Eu subverto o velho adágio e afirmo: “acredito em bruxas, mas sei que elas não existem”. Porque “existir”, no sentido físico, científico, cético, nem mesmo os próprios físicos sabem direito o que é. A matéria é feita de pequenas partículas? De estalos de energia? De cordas vibratórias? De membranas sotopostas? Qual é a última teoria?
Eu fico com o meu avô, homem religioso, sério, sisudo, que me relatou sua experiência ao avistar um lobisomem. Ele no alto de seus 94 anos, e eu na minha soberba dos 16 tive a coragem de sorrir do seu relato. Pois ele olhou nos meus olhos e disse: “Isso é sério! Não se ria! Eu não falo por enigmas! Vi o bicho assim como te vejo agora!” E eu fui me arrepiando de um medo inexplicável, coisa que não sentia desde a infância. E seus olhos cavados de avô cresceram, se avolumaram, se impuseram e me soterraram, me deixando com o sorriso amarelo de neto paulista que pensa que sabe tudo e não sabe nada. Eu que acredito em átomos que nunca vi, como posso desacreditar do lobisomem que meu avô viu e juramentou? Lobisomens não existem, mas eu tenho certeza de que vô Severo viu um.
Era um bicho alto e majestoso, com pelos brancos luminosos. E não era de matéria que se pegasse, era feito de luz do luar. Bem no caminho da casa para o sítio, em lugar ermo, habitado por visagens. Mas meu avô não retardou nem acelerou o passo. Colocou seu coração no colo da virgem, rezou o credo e gritou: “Quem pode mais que Nosso Senhor Jesus Cristo? Por baixo, por rente ou por riba da terra?” Pois o licantropo, que estava bem no meio do seu caminho, estacou, escancarou os dentes com gestos sincopados e desengonçados, se curvou até o tamanho de um cachorrinho branco de madame, debandou estrada afora e nunca mais foi visto.
Boa história essa do meu avô. Melhor se contada ao redor de uma fogueira, em sexta feira de lua cheia, com vento morno soprando no mato por trás de nós.
Mas eu não quero contar essa história que contei. Quero falar de outro duende. Quero falar de saci.
Estava eu viajando num famigerado ônibus intermunicipal, em direção ao Jardim Itapeva, em Mauá, quando ouvi uma conversa entre o motorista e o cobrador. Falavam de um grafite de Saci desenhado no muro de uma casa na Avenida dos Estados, em Santo André. O motorista jurava que o artista era o próprio saci e que em uma madrugada tinha visto o tal, pulando numa perna só, fazendo seu autorretrato pelas ruas da cidade. Achei curioso ouvir aquela história de matuto num coletivo urbano cercado de concreto e asfalto por todos os lados, olhei pra fora e vi o tal do desenho do saci, com os dizeres: “É o Saci Urbano!” e, mais adiante outra, e outra... passei a perceber em vários cantos do ABC e até em São Paulo o ilustre perneta representado em várias poses e atividades: saci ciclista, skatista, futebolista e até em algumas situações de crítica social: dando comida aos pobres, relatando o consumismo, denunciando a má distribuição de renda, e sempre usando um tênis maneiro no seu único pé. Era um trabalho hercúleo espalhar o ícone do saci por toda a metrópole! Seria trabalho de um único indivíduo? Seria mesmo obra desse nosso moleque perneta de gorro vermelho, que tanto encantou Monteiro Lobato? Curioso, resolvi investigar.
Por meio da world wide web, fonte de pesquisa dos preguiçosos, descobri espantado que a maior autoridade em sacis no Brasil é uma associação situada em São Luiz do Paraitinga, a SOSACI - Sociedade dos Observadores de Saci, uma entidade que abrange artistas e intelectuais de vários segmentos. Pensei se tratar de uma brincadeira, mas lendo os relatos e o estatuto da entidade, lembrei do meu avô e evitei rir das atividades da Sosaci e resolvi contatá-los. Depois de alguns e-mails e telefonemas, consegui algumas informações sobre o tal Saci Urbano por meio de uma reveladora entrevista com dos eminentes estudiosos do tema: um saciólogo. Entretanto, como o estudo sistemático do saci ainda sofre muito preconceito, mesmo entre a comunidade acadêmica, o meu informante pediu para não ser identificado, pois se trata de importante professor da uma universidade federal, que já sofreu represálias por defender publicamente a causa do saci. Por isso, seu nome será omitido e o chamarei apenas de “saciólogo”. Descrevo a seguir alguns trechos da entrevista que ele me concedeu gentilmente:
Jorge de Barros: Sacis existem?
