Dava dó de ver a pobrezinha. Com seu vestidinho verde brilhante amarfanhado no trem das 18h, entre as estações Luz e Brás. Espremida no meio do povo e sofrendo com os solavancos e empurrões. Mas o pior era que suas asinhas de libélula, muito sensíveis, estavam sendo magoadas pelo povaréu, que não conhecia aquele tipo de criatura e nem percebia o seu sofrimento. Tive que intervir! A bichinha estava quase desmaiando de dor e vendo a hora de um apressado desavisado arrancar-lhe uma das asas sem querer. Gritei, peguei a pobrezinha pela cintura, esbravejei, mas o povo na plataforma da estação do Brás, querendo entrar, não me deixava sair. Aí eu tive que apelar e saí gritando: “Ela vai vomitar, povo, sai da frente que ela tá vomitando!” Aí abriu-se uma clareira e eu consegui resgatar a pobre fadinha sem maiores prejuízos.
Levei-a até um quiosque de lanches da estação e paguei pra ela um daqueles cachorros quentes com duas salsichas de dois reais. Tinha que ver a pequena devorando o lanche! Estava com muita fome. Depois de restabelecida, foi logo agradecendo e me contando um pouco da sua história.
Ela estava ilegal aqui no Brasil, e trabalhando em uma empresa de telemarketing, ganhando um salário de fome, mas quando veio, foi com a promessa de trabalhar no cinema. Não como atriz, que o mercado cinematográfico brasileiro não dá espaço para fadas, mas fornecendo o pó de pirlimpimpim de suas asas para os filmes de ação — É assim que eles conseguem aqueles pulos e vôos fantásticos. Ela me disse também que há um verdadeiro mercado negro de pó de pirlimpimpim. Em Hollywood, as fadinhas trabalham em longas jornadas de 10, 12 horas, como se fossem galinhas poedeiras, para fornecer o pó mágico utilizados nas dezenas de ação. Antigamente, ela me explicou, o mercado era bem pequeno e localizado: os filmes de Kung Fu chineses, mas depois de “Matrix” e do Jackie Chan, Hollywood passou a importar a iguaria em massa para as suas produções e a subempregar as fadinhas ilegais nos EUA.
Pois bem, ela veio ao Brasil trabalhar naquele filme “Besouro”, acreditando — pobrezinha! — que um novo nicho de filmes de ação com capoeira iria surgir por aqui... mas não foi o que aconteceu e ela, sem poder voltar para sua terra natal, teve que se virar em um país estranho, com hábitos desconhecidos. No início, procurou as comunidades de seres mágicos deste país, mas descobriu, horrorizada, que eles viviam em situação ainda mais precária que a dela, em favelas, cortiços e zonas afastadas dos centros urbanos, marginalizados e prostituídos. Encontrou então o emprego de atendente de telemarketing, com o qual pretendia juntar dinheiro para seu retorno, mas o salário é tão baixo que mal dá pra se alimentar, e o pior é que, sem comer direito, suas asas não produzem pó suficiente nem para seus próprios voos, e a coitadinha tem que ficar pegando esses trens lotados.
Depois ela se lamentou sobre a situação de seu país, Avalon. Com a entrada na zona do euro, a incipiente indústria avalonesa entrou em quebradeira e agora, com a crise de 2009, a rainha das fadas precisou cortar gastos sociais e aumentar impostos, empobrecendo a população que procura novas oportunidades em outros países. Anões são força de trabalho barata nos países europeus, elfos estão envolvidos com tráfico de drogas, cassinos e a rede de prostituição internacional, mas a situação pior é a dos faunos, os poucos que conseguem viver fora de seu país pegam os piores empregos que existem e há até alguns trabalhando na indústria de cinema pornô bizarro...
Depois de ouvir tanta desgraça, eu fiquei com tamanha pena da fadinha que não tive dúvidas. Segurei seus ombros com determinação, olhei no fundo dos olhos verdes e brilhantes dela, e disse em bom som: “EU NÃO ACREDITO EM FADAS!” Ela então arregalou os olhos e estremeceu. Seu brilho foi se apagando, apagando, seu vestido e seu corpo foram ficando transparentes, até que ela sorriu, aliviada, e desapareceu completamente, deixando apenas um pouco de um pozinho brilhante e verde sobre a cadeira de plástico.
Jorge de Barros

2 ociosos:
Ei, Jorge. Isso me lembrou uma coisa.
Você chegou a ler aquela lenda doida que eu e a Paola escrevemos sobre a Alice? Acho que você ia achar que é uma bela sinconicidade... Hehehe.
Entra no:
http://recantodasletras.com.br/autores/taisfecher
e procura um e-book que eu postei lá.
Beijos
Lindo, lindo, lindo!
Aí em São Paulo eu não tenho certeza de como andam as coisas, mas aqui por Assis tenho visto muitas fadas caídas na sarjeta, dançando alucinadamente sob efeito de drogas, transando bêbadas por um canto e outro...
E quando as coisas me assustam muito e eu posso olhar nos olhos delas e fazer o que você fez, o pó de pirlimpimpim que deixam ao desaparecerem nada mais é do que a cocaína que ainda não foi processada pelo seu organismo fantástico.
Texto lindo! Parabéns!
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