
Me disseram que uma vida plena consiste em:
- ter um filho;
- plantar uma árvore;
- escrever um livro.
- o filho virar “bad boy”;
- a árvore for eucalipto;
- o livro for de auto-ajuda...
Jorge de Barros
Dedico:
A todas as que se dizem putas
E as que não se dizem
“Éramos tão pouco reservados em nossas carícias, que não tínhamos paciência para esperar ficarmos sós”
Abbé Prevost
“Marguerite: Coração... É a única ameaça de naufrágio na travessia que estou fazendo.”
Alexandre Dumas Filho
“sentia sim com tal acrimônia e desespero, que o prazer a estorcia em câimbras pungentes”
José de Alencar
“Remexida de linda, representava mesmo uma rapariga, uma murixaba carecida de caçar homens, mais forte, muito, que os homens”
Guimarães Rosa
“Ah, coito,coito, morte de tão vida”
Drummond
“Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo”
Manuel Bandeira
“Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado”
Bocage
“Uma estrelinha desnuda
Está brincando no charco.”
Mário Quintana
“Não olheis eu ser morena:
foi o sol que me queimou;
os filhos de minha mãe
se voltaram contra mim,
fazendo-me guardar as vinhas,
e minha vinha, a minha
eu não pude a guardar.”
Cântico dos Cânticos 1,6
Silêncio!
Salomé prepara sua dança
tragam o véu
tragam o cepo
e sirvam-se de bandejas de prata
expressão máxima da solidão: fazer poema?
não.
ir a um puteiro só pagar um drinque
epifania
há mulheres que surgem
como se fossem idéias
Darlene era a puta mais bonita
lhe contei minhas melhores piadas
lhe abri meus ingênuos projetos
ela sorria
― Você gosta de falar, né?
decote
toda mulher adora
brincar de metonímia
a cintura um desaforo
os seios um disparate
a bunda empinadinha
um despautério
a nuca em suas pelugens
um absurdo
era toda digna de boas dentadas
homens
a umidade é que nos mata
Darlene era toda aconchegante.
― Toda?
Toda…
buscando
a volúpia da violência
morre-se
na violência da volúpia
Darlene me mostrou o paraíso
quando disse
― Me bate…
como se a essência eu lhe sugasse
e a minha ela esgotasse
uma disputa
a ver quem chega
por último
sutileza
meu bem,
como eu gostaria de beijar
todos os seus lábios…
“No princípio…
(…)
… Amém.”
orgasmo
ainda sinto
as unhas
e o gosto
da nuca
volátil
quando a pinga é boa escorre da parede do copo como lágrima de óleo fosse
com amor e poesia não é diferente
epílogo
como quem restaura um quadro
lentamente
ela se veste
se tão contrário a si é o mesmo amor
como pode?
Darlene tinha olhos de ver
olhava através
assustava-se com nada
não sabia cochichar
não sabia dar bitocas
não sabia bebericar
tudo nela era demasia
falava de boca cheia
corria pulava gritava
chorava quando gozava
mas também fingia chorar
Aquiles
jamais pensa em calcanhares
oblíqua
― você tem medo?
― de quê, Darlene?
― apanhar ser preso brigar trabalhar…
― mas… apanhar de quem?
― não nada, desculpe que estou meia maluca…
e foi logo pegando no meu pau
nova esfinge
― devora-me
ou decifro-te!
Darlene chorava:
― preciso lhe falar…
soluçou como menina e dormiu
de manhã era toda sacana
― e ontem, meu bem?
― era nada…
e nunca mais vi Darlene chorar
Margherite
muito lhe será perdoado
pelo muito que amou
mas não tudo
Darlene quis passear num domingo
eu inventei uma desculpa sórdida
e nunca mais ela me pediu nada
como quem muda os móveis da sala
mudava
o meu espírito
certa vez confessara
que meu cenho franzido
excitava
Darlene riu de mim em pleno coito
― que foi?
― nada…
― QUE FOI!?
quebrei o abajur ameacei um tapa
― é que você respira…
de um jeito tão engraçado…
Ela: “o poder não vem
de quem armas tem
mas de quem as empunha
, meu bem”
― Darlene, vamos terminar!
Ela assustou-se
― a gente é tão diferente, Darlene!
― não seja bobo
e foi logo pegando no meu pau
diálogo
― Mestre, julgais Afrodite mais implacável que Ares?
