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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

AMBAS MARIAS

Estudo para côncavo e convexo - Monica Piloni

Ambas se chamavam Maria. E não era essa a única semelhança. Olhos, boca, penteado, textura da pele, marca de nascença na virilha, gestos, tremor no lábio sempre que mentiam, tudo era exatamente igual. Só após um exame minucioso poderia se perceber uma leve dessemelhança nos olhares. Maria-bancária guardava sempre um leve ar de enfado e Maria-puta tinha olhares mais atentos e levemente maliciosos.

Ambas se encontraram primeira vez no vagão do trem. Maria-bancária ia para o trabalho e Maria-puta voltava da lida. Depois do estranhamento inicial tornaram-se grandes amigas. E nenhuma delas lembrava qual tinha sido a primeira a sugerir a troca, porque foi como uma ideia que brotou naturalmente e se expandiu vegetativamente pelos recantos do inconsciente de ambas... Talvez a ideia tenha surgido na mente de Maria-bancária enquanto ela explicava a um cliente as “vantagens” de um empréstimo consignado e pensava em Maria-puta se recolhendo meio ébria e dolorida em uma cama macia de um quarto vermelho vivo… ou talvez a idéia tenha surgido na mente de Maria-puta enquanto ela gemia em falsete sob o corpo enorme e cabeludo de um cliente e pensava em Maria-bancária vendo tevê sem pensar em nada, envolta na luz romântica da tela, repousando a cabeça, no mesmo braço, todas as noites...

Ambas ousaram a troca como uma loucura compartilhada, e com as pernas tremendo enfrentaram o desconhecido da vida da outra. Maria-puta aventurou-se no ambiente financeiro, nas metas comerciais tributárias e na rotina do matrimônio classe média. E Maria-bancária mergulhou na noite, no comércio das taras secretas, nos cheiros, ruídos e formatos de outras geografias masculinas. E ambas, apesar dos nojos e assombros iniciais, acabaram indo muito bem vestindo a história da outra. Maria-puta usou sua experiência em massagear vaidades e disfarçar sorrisos e assim prosperou na orgia mercantil. Maria-bancária usou sua eficiência em atender vontades e a calcular riscos e oportunidades e assim prosperou no mercado sexual.

E ambas perceberam que muitos dos seus clientes eram os mesmos! Mas, estranhamente, nunca percebiam que a Maria que lhes entregava o salário suado do mês era idêntica à Maria a quem, à noite, pagavam (com as mesmas cédulas) os seus minutos de doce desvario. Ambas, porém, logo perceberam que não era distração apenas, é que nunca esses mesmos homens se deram ao luxo de as olharem nos rostos gêmeos.

E enfim ambas perceberam que seus corpos valiam o mesmo na rotina de esforços repetitivos, e entre suas colegas de trabalho havia a mesma cumplicidade entremeada de invejas e concorrência na dura labuta de metas a cumprir… e ambas sentiram a mesma exploração e humilhação de seus patrões, e tinham que se controlar pra não chamar o cafetão de gerente e o gerente de cafetão… pois eles até fumavam a mesma marca de cigarro importado, e tinham a mesma cadeira forrada em couro só deles, a mesma fotografia da família sobre a mesa, e riam com os mesmos dentes cerrados, tinham a mesma ironia maldosa nas declarações e a mesma mania de explodir em gritos esmurrando a mesa o mesmo número de vezes (ambos votavam no mesmo deputado democrata).

Até que ambas igualaram-se até mesmo em seus olhares. Ficaram completamente iguais. Maria-puta ganhava um ar de enfado e Maria-bancária, uma malícia um pouco mais atenta nos olhos… Até que ambas esqueceram de se destrocar, confundidas uma na outra, como se o papel que exerciam agora, no mesmo sem sentido dos dias, tivesse sido aquele de sempre e nada mais. Perderam-se uma da outra, na rotina de seus dias-há-dias… até que um dia ambas se encontram no vagão do trem. Maria-puta-bancária ia para a lida e Maria-bancária-puta voltava do trabalho. E se espantaram, como se nunca tivessem visto uma a outra milhares de vezes.

Jorge de Barros