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quarta-feira, 14 de abril de 2010

DESVÃO

Virgem Azul - Chartres


esta quasitude que me cerca por dentro

este modelo standard de alma que me deram

esta asa quebrada: desejo de fazer versos

a existência toda assim como coceira de frieira

e do meu lado esquerdo: a loucura de olhíssimos azuis

e do meu outro lado esquerdo: o suicídio de lábios sequiosos


e eu criança chorando na cama e aprendendo

o agridoce segredo da dor

e eu adolescente arrepiado com os mistérios de fátima

masturbando as contas do rosário

com olhos fixos na vagina abissal do fim


eu no colo de minha mãe no colo de me pai no

colo do cristo no colo da virgem com os pés

fincados na terra úmida de vermes azuis

incandescentes de neon


e o vão onde eu escondia versos

entre o vão onde eu escondia moças

e o vão onde eu escondia minha mais ingênua covardia


e o vão que em sonhos me desperta

na umidade acolhedora de Eva


é o desvão que voga entre minha ânsia vil e minha vã insônia



Jorge de Barros

6 ociosos:

Edson Bueno de Camargo disse...

Du caralhu, nada mais a falar.

Edson Bueno de Camargo disse...

Tõ arrepiado até agora, "masturbando as contas do rosário", nos vemos no inferno poeta, nos vemos no inferno.

Edson Bueno de Camargo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beatriz disse...

Orgulho de tê-lo como professor!

Thiago Almeida disse...

Rixoso. Motim de uma revolta sacra!

Geraldo Brito (Dado) disse...

Muito interessante seu blog. Parabéns!