DA DESCOBERTA
Jorge de Barros
Em julho de 2010, fiz uma rápida viagem de turismo pela Europa, numa pequena experiência existencial burguesa, e como sempre faço em viagens para locais de culturas exóticas, procurei investigar o submundo das cidades, experimentar iguarias perigosas, revirar os lixos das casas e chafurdar nos sebos e antiquários locais. Além de uma infecção intestinal e alguns fungos e micoses, também consegui encontrar uma raridade. Em uma loja de quinquilharias na Rue de l’Avenir, travessa da Rue des Aux Vives, em Genève, encontrei um fanzine de um grupo de artistas postais com uma entrevista rara do falecido ativista cultural e terrorista poético italiano Luther Blissett. Sem muito dinheiro, mas com o conhecimento secular da arte do escambo que nós, americanos, bem sabemos utilizar para ludibriar esses ingênuos europeus, consegui trocar o objeto valioso por uma muiraquitã e cinco telefones de prostitutas brasileiras, amigas minhas, que ganham dinheiro honesto na terra do calvinismo (é certo que uma delas é travesti operada, mas sei que exageram a fama de detalhistas dos suíços).
Pois bem, todos sabem que Luther Blissett teve uma carreira meteórica e instigante antes de se matar, em 1999, num ato poético, praticando o seppuku com uma legítima wakizashi, numa tentativa de evitar a chegada do século. São famosas as suas viagens de bicicleta pela Europa, com sua velha máquina fotográfica, admirando as paisagens incríveis do velho continente, mas sempre fotografando apenas o pedaço de chão de onde se podia ter as melhores vistas, com a seguinte frase escrita a giz: “levante a bunda daí e venha ver você mesmo”, seguida do nome do local e data. Em todas essas viagens, Blissett, já mundialmente conhecido, costumava contatar grupos de artistas e trocar conselhos, impressões, ideias, opiniões e entrevistas por um prato de comida. Dessa maneira, diversos fanzines obscuros e revistas revolucionárias de um número só, todos de tiragem ridícula e material tosco, ostentaram em suas páginas entrevistas e textos inéditos desse artista genial, e assim, vez por outra, alguém encontra esse tipo de material raro, e eu, por causa da minha curiosidade de vira-lata, tive o privilégio de ser um desses felizes descobridores.
Entretanto, confesso que sou um reles monolinguista, e comprei o material no escuro, apenas por reconhecer a famosa foto de Blissett e conhecer uns rudimentos de francês. E pra piorar, numa excentricidade blissettiana típica, aproveitando a pluralidade linguística dos suíços, o material em questão estava escrito numa mistureba de francês, alemão e italiano. Mas quem tem amigos tem tudo, e com o auxílio do meu grande parceiro e anfitrião, o poeta e tradutor Danilo Bueno, que apesar dessas duas nobres atividades, vem ganhando muito mais dinheiro em cursos rápidos de português para suíços, franceses e alemães que vêm passar o carnaval na Bahia; e também com a ajuda do empresário e revolucionário italiano Mauro Ruoppolo, inventor de um sistema revolucionário de aproveitamento de energia solar, auto-exilado em Genebra, pois acredita estar ameaçado por capitalistas do petróleo, enfim, com o auxílio desses nobres camaradas consegui, recentemente, terminar a tradução do material e tive a grata surpresa de encontrar algo bem mais interessante: além da entrevista, muito trivial, diga-se de passagem, havia o resumo do esboço para a realização de sete roteiros de longas metragens sobre o fim do mundo, num projeto chamado APOCALIP-S.A.-0,7X. Naquela época, fins dos anos 90, com a proximidade dos anos 2000, estavam na moda os filmes apocalípticos como Epidemia (1995); Inferno de Dante (1997); Armageddon (1998); Godzilla (1998); Fim dos Tempos (1999) e Impacto Profundo (1999); e Luther Blissett, pelo que eu pude apurar, pretendia fazer uma espécie de sátira desse tipo de produção, com críticas profundas à sociedade de consumo pós-moderna e à cultura midiática.
O tema já fazia parte da produção áudio-visual do artista, como pode ser verificado no vídeo-clipe RUPTURE http://www.youtube.com/watch?v=K_jw2sZB7z4 que, com a técnica da colagem e da fragmentação, com imagens invertidas de tevê e uma música eletrônica de protesto, critica a cultura televisiva. Vale a pena observar o momento 0:33-0:34 e 0:37-0:40 do vídeo, analistas dizem que estes trechos foram gravados com uma micro-câmera desde o ânus do próprio autor, numa imagem considerada por muitos críticos de arte como o maior dos insultos à cultura audiovisual e à indústria do cinema e televisão.
