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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

FENILETILAMINA

The Vampire - Munch


Era a insônia que a levava até a janela. Uma insônia comum na adolescência. Uma ânsia de futuro, uma vontade de ir à frente e ao alto, deixando o nó da garganta pra trás. Um sentimento similar ao dos passarinhos quando do voo inaugural. O quarto ainda trazia as ruínas da infância: o papel de parede de ursinhos, abajur com rendinhas, um perfume floral de ternura e conforto... Mas o que ela queria era o cheiro brutal da noite, perseguir o som das estrelas, coalhar os olhos com o pó da estrada. E foi numa noite assim que ele chegou, farejando o desejo louco dela. No início, ela não sabia se era um homem ou um animal. Era uma sombra, uma coisa se movendo num canto escuro, com dois olhos refletindo a luz da lua. Pouco a pouco, ele veio vindo. Noite após noite. Como se formasse, aos poucos, a matéria de que era feito. Moldando-se de acordo com a ânsia adolescente dela. E era, enfim, um belo rapaz, a materialização mais perfeita de seus sonhos. Um jovem suspirante embaixo de sua janela, com olhos queixosos, apaixonados e negros. Olhos que eram uma mescla de anjo e animal selvagem. Ele era mais belo que os garotos da escola e ainda mais lindo que os atores teens do cinema e das revistas. Porte, corte, gesto, voz e músculos. Mas, desde o primeiro momento, ela já sabia do que se tratava. Não fazia muito tempo que ela ainda acreditava em Papai Noel e suas leituras juvenis eram recheadas de bruxinhos, duendes, seres sobrenaturais... Assim, foi ela quem perguntou naturalmente, quando ele escalou sua janela com ar aventureiro: “Você é um vampiro?” “Sim…” ele respondeu, e a única sentença dela foi: “Que legal!” E assim ele entrou no cotidiano dela, sem muitos sobressaltos, a não ser os do seu coraçãozinho inexperiente. E ela passou a esperá-lo todas as noites, pois ele sempre surgia, embora nunca fosse possível dizer de que parte. A vida durante o dia, a escola, a família, os deveres, até as amizades, tudo parecia preto e branco, uma repetição sem fim e sem sentido. Só à noite ela era viva, ao lado dele, conversando com ele, sentindo sua presença irreal perto de si. E apesar de possuir uma beleza sobrenatural, uma beleza tão incrível que até desesperava, ele parecia gostar dela, assim, simplesmente, como um homem gosta de uma mulher. Ele era capaz de ciúmes, de inquietações, de timidez e queria conhecer todos os detalhes da curta vida que ela vivera, queria saber tudo o que ela tinha passado no curto espaço do dia, até das entediantes lições da escola, das irritantes conversas com os pais. E ele lhe contava histórias de tempos antigos, de tédios insuportáveis e silêncios inimagináveis. Às vezes até esquecia a pouca idade da menina e ficava horas dissertando sobre nossa restrita impressão do tempo, de como vivíamos descobrindo a pólvora, arrumando as mesmas gastas soluções para tudo e desenterrando medos superados e esquecidos até ressuscitá-los de verdade. Nesses momentos, ele pedia desculpas e ela simplesmente sorria e dizia que não se importava, pois era doce ouvir o som de sua voz. Ela o amava como jamais se lembrava de ter amado alguma outra coisa. Ela sentia a vida tão maravilhosa ao lado dele, que o antes, o tempo em que ele não existia, era como um filme antigo, longo e sem sentido. E ela até seria capaz de esquecer que ele era um vampiro, se seu toque não fosse frio e duro como concreto amanhecido. E por mais que desse prazer olhá-lo, sentir seu perfume, ouvir sua voz… tocá-lo era torturante, causava calafrios imensos, era como tocar em um pedaço de carne congelada. Mas, certa noite, tudo foi diferente. Ele veio com um leve rubor nas faces. Seus olhos também refletiam um brilho diferente, vivo, uma cor brilhante e alaranjada, surreal, não o negro profundo e insondável que ela tão bem conhecia. Naquela noite, ela pode tocá-lo sem repúdio, abraçá-lo, recebê-lo. Seus lábios estavam vivos, seu abraço quente e macio, e ela foi toda dele, pela primeira vez, realizando um sonho de muitas insônias e de muita espera. E ele foi doce e delicado, paciente e gentil, foi a primeira noite mais perfeita que uma garota pudesse imaginar. Naquela manhã, ela sentiu a felicidade e o frescor de um sentimento novo, como se uma primavera despertasse em seu peito. Sua felicidade era completa, mas durou muito pouco... apenas o tempo de começar o telejornal matutino, pois ela viu a notícia terrível da moça que fora atacada por um animal selvagem no parque da cidade: dilacerações terríveis, membros estilhaçados, desfigurações monstruosas, mas, estranhamente, disse o âncora do noticiário, nenhum pingo de sangue foi encontrado... A ligação era óbvia: aquela morte tinha sido o preço da sua noite encantada... Isso era o horror dos horrores e a menina caiu em um desmaio cheio de tremor, sem que ninguém pudesse entender nada. “Essa menina precisa se alimentar direito”, ela ouvia enquanto recobrava a consciência. Era preciso ir ao médico, mas ela não queria e conseguiu convencer os pais a deixá-la em casa, descansando apenas. Era difícil, porém, entrar no quarto, ali naquela cama onde ela descobrira o amor e o prazer à custa da morte de outra garota, jovem e sonhadora como ela... Então, num momento de lucidez, decidiu que jamais abriria aquela janela novamente, pois