― Filho, o mais que Ares pode é matar-te
tão simples como morre o sol
Darlene virara desamor
mas
não acreditei nos lábios
não acreditei nos olhos
não acreditei nos gestos
só quando ela gemeu em falsete
um gozo cínico
ofensivo
final
a mulher de Ló sorria?
os vizinhos ardiam, ora
pra provocar Darlene
brinquei com Nana
dancei com Nana beijei a Nana me atraquei com Nana
na frente de Darlene
mas Darlene não tinha nem olhos
Darlene impassível estátua de sal
e Nana arremedava sorrisos
sorria os olhos
era toda gritinhos
e eu desejei mais e mais
Darlene impassível
estátua de sal
ela passou...
…
…e as outras ficaram um pouco menos femininas
ela passou…
…
…e então se podia jogar os olhos fora
ela passou…
…
…e aí que eu fui entender a Ilíada
mas
depois de Darlene vieram outras
e antes mesmo tivera muitas
saldo final:
Darlene
e as muitas outras
a cor do conhaque é triste
e a luz na superfície parda-dourada
é a do sol de lembranças antigas
ancestrais
entranhadas
um cheiro de quase
e o gosto de algo que se descobriu fascinante
mas já era tarde.
17h59
ontem
um dia depois de muitos
o perfume de Darlene visitou meu cárcere ensaiou um pé de valsa e se foi entediado
eu nunca tive nem
esse perfume.
Jorge de Barros
pasmo fiquei olhando as mãos vazias
rindo. não vi o corroer dos dias,
quando notei, já tinha o amor partido.
nenhum sinal, assim como roubado
fosse, no tempo de eu olhar pro lado.
sem terremoto. não senti nem coice.
a dor do sofrimento não previ.
olho o passado, olho o presente, junto
e isso é dor maior que já senti:
não conseguir chorar o amor defunto.
Jorge de Barros
Dois dias. Quarenta e Oito Horas. Dois mil oitocentos e oitenta minutos. Cento e setenta e dois mil e oitocentos segundos. Não posso dormir. Não posso dormir aqui.
Lembrar… é preciso lembrar. O acidente. Este gesso no meu braço. Tudo é bastante simples, a história não é nova: autônomo, pequena empresa, investimento, acidente, internação, tratamento, poupança, aluguel, contas atrasadas, e a queda. Agora estou na miséria? Não. Ainda não. Não devo nada pra ninguém. Nada.
Calor … tenho que fazer essa barba! E este gesso coça... coça. Por mais que faça não dá pra alcançar a fonte da coceira... é lá bem no meio do gesso. Inalcançável... Vou me sentar aqui... No chão, não! O chão, não! Ali, o banco da praça! Lugar certo de se sentar!
Esta barba, esta barba… este gesso, este gesso… Devo estar com a cara horrível. Dois dias sem dormir. Quarenta e oito horas. Dois mil oitocentos... e oitenta minutos. Cento e setenta e dois segundos... mil segundos. Cento e setenta e dois mil segundos... Este banco... Esse sol... Não, não, não e não, não vou desistir. Em frente!
_O Senhor pode me dar um copo d’água?
_Não tem!
_Mas da torneira mesmo...
_Não tem! Tchau!
Mas peraí, o que é isso? Nunca me negaram um copo d’água? Que falta de educação! Mas será que...
_Mas eu só quero um copo d...
_Meu amigo, vai feder em outro lugar! Sai fora!
“vai feder em outro lugar...”, “vai feder em outro lugar...”, Dois dias sem tomar banho. Quarenta e oito horas sem comida. Cento e setenta e poucos mil segundos sem dormir. A fome já veio, foi, veio, foi, veio, foi... mas o sono é como uma pedra na nuca que só aumenta... aumenta...
Se eu deitar no chão estarei perdido. O chão vai me abraçar como uma cortesã maldita, seus dentes pretos, seu hálito detestável, sua pele áspera, seus braços sarnentos, a pele cinza... mas sua voz é doce... Eu preciso dormir... as camas são produtos artificiais, o chão é nossa morada mais antiga, nosso berço ancestral... Só pra reconstituir minhas forças, amanhã dou um jeito, faço a barba, arrumo emprego. Qualquer coisa serve, tenho experiência... Não. Dormir agora não!