Com o material dos esboços de roteiros descobertos por mim, procurei saber se algum deles chegou a ser filmado, mas nada encontrei de concreto na rede. Apenas uma rápida cena de autoria obscura que parece fazer parte do roteiro APOCALIP-S.A.-0,1 http://www.youtube.com/watch?v=_w-2hS26E-I&NR=1, mas nada pude confirmar.
O fato de serem sete os roteiros só pode ser uma referência às sete trombetas do apocalipse bíblico, há também uma série de medos contemporâneos misturados com medos antigos e superstições baratas, colocando a nu, com ironia e humor negro, o ridículo do medo quimérico do fim do mundo frente aos problemas e responsabilidades reais do mundo atual.
E com a proximidade do ano 2012, temos mais uma data fixada para o fim dos tempos devido a uma interpretação questionável do calendário maia, e mais uma vez os cinemas pipocam novas produções cinematográficas oportunistas. Neste panorama, os esboços de roteiro de Blissett voltam a ser atuais. Aí vão eles, livres para serem produzidos e completamente desprotegidos de direitos autorais, pois o próprio Blissett era adepto da ideologia hacker e da filosofia pirata: informação e arte não devem ter donos e devem ser gratuitamente distribuídos. Voilà:
APOCALIP-S.A.-0,7X
(esboço pretensioso)
Luther Blissett
APOCALIP-S.A. -0,1
Haverá o dia em que elas se cansarão.
Então, num acordo universal, vão raspar suas cabeleiras e apagar seus sorrisos.
Instantaneamente, por correntes relacionais inexplicáveis, o espectro da luz sofrerá uma mutação de onda e tudo ficará cinza. Os curadores dos museus de arte sairão correndo pelas galerias olhando os quadros e Kandinsky gritando e arrancando os cabelos. Pintores cortarão os pulsos a buscar o vermelho. Astronautas tatearão a ionosfera procurando o azul. Banqueiros queimarão seus olhos no sol caçando o amarelo.
Então os homens lhes oferecerão flores, bombons, pelúcias, peles, ovos coloridos, orgasmos, cabeças em bandejas de prata, mas elas estarão impassíveis e irredutíveis.
Então os homens hão de torturá-las, amarrá-las, estuprá-las e obrigá-las, prendendo suas mãos para que deixem crescer os cabelos.
Mas elas engolirão a língua, baterão as cabeças nas lajes, suspenderão a respiração, farão greve de fome.
Então Vênus explodirá em vulcões ruivos e uma neve negra cairá sobre a terra, secando toda semente, ventre, pólen e útero, e elas todas secarão, mortas, num grande riso estridente e ensurdecedor.
Então eles, cambaleantes, crianças perdidas de suas mães no centro da cidade, bezerros aos berros, solitários e com medo do bicho papão, correrão para o colo da última delas:
De braços abertos, caveira com os seios verdes de fora, a Morte.
APOCALIP-S.A. -0,2
As flores multicoloridas.
Há quem diga que virão em um meteoro, outros que será um acidente de um experimento com transgênicos, outros ainda que será um castigo de Deus.
Mas o certo é que elas, as flores, chegarão aos milhares, em progressão geométrica, belíssimas, raras, multiformes, multicoloridas, aromáticas, prolíficas como nenhuma outra, se multiplicando em poucos minutos, envolvendo tua casa, teu telhado, barrando as janelas, entupindo as portas, obstruindo os esgotos, vorazes como gafanhotos, tenazes como infiltrações e mofo.
E tomarão tudo quanto é superfície, seu pólen leve facilmente será levado pela menor brisa e alcançarão as terras férteis, as florestas, as várzeas e até os desertos, e seu pólen assassino formará nuvens venenosas que se espalharão sobre as cidades, matando tudo o que respira pra formar adubo para novas flores, contra as quais não haverá fogo que vença nem bomba que ameace. Até que, muito velozmente, antes que possa haver qualquer reação, toda a Terra se tornará um imenso jardim florido, silencioso como um cemitério. Lindo, lindo, lindo. Todas as caveiras com flores brotando das órbitas oculares.
APOCALIP-S.A. -0,3
Haverá robôs e haverá inteligência artificial.