ela só seria culpada se continuasse alimentando aquele demônio. Mas com a noite, veio a voz dele, chorando, uivando, lamentando a própria existência, pedindo perdão arrependido, jogando todo lixo do universo sobre si, chamando-se de monstro, prometendo a própria ruína, a própria destruição... e ela não pôde resistir. As pazes foram seladas com os lábios dele ainda mornos – o sangue da presa ainda corria em suas veias; entretanto ele prometeu que nunca mais repetiria crime igual. Noites após, o corpo dele foi voltando ao estado de dureza e frialdade, seu rosto cada vez mais cadavérico, seus olhos se afundando num negror profundo. E ela começava a sentir saudades do calor e da maciez, saudades da vida pulsando naquele corpo amado, como ela havia sentido antes… e ele parecia ficar cada vez mais triste, cada vez mais infeliz por não poder dar prazer e calor, em não poder ser tudo pra ela. Ele era uma casca vazia e sem vida. Foi então que, depois de várias noites, ele a surpreendeu novamente, com o rosto afogueado, os olhos brilhantes como fogo, e sua camisa ainda respingada de vermelho... Ela desesperou-se, tentou fugir, ensaiou um grito de horror… mas ele estava incrivelmente lindo, incrivelmente vivo, parecia que tinha corrido quilômetros para buscá-la, parecia um herói invencível. Então ele disse que sua vítima tinha sido um estuprador, era um homem mau, que era até um favor para a humanidade exterminar tipos como aquele… e ela, que detestava profundamente os estupradores, não resistiu mais e teve a sua segunda vez. E assim ocorreu com a terceira, a quarta, a quinta... um pai violento, uma prostituta, um provável suicida... A polícia e os cidadãos alarmados já procuravam a fera que atacava as pessoas em locais ermos, dilacerava o corpo e subtraia o sangue. Seria um lobo? Um urso? Seriam coiotes? Um psicopata? Já se falava em recompensa. E ela ainda sofria com aqueles nomes e aqueles rostos que apareciam nos telejornais, mesmo sabendo que suas mortes eram “merecidas”, que eram “até um bem para a sociedade”, como ele sempre dizia... e havia também o medo de que seu namorado fosse morto por aqueles caçadores que apareciam armados até os dentes na tevê. Entretanto, mais que qualquer medo, seu vício e sua sede de amor eram ainda mais fortes. Ela sabia que necessitava do corpo quente e vivo dele, tanto quanto ele necessitava de sangue... Foi então que ela pediu a ele que a transformasse. Eles nunca haviam falado sobre isso, mas ela sabia ser possível, tinha visto nos filmes e nos livros. Ela queria fugir com ele, sumir, mergulhar definitivamente em seu mundo de trevas. Então, depois de resistir bastante, ele explicou como era possível a transformação: ela teria que sentir seu sangue ser drenado, gota a gota, e não sentir nenhum tipo de medo. O medo era a chave, pois é ele quem atrai a dama negra. Sem o medo, o anjo da morte se confunde, não vem, e a pessoa fica a vagar na terra como um morto vivo, um nosferatu, um vampiro. Mas, ele explicou, é muito difícil não sentir medo quando vem a dor, o frio e a escuridão. Só um outro sentimento maior, como o ódio, a determinação ou o amor, seria capaz de obstruir o medo. Ela então, tendo a certeza que seu amor era suficiente, aceitou tentar, pois a coisa que ela mais queria, acima de tudo, era poder amá-lo livremente e para sempre. “Você tem certeza?” Ele perguntou. “Mais do que tudo” ela disse, se entregando em seus braços. Foi assim que, como o noivo que carrega sua eleita, ele a carregou no colo e a pousou na cama tão conhecida. Delicadamente se curvou, tomou o pulso dela e o beijou intensamente. “Não tenha medo, minha bela... Que o seu amor seja maior que todo o medo… Depois dessa passagem, você será minha eternamente… Confie…” Então ele cravou suas presas com precisão incrível e passou a sorver, deliciado, aquele sangue límpido e incrivelmente doce. Ela sentiu seu coração bater rápido, mas fechou os olhos e se concentrou em todas as boas lembranças, em todos os momentos maravilhosos, no amor imenso que sentia por ele, e o frio foi chegando, a dor se instalando, mas seu amor resistia, resistia, e resistiu até o último suspiro.

***

O sangue é abarrotado de hormônios que são, para o vampiro, como uma forma de “tempero”. Geralmente o gosto que ele sente é o de medo: adrenalina e cortisol. Para sentir outros sabores, outras nuances, o monstro tem que preparar a presa, trabalhar sua emoção, inventar situações. Para alcançar o doce sabor do amor, por exemplo, a criatura é capaz de simular sentimentos, fingir humanidade, submeter-se aos desejos e delírios ridículos dos mortais. Provavelmente, foi mais ou menos nisso o que ele pensou logo depois de exaurir a última gota de sangue da menina, delicadamente açucarado, repleto de feniletilamina, um gosto doce e concentrado como só o primeiro amor possui… Mas logo que se recuperou da sensação de prazer, lançou um olhar longo e indiferente para o corpo inerte e pálido da menina morta, assim como quem olha uma embalagem vazia e descartável. Naquele instante, o quarto estava completamente vazio, pois nada havia de vivo por ali. Então, como uma lufada de vento, ele se foi, misteriosamente como havia chegado.


Jorge de Barros

2 ociosos:

Flantuares disse...

Este texto me deixou impressionado por tamanha qualidade que possui.

Edson Bueno de Camargo disse...

Calafrio. Muito bom. Fugiu ao óbvio.