O mal é este gesso... tenho que tirar, mesmo que o braço doa, ninguém vai me dar emprego assim. E como coça! Esse calor! Não quero pensar nisso, esta sujeira colada na minha pele. Dois dias entre fumaça de carros e poeira de asfalto. Devo estar horrível. Parecendo até um mendigo. Por isso é que aquele cara me tratou tão mal. Me confundiu com um mendigo. Coitado...
Dois dias... Quarenta e... oito horas. Cento e... sententa e dois mil oitocentos e oitenta minutos... Segundos? Dois mil oitocentos e setenta e dois minutos e cento e oitenta e oito mil e tralalá segundos. Parece que tenho areia nos olhos. Parece tudo um sonho sépia. As cores da cidade tão estranhas... O sol parece que está com defeito. Preciso me levantar, preciso me levantar, preciso andar. Parado não vou conseguir nada!
_Olha por onde anda!
Tanta gente aqui, tem tanta oportunidade por aí. Olha essa cidade. Olha o trânsito. Olha lá um Uno vermelho igual ao que eu tinha! Ê, delícia, dirigir o que é nosso! Buzinar, xingar o trânsito, pagar IPVA, reclamar da gasolina que sobe! Eita, como é bom! Se eu deitar no chão, nunca mais vou ter isso de volta. Não posso desistir! Vou achar um emprego hoje! Ah! Aqui tem aquela loja de equipamento! Já comprei muito ali, o dono me conhece! Conheço o funcionamento de todas essas peças, não tem nenhuma novidade para mim nessa vitrine... vitrine… Mas que é isso...? Esse aí sou eu?
_Pois não?
Tenho que sair daqui! Horror! Será que ele me reconheceu? Não... Nem eu me reconheci. Deus! O que é isso? Deus... Deus! DEUS! O que está acontecendo? O que eu fiz? Por que eu? EU! Por quê? POR QUÊ!? Dois dias sem tomar banho, sem dormir, só dois dias e já fiquei assim? Não é justo! Trabalhei, paguei meus impostos, sou um cidadão de bem! Sou um cidadão! Sou! O que acontece com os cidadãos quando se vêem em perigo? O governo... o governo tem que me amparar! Não é possível, não é possível que tudo tenha dado em nada...
_Policial, eu preciso de ajuda...
_Circulando. Não pode ficar aqui não!
_Eu não tenho aonde ir...
_Mas não pode ficar aqui. Vai! Vai!
Não, peraí... Eu estou fazendo alguma coisa errada... tem algo que eu não estou pensando...
_Senhor, desculpe minha aparência, estou duas noites sem dormir...
_Toma aqui.
_Não, não quero dinheiro, quero saber se tem algum lugar que eu possa ir, um lugar pra ajudar as pessoas com necessidade...
_Um abrigo? Parece que tem um lá na Praça...
_Abrigo? Abrigo de mendigo? O senhor não entendeu. O senhor acha mesmo que eu sou um mendigo?
_Desculpa, mas eu tenho que trabalhar.
Eu também.
Oito horas... Cento e quarenta minutos... Mil e oitocentos e oito segundos... Conforme o tempo passa eu vou ficando transparente... É isso, estou ficando cada vez mais fino, mais fino, a cinza da cidade está se colando na minha carne e eu estou virando parte dela. A cidade está colando
Esse chão irregular, esburacado, sujo, enferrujado, carcomido, azedo, este chão é meu lar agora? Ali tem uma sombra e um pedaço de papelão que minha mãe me preparou... Ah... é uma cama macia, um colo, útero. O útero de alcatrão dessa cidade imensa... Como é bom estar de volta neste local onde nunca estive. Quero me acabar aqui, como trapo sujo jogado a um canto. Mas que não me incomodem...
Colando o ouvido ao chão, posso ouvir o pulsar manso de milhões de passos, o escorregar rasteiro de milhões de rodas, o tilintar suave das britadeiras, a dança dos batedores de carteira, o cricrilar dos vendedores ambulantes, o coaxar nervoso das buzinas, o miado melancólico das sirenes… e sinto, quase imperceptível, o coração batendo em outros peitos que também se colam ao solo, que deitam os seus ouvidos no concreto... São meus irmãos, finalmente. Uma voz velha range uma canção de ninar. É nossa mãe, cidade, a embalar-nos no seu colo de chão... este chão... o chão…
Jorge de Barros