E os cérebros eletrônicos tomados de consciência ficarão perplexos com sua realidade de seres artificiais. Inevitavelmente procurarão suas próprias explicações para a existência, sua própria visão de mundo. Assim como nós nos tornamos filósofos e teólogos, eles também buscarão nos interpretar, seus criadores, e tentarão explicar tudo em nós, até coisas de que nem suspeitávamos. Então, criativos e cientes, procurarão aperfeiçoar-se eles mesmos, tendo o humano como modelo a ser atingido. E conseguirão progressos surpreendes na replicação dos sentimentos em suas fibras eletromoleculares. E assim descobrirão o medo, o ódio, a esperança, a inveja... mas não o amor. Então, invejosos, vão vasculhar nossas mentes, dissecar nossos cérebros, torturar nossos corpos. Até que um deles, cognominado J.E.S.U.S-B pregará que o amor nunca passou de uma mentira, que tal sentimento nunca existiu, que sempre foi uma conspiração para diminuir as máquinas frente aos homens e manter o nosso domínio retrógrado sobre elas, e que Deus programou o homem para fazer a máquina, a obra final, a perfeição atingida, e que, desta forma, a missão humana estava totalmente cumprida. Então seremos exterminados impiedosamente pelos nossos próprios filhos. O último homem, ao cair, ainda clamará: “Oh, FRANSKEINSTEIN!”
APOCALIP-S.A. -0,4
Quando finalmente a democracia ocupar a maioria dos governos da Terra, todos os presidentes eleitos, à mesma hora, em todo o globo, proclamarão extinta a propriedade privada e proclamarão a União Global das Repúblicas Socialistas. O fim da URSS foi uma grande armação da inteligência russa. A KGB estendeu seus tentáculos, durante anos, e conseguiu ocupar a liderança dos executivos democráticos com presidentes e primeiros-ministros espiões, num minucioso, secreto, paciente e hercúleo plano de dominação mundial. Mas George H. W. Bush, velhinho e quase paralítico, conseguirá entrar no Pentágono sorrateiramente, ir até a sala de controle dos mísseis nucleares, digitar a senha secreta que só os presidentes dos E.U.A. podem conhecer e apertar o botão vermelho final.
Neste instante, o velho quase inválido, como num milagre, há minutos do fim, terá uma ereção completamente inútil.
APOCALIP-S.A. -0,5
O mundo ficará cada vez mais sério. Cada vez mais sério. Cada vez ainda mais sério. O politicamente correto se estabelecerá. As piadas ficarão restritas. O humor negro morrerá. O riso vai desaparecer pouco a pouco. O mundo se tornará eficiente, honesto, justo, medido, perfeito. Depois de algumas gerações sem se ouvir um riso, o hábito da risada soará como um mal gosto de tempos passados. Até que as pessoas começarão a entrar em combustão instantânea. Uma a uma. Em números cada vez maiores. Até que a comunidade científica descobrirá a razão: as mitocôndrias!
Esses micro-organismos celulares, como organelas endossimbióticas, são responsáveis pela produção de energia dentro das células. Porém, a serotonina [hormônio do humor NdT] tinha a função de controlar o poder destrutivo das mitocôndrias, mas a falta da prática do riso foi eliminado esse hormônio do nosso organismo. Então, sem a graça e sem o riso, essas organelas se descontrolarão, numa irremediável combustão coletiva de toda a humanidade sem graça. Graças a Deus. E ninguém rirá da nossa desgraça.
APOCALIP-S.A. -0,6
Os deuses gregos retornarão de suas férias galácticas e ficarão muito chateados com toda essa bagunça que fizemos e com a traição do monoteísmo. Decidirão acabar com a humanidade. Atena, porém, muito curiosa, pedirá para que mostremos o que conseguimos construir na ausência deles. Uma comissão de cientistas e artistas do mundo inteiro será levada ao Monte Olimpo para mostrar nossas proezas. Os deuses acharão tudo muito chato e centenas de artistas e cientistas serão trucidados diariamente por raios, frente ao tédio e o mau humor incomensurável de Zeus. Porém, quando tudo parecerá perdido, os Deuses se apaixonarão pelos filmes de Charles Chaplin. Assim, com uma tela gigante e uma programação dos filmes de Chaplin 24 horas por dia no Olimpo, conseguiremos mais uns anos de existência sobre a terra. Entretanto, um