Darlene riu de mim em pleno coito

― que foi?

― nada…

― QUE FOI!?

quebrei o abajur ameacei um tapa

― é que você respira…

de um jeito tão engraçado…






Ela: “o poder não vem

de quem armas tem

mas de quem as empunha

, meu bem”






― Darlene, vamos terminar!

Ela assustou-se

― a gente é tão diferente, Darlene!

― não seja bobo

e foi logo pegando no meu pau






diálogo

― Mestre, julgais Afrodite mais implacável que Ares?

― Filho, o mais que Ares pode é matar-te






tão simples como morre o sol

Darlene virara desamor

mas

não acreditei nos lábios

não acreditei nos olhos

não acreditei nos gestos

só quando ela gemeu em falsete

um gozo cínico

ofensivo

final






a mulher de Ló sorria?

os vizinhos ardiam, ora






pra provocar Darlene

brinquei com Nana

dancei com Nana beijei a Nana me atraquei com Nana

na frente de Darlene

mas Darlene não tinha nem olhos

Darlene impassível estátua de sal

e Nana arremedava sorrisos

sorria os olhos

era toda gritinhos

e eu desejei mais e mais

Darlene impassível

estátua de sal




ela passou...

…e as outras ficaram um pouco menos femininas

ela passou…

…e então se podia jogar os olhos fora

ela passou…

…e aí que eu fui entender a Ilíada




mas

depois de Darlene vieram outras

e antes mesmo tivera muitas

saldo final:

Darlene

e as muitas outras






domecq

a cor do conhaque é triste

e a luz na superfície parda-dourada

é a do sol de lembranças antigas

ancestrais

entranhadas

um cheiro de quase

e o gosto de algo que se descobriu fascinante

mas já era tarde.






17h59

ontem

um dia depois de muitos

o perfume de Darlene visitou meu cárcere ensaiou um pé de valsa e se foi entediado

eu nunca tive nem

esse perfume.



Jorge de Barros

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

soneto do amor defunto

Room in New Yort- 1932; Edward Hopper

(como se nunca houvera existido)
pasmo fiquei olhando as mãos vazias
rindo. não vi o corroer dos dias,
quando notei, já tinha o amor partido.

não deu aviso, levantou e foi-se.
nenhum sinal, assim como roubado
fosse, no tempo de eu olhar pro lado.
sem terremoto. não senti nem coice.

fui surpreendido e estando assim incauto
a dor do sofrimento não previ.
olho o passado, olho o presente, junto

os dois, mas nem sequer um sobressalto!
e isso é dor maior que já senti:
não conseguir chorar o amor defunto.

Jorge de Barros

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O CHÃO


Dois dias. Quarenta e Oito Horas. Dois mil oitocentos e oitenta minutos. Cento e setenta e dois mil e oitocentos segundos. Não posso dormir. Não posso dormir aqui.

Lembrar… é preciso lembrar. O acidente. Este gesso no meu braço. Tudo é bastante simples, a história não é nova: autônomo, pequena empresa, investimento, acidente, internação, tratamento, poupança, aluguel, contas atrasadas, e a queda. Agora estou na miséria? Não. Ainda não. Não devo nada pra ninguém. Nada.

Calor … tenho que fazer essa barba! E este gesso coça... coça. Por mais que faça não dá pra alcançar a fonte da coceira... é lá bem no meio do gesso. Inalcançável... Vou me sentar aqui... No chão, não! O chão, não! Ali, o banco da praça! Lugar certo de se sentar!

Esta barba, esta barba… este gesso, este gesso… Devo estar com a cara horrível. Dois dias sem dormir. Quarenta e oito horas. Dois mil oitocentos... e oitenta minutos. Cento e setenta e dois segundos... mil segundos. Cento e setenta e dois mil segundos... Este banco... Esse sol... Não, não, não e não, não vou desistir. Em frente!

_O Senhor pode me dar um copo d’água?

_Não tem!

_Mas da torneira mesmo...

_Não tem! Tchau!

Mas peraí, o que é isso? Nunca me negaram um copo d’água? Que falta de educação! Mas será que...

_Mas eu só quero um copo d...

_Meu amigo, vai feder em outro lugar! Sai fora!

“vai feder em outro lugar...”, “vai feder em outro lugar...”, Dois dias sem tomar banho. Quarenta e oito horas sem comida. Cento e setenta e poucos mil segundos sem dormir. A fome já veio, foi, veio, foi, veio, foi... mas o sono é como uma pedra na nuca que só aumenta... aumenta...

Se eu deitar no chão estarei perdido. O chão vai me abraçar como uma cortesã maldita, seus dentes pretos, seu hálito detestável, sua pele áspera, seus braços sarnentos, a pele cinza... mas sua voz é doce... Eu preciso dormir... as camas são produtos artificiais, o chão é nossa morada mais antiga, nosso berço ancestral... Só pra reconstituir minhas forças, amanhã dou um jeito, faço a barba, arrumo emprego. Qualquer coisa serve, tenho experiência... Não. Dormir agora não!

O mal é este gesso... tenho que tirar, mesmo que o braço doa, ninguém vai me dar emprego assim. E como coça! Esse calor! Não quero pensar nisso, esta sujeira colada na minha pele. Dois dias entre fumaça de carros e poeira de asfalto. Devo estar horrível. Parecendo até um mendigo. Por isso é que aquele cara me tratou tão mal. Me confundiu com um mendigo. Coitado...

Dois dias... Quarenta e... oito horas. Cento e... sententa e dois mil oitocentos e oitenta minutos... Segundos? Dois mil oitocentos e setenta e dois minutos e cento e oitenta e oito mil e tralalá segundos. Parece que tenho areia nos olhos. Parece tudo um sonho sépia. As cores da cidade tão estranhas... O sol parece que está com defeito. Preciso me levantar, preciso me levantar, preciso andar. Parado não vou conseguir nada!

_Olha por onde anda!

Tanta gente aqui, tem tanta oportunidade por aí. Olha essa cidade. Olha o trânsito. Olha lá um Uno vermelho igual ao que eu tinha! Ê, delícia, dirigir o que é nosso! Buzinar, xingar o trânsito, pagar IPVA, reclamar da gasolina que sobe! Eita, como é bom! Se eu deitar no chão, nunca mais vou ter isso de volta. Não posso desistir! Vou achar um emprego hoje! Ah! Aqui tem aquela loja de equipamento! Já comprei muito ali, o dono me conhece! Conheço o funcionamento de todas essas peças, não tem nenhuma novidade para mim nessa vitrine... vitrine… Mas que é isso...? Esse aí sou eu?

_Pois não?

Tenho que sair daqui! Horror! Será que ele me reconheceu? Não... Nem eu me reconheci. Deus! O que é isso? Deus... Deus! DEUS! O que está acontecendo? O que eu fiz? Por que eu? EU! Por quê? POR QUÊ!? Dois dias sem tomar banho, sem dormir, só dois dias e já fiquei assim? Não é justo! Trabalhei, paguei meus impostos, sou um cidadão de bem! Sou um cidadão! Sou! O que acontece com os cidadãos quando se vêem em perigo? O governo... o governo tem que me amparar! Não é possível, não é possível que tudo tenha dado em nada...

_Policial, eu preciso de ajuda...

_Circulando. Não pode ficar aqui não!

_Eu não tenho aonde ir...

_Mas não pode ficar aqui. Vai! Vai!

Não, peraí... Eu estou fazendo alguma coisa errada... tem algo que eu não estou pensando...

_Senhor, desculpe minha aparência, estou duas noites sem dormir...

_Toma aqui.

_Não, não quero dinheiro, quero saber se tem algum lugar que eu possa ir, um lugar pra ajudar as pessoas com necessidade...

_Um abrigo? Parece que tem um lá na Praça...

_Abrigo? Abrigo de mendigo? O senhor não entendeu. O senhor acha mesmo que eu sou um mendigo?

_Desculpa, mas eu tenho que trabalhar.

Eu também.

Oito horas... Cento e quarenta minutos... Mil e oitocentos e oito segundos... Conforme o tempo passa eu vou ficando transparente... É isso, estou ficando cada vez mais fino, mais fino, a cinza da cidade está se colando na minha carne e eu estou virando parte dela. A cidade está colando em mim. As letras do meu RG e os números estão se apagando. Mas o que é isso? O ritmo do movimento das pessoas e carros diminui até que ficam quase parados. Eu caminho entre pessoas congeladas e carros em câmera lenta. O cheiro da fumaça é o meu cheiro. O pó e o cansaço da urbe, que antes eu lavava, aliviado, sob a ducha refrescante e paredes de porcelana, num passado que agora parece outra vida; agora esse pó é minha casa, esse cansaço, minha blusa. Sobre minha pele. uma casca começa a surgir: é o mesmo limo que cobre os muros e os tetos das casas, transformando-nos em uma só substância contínua, a cidade.

Esse chão irregular, esburacado, sujo, enferrujado, carcomido, azedo, este chão é meu lar agora? Ali tem uma sombra e um pedaço de papelão que minha mãe me preparou... Ah... é uma cama macia, um colo, útero. O útero de alcatrão dessa cidade imensa... Como é bom estar de volta neste local onde nunca estive. Quero me acabar aqui, como trapo sujo jogado a um canto. Mas que não me incomodem...

Colando o ouvido ao chão, posso ouvir o pulsar manso de milhões de passos, o escorregar rasteiro de milhões de rodas, o tilintar suave das britadeiras, a dança dos batedores de carteira, o cricrilar dos vendedores ambulantes, o coaxar nervoso das buzinas, o miado melancólico das sirenes… e sinto, quase imperceptível, o coração batendo em outros peitos que também se colam ao solo, que deitam os seus ouvidos no concreto... São meus irmãos, finalmente. Uma voz velha range uma canção de ninar. É nossa mãe, cidade, a embalar-nos no seu colo de chão... este chão... o chão…

Jorge de Barros