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domingo, 20 de junho de 2010

CRÔNICA

Aí está a crônica premiada em Ribeirão Preto, na 10a. Feira Nacional do Livro. O tema era: "Sociedade Brasileira: Opressores e Oprimidos", em homenagem ao sociólogo Gilberto Freyre.

Eu, o Opressor

para Rute

Eu sou um opressor. É necessário dizer isso. Sou brasileiro e nunca passei fome, nunca precisei do sistema público de saúde, sou branco, heterossexual, homem, adulto, moro na cidade de São Paulo, meu cachorro come ração da boa pra ficar com o pêlo bem bonito. Eu só posso ser opressor! Entretanto esse pensamento me oprime, porque sou artista, meio de esquerda, eleitor de partidos de bandeira vermelha, professor de escola privada (mas sindicalizado!) e leitor de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Florestan Fernandes... leituras que só me fizeram ter consciência de que sou um opressor e me impediram assim de ter a doce inocência dos que oprimem sem perceber... Inocência que vejo em muitos de meus alunos, adolescentes classe-média cujas únicas preocupações devem ser as espinhas, os beijos, o Playstation e tirar nota na prova... tão inocentes que nem percebem que, quando fazem guerrinha de giz, a pobre “tia da limpeza” vai ter muito mais trabalho, vai chegar mais tarde em casa e ouvir as queixas do marido e do filho, que também pegaram conduções lotadas, mas querem o arroz com feijão pronto e fumegante na hora certa, para matar a antiga fome...
Mas eu sou amigo das tias da limpeza! Eu as cumprimento, chamo pelo nome, mostro que as vejo! Embora algumas, no início, reagem como se tivessem vergonha de que eu as tenha percebido. Seu cumprimento, discreto e encabulado, soa quase como um pedido de desculpas. Elas gostam de mim, mas isso não muda o fato de que eu sou, sim, um opressor. Até mesmo o fato de que o dono da escola também me oprime, não me redime dessa verdade. Até porque eu e o dono da escola temos carro, temos cachorro que come ração, somos brancos, homens, heterossexuais e moramos em São Paulo. Elas são mulheres, negras e caboclas, seus cachorros comem restos de comida, e elas, apesar de morarem em São Paulo, têm seus lares de coração bem longe, num pé de serra, num sertão que seria a coisa mais verde do mundo, se a esperança tivesse, de fato, essa cor.

Meu pai também veio desse sertão, ele era um oprimido. Talvez venha mais daí a minha identificação com as tias da limpeza do que das minhas leituras sociológicas... Meu pai gerou filhos opressores e isso é o que se chama “ascensão social” no Brasil, pois não há outra forma de deixar de ser oprimido. Meu pai carregava café no antigo IBC, Instituto Brasileiro do Café. Quase morreu duas vezes com os montes de sacas que escorregavam de pilhas mal feitas pela pressa de estocar a riqueza do Brasil. Imagina só: morrer esmagado por uma tonelada de grãos de café alheio... Hoje eu ensino em um colégio de São Paulo, e existe até alguma possibilidade de que eu dê aulas para os netos dos magnatas do café que oprimiram meu pai, auxiliando esses pequenos a entrar na universidade pública, essa bela fábrica de opressores! Essa ideia me aproxima um pouco de meu pai: nós servimos à mesma elite paulista. Ele, carregando a riqueza nas costas; eu, instruindo os filhos da riqueza para que o ciclo recomece. Mas isso não faz de mim menos opressor.
Talvez eu seja pior que isso, porque tenho a consciência que meu pai não tinha e ainda assim estou a serviço da perpetuação das relações de opressão... Eis o ponto crucial, pois é justamente essa minha contribuição para os opressores o preço que eu tenho que pagar para não ser um oprimido como meu velho pai… e o fato de que eu o amo, respeito e admiro não faz de mim menos opressor.

Jorge de Barros

11 ociosos:

Cláudia disse...
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Cláudia disse...

Olá, Jorge,
parabéns pelo blog!

Estava curiosa para lê-lo. Seu texto é realmente muito bonito, além de extrema sensibilidade, há muita, muita reflexão sobre o nosso papel como professor e sobre o papel que as próprias escolas exercem.
Parabéns, fico feliz por ter sido o 2o lugar. Se você quiser, mando meu texto para que o veja.
Até mais.
Cláudia

Lidiane Santana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge de Barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edson Bueno de Camargo disse...

Somos todos filhos de um ciclo vicioso.
Muito bom texto amigo Jorge, esta compreensão me arrasta para uma melancolia besta, mas a poesia me trai o tempo todo, a consciência é uma brasa ardente.

Grande abraço,

Marcos Roberto Moreira disse...

Um escritor mediano iria querer chocar os leitores mostrando absurdos como países ricos explorando recursos dos mais pobres, mulheres subjugadas por maridos violentos, adultos abusando de crianças... esse tipo de coisa que é pauta do Datena ao Jornal Nacional, e que ao invés de conscientizar as pessoas, só serve de assunto para se distraírem na viagem de trem ao trabalho.

Mas só um bom escritor, um cidadão consciente consegue enxergar a opressão no dia-a-dia, na passividade com que nos conformamos com nosso status quo na sociedade, sem nos importar com quem sofre para nos manter ali.

Um bom escritor, um ser consciente, não sugere soluções mirabolantes, mas enxerga a causa primaria do problema, expõe a ferida mesmo que para isso tenha que meter o dedo nela, admitindo-se francamente como parte desse problema. Isso por que um bom escritor, acima de tudo, é honesto no que escreve.

Não é sem motivo que você ganhou em 1º lugar.

Parabéns.

Anônimo disse...

Realmente...lindo.Parabéns!Sinto feliz por ser amiga de uma pessoinha maravilhosa e inteligente feito tú.beijão

Hélio Roberto disse...

Jorge, é realmente um prazer ler suas obras. Não por ter palavras bonitas, e sim porque você nos faz ver e entender a sociedade /humanidade, de um jeito crítico (na maioria das vezes chocante). Mas não decoramos suas palavras! Pois elas têm o efeito esperado: elas nos estimulam a pensar e rever nossos conceitos.

Primo/irmão, parabéns!

Anônimo disse...

Jorge, acho que somos mais parecidos nesta maldita condição de saber... Invejo meu pai, meu tios e parentes menos instruídos porque eles não tem consciência do que são; mas tem um inocente orgulho de que eles são necessários para qualquer coisa que haja neste maldito mundo, que nem eu entendo o que é quando me dizem e nem eles sabem o que é quando me falam... Sei apenas que é bonito e suave aos ouvidos. Não se parece com uma ordem, mas com uma terrível compaixão.
Seu pai alimentou os pais dos filhos que você alimenta; meu pai pinta com as cores que eu repudio, mas pinto com as mesmas cores que negamos. Nos negamos todos a nós mesmos.
Acho que somos opressores que não oprimem e nossos oprimidos é que nos matam...
Abço dolorido de melancolia e parabéns... Chris

Ed disse...

Nossa realide! É irmãozinho, e eu sou mais opressor que vc, simplesmente de ser mais velho e ter oprimido muito meus irmãozinhos! Parabéns!

Anônimo disse...

Parabéns, Jorge!

Cheguei aqui através do Éderson. Ontem enviei um convitinho virtual do meu Blog no que ele respondeu com o seu. E, graças a Deus. Só cheguei agora, mas tá valendo a pena. Vou virar freguesa.

Abraços

Lúcia Gönczy