Páginas

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

GRAVIDADE


Alberto, 25 anos, quartoanista de Física, 4 graus de miopia, pomo de adão saliente, voz compassada de seminarista e olhos perscrutadores sob sobrancelhas ramalhudas. Amava os teoremas e as fórmulas perfeitas da Física Clássica, bem como mulheres de unhas vermelhas e voz rouca. Era um bom rapaz, enfim, mas como explicar isso os 48 adolescentes inquietos do 1º D que o viam gaguejar na sua estreia como professor? Para Alberto, as leis de Newton eram como uma sinfonia angelical, uma obra sublime de verdade elegante, as digitais de Deus sobre a matéria. Mas Juliana, na terceira fileira, acabara de ter sua menarca. Os meninos do fundão, quase todos “Boca Virgem”, perturbavam Vitor, que assumira nunca ter beijado. Juliana, na primeira fila, detestava o amor, traumatizada com os abusos que vivera na infância... e assim por diante. Mas Alberto pedia atenção e participação, rabiscava a lousa, entusiasmava-se com a beleza dos números, propunha exercícios e exasperava-se com a indiferença geral. Pedia mais silêncio e não entendia como eles não vibravam frente a verdades tão puras! Explicava, re-explicava, e olhava ao redor a completa apatia. Frustrado, então, mas sem nenhuma raiva, simplesmente desistiu da Física. Assim, de uma vez. Seus pés descolaram-se do chão, seu corpo pairou no ar por um segundo, depois partiu, voando sobre as cabeças da classe, para sempre, pela janela dos fundos.
Jorge de Barros

CONTO SELECIONADO NO 1º CONCURSO DE E-CONTOS DA FICÇÕES EDITORA
QUEM QUISER CONFERIR OS DEMAIS E CONTRIBUIR COM ESSES 37 ESCRIVINHADORES DE BOAS MENTIRAS, ADQUIRA O E-BOOK NO SITE:

4 ociosos:

Edson Bueno de Camargo disse...

Ah! Se fosse possível
assim tão fácil
desistir da gravidade

o que seria dos suicidas
então planando
sobre o vão das pontes

Cláudia disse...

Jorge.............
genial. Parabéns!
Será que nós, das línguas e da literatura, não poderíamos mergulhar profundamente nas páginas dos livros que as Julianas, os BVs e os não BVs levam para a sala e simplesmente não leem?
Como se chamaria o conto? Verossimilhança? Contextualização? Entrelinhas? Epifania? Pressupostos e subentendidos?
Parabéns, meu amigo!

Rodrigo Tomé disse...

Conto maravilhoso, tem a perfeição de um Dalton de Andrade ou um Mário Trevisan.
Sou professor e também poeta (nas horas calmas), sei como é isso.
Se possível, queria trabalhar/estudar o seu conto.


Um abraço!

Jessica Toni Artti disse...

Espetacular!
Texto maravilhoso! Parabéns!
Cada vez mais eu me orgulho de ter um modelo como você para seguir!!!