Saciólogo: Posso assegurar que sim, eles existem. Há muita coisa que a ciência não explica e, veja vem, os irlandeses não acreditam em elfos? Há até casos em que estradas foram desviadas para preservar certas pedras, onde habitam as tais criaturas mágicas. Então por que nós não devíamos acreditar no saci? Quer dizer, elfos na Irlanda é cultura, saci no Brasil é superstição? Isso é pensamento de colonizado! Em algumas regiões do Brasil sua presença é marcante no cotidiano do homem do campo e o saci é responsabilizado por uma série de fenômenos físicos como a perturbação em alguns animais, os famosos nós na crina dos cavalos, o leite ficando azedo, a pipoca não estourando. É um espírito brincalhão que leva as coisas de um lugar para o outro e desafia a nossa seriedade e a nossa lógica pré-estabelecida das coisas. Aliás, quando me perguntam se o saci existe, eu prefiro responder com um “por que não?”. Por que não acreditar? Que prejuízo levamos em acreditar no saci?
JdB: É porque a gente vive num mundo marcado pelo raciocínio lógico e pela técnica...
Saciólogo: Por isso mesmo! Acreditar no saci é ir contra muita coisa “lógica e técnica” que tem por aí e que só causam horror e barbárie! O Saci é como uma criança, o saci é completamente pacífico e, por mais que ele crie problemas, nunca é para fazer o mal. O saci é uma força caótica, e esse tipo de força foi esquecido por este mundo. Veja agora essa campanha da Sosaci, pro Saci ser a mascote da copa. Tem um monte de gente argumentando que não e eu já ouvi um monte de absurdo dos que se dizem contrários. Dizem, por exemplo, que ele não pode ser a mascote porque ele é deficiente, tem uma perna só, sugerem que seja mascote das paraolimpíadas. Veja só, isso é pura discriminação! Se a mascote é um urso, um cachorro, tudo bem, mas urso e cachorro não praticam esporte nenhum, que eu saiba! Então o urso pode e um moleque com uma perna só não pode? É uma mentalidade tacanha! E quando falam do pito! Ah, não pode porque ele fuma, é politicamente incorreto. Mas o Saci é justamente isso, ele ri da cara do politicamente correto, esse politicamente correto está deixando o mundo chato, insuportável. Os jovens estão cada vez mais aceitando ideias como pena de morte, racismo, xenofobia, você viu aquela moça do twitter, aquela estudante de direito massacrando os nordestinos? Ela é só uma menina! E é o tipo de gente que não acredita em Saci, que acha que o fumante deve ser massacrado e que o deficiente só pode representar deficiente. Contra esse mundo é que eu acredito no Saci.
Jdb: Mas você acha que o saci tem chance de ser mascote?
Saciólogo: Eu estou nessa campanha, já divulguei bastante, mas ontem mesmo eu estava pensando: quer saber? Toda essa parafernália técnica das competições formais, toda essa burocracia da CBF, tudo isso é anti-saci. Eu acho mesmo que o saci deve estar se lixando pra ser ou não escolhido. Acho até que ele vai aprontar bastante durante os jogos. Escreve o que eu estou te dizendo: todas as falhas que acontecerem, as gafes e coisa e tal, pode colocar na conta do Saci, ele vai aprontar muito durante os jogos.
JdB: E quanto ao Saci Urbano?
Saciólogo: Isso é uma coisa maravilhosa, a capacidade de adaptação do Saci. Mas para explicar isso a gente tem que entender que existem várias espécies de Saci...
JdB: Várias espécies?
Saciólogo: Sim, tudo o que vem da natureza é assim, variado, multiforme, o saci não é diferente. Tem por exemplo o menorzinho, que é o Saci-trique, que anda pela floresta pisando em folha seca e fazendo o barulhinho: “trique-trique”, já o saci comum mede em torno de 77 cm e anda em forma de redemoinho, mas o saci que vemos se adaptar melhor à cidade é o Saci Açu, o maior da espécie, que pode ser confundido com um ser humano de estatura baixa a mediana.
JdB: Esse é o saci que vem se adaptando?
Saciólogo: Sim, essa espécie parece ser mais resistente à poluição e é muito adaptável. A aparição mais notável vem ocorrendo na periferia de São Paulo e na região do ABC, curiosamente a região mais urbanizada do Brasil, mas já há relatos de saci urbano no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Recife, agora, os saciólogos ainda divergem sobre se é uma nova espécie, o saci urbanus, ou apenas uma variedade de Saci-açu.
JdB: É justamente sobre o saci do abc que eu queria perguntar. É um saci que anda enchendo a cidade de grafites?
Saciólogo: Olha, isso é uma questão interessante. O artista que faz as obras não é um saci, é o Thiago Vaz, que mora numa região limítrofe entre a área urbana e a mata atlântica, numa cidade chamada Ribeirão Pires. É um artista plástico muito talentoso, mas não se pode mexer com o saci e sair incólume...
JdB: Como assim?
Saciólogo: Veja, nas cidades em que tem aparecido a arte do Thiago, nas proximidades dos desenhos, dos muros, há relatos de aparições de saci ou coisas estranhas acontecendo. O saci urbano parece que está aprendendo a conturbar as redes urbanas. Semáforos que pifam, redes de computador que não firmam ou que caem a toda hora, já tem gente colocando a culpa no Saci. Um amigo meu de São Paulo disse que sua internet vivia caindo, era intermitente, trocava de operadora, mas não adiantava, contei pra ele a história do saci urbano, então ele passou a colocar um pouco de fumo no poste da sua casa, uma oferenda ao saci, e ele nunca mais teve problema.
JdB: Sério?
Saciólogo: Juro! O próprio Thiago já me contou algumas coisas, como a forma de trabalho dele. Não é sempre que ele consegue fazer o saci urbano e não é em todo o lugar, ele relata uma espécie de transe... há por exemplo alguns desenhos que ele não se lembra de ter feito, há relatos de desenhos feitos em pontos muito distantes que aparecem na mesma noite num trajeto que seria quase impossível que o Thiago tivesse feito a pé, que é a forma como ele trabalha.
JdB: Pode ser uma brincadeira de saci?
Saciólogo: Ou uma parceria, sinto mais como uma parceria. Tem um saci na Cidade Universitária, na USP também, na rua do matão, mas não sei se ele pode ser classificado como urbano, porque ele vive na pequena área verde que tem por lá. O fato é que ele vem fazendo cada vez mais incursões pelo ambiente urbano, ele toma conta de um grupo de capivaras que vive entre a Cidade Universitária e o poluidíssimo Rio Pinheiros, uma família de capivaras que convive de maneira notável naquele ambiente degradado. Parece que esse saci arredio vive uma luta contra a cidade e quer trazer a floresta de volta, mas não dá ainda pra saber. Há quem diga que não é o saci, porque eles não se envolvem nessas causas sérias, há quem diga se tratar de uma caipora, mas não dá pra afirmar nada ainda.
JdB: Última pergunta: você já viu um saci?
Saciólogo: Claro que sim! Sacis são muito comuns por todo o Brasil. Mas você tem que se propor a vê-los. Eles são muito danados. Difícil de ver no mato é onça. Onça e uirapuru. Saci é fácil.
Jorge de Barros
Links:
SOSACI: http://www.sosaci.org/
THIAGO VAZ: http://eosaciurbano.wordpress.com/
SÃO LUIZ DO PARAITINGA: http://www.paraitinga.com.br/
ENTREVISTA COM THIAGO VAZ:
http://umavoznoinvisivel.blogspot.com/2010/05/e-o-saci-urbano-entrevista-com-thiago.html

4 ociosos:
Não acredito em nada como um todo absoluto, mas em pequenas partes, a tudo é possível existir.
Eu que sou ateu vi milagres com meus olhos, a própria criatura que voz fala foi curado de bronquite a base de oração e reza, e arte de saci é foda, aqui em casa faz sumir as coisas.
Minha vó paterna acreditava piamente em saci, donde concluo que só pode ser verdade.
Querido Jorge, o saciólogo tem razão, aqui no interior tem sacis de todo jeito: uns são malandros, mas inofensivos, outros se fazem de tolos e são muito espertalhões; uns entregam sonhos, outros, roubam corações.
Grande beijo.
Ops, um saci passou agorinha por minha janela....pegou minha palavra....
Volta aqui!!!!!
nossa, muito linda essa entrevista Jorge!...tempos atrás eu assisti um Doc. "islandês" chamado Huldfolk (povo escondido), que trata da crença dos islandeses nos Elfos...filme lindo!
Um Saci; dois Sacis;três Sacis; quatros Sacis; para cavalgar pelos
quatros cantos do mundo...Salve, Jorge! Um bom texto me deixa com essa impressão de boa leitura.
Abraço
É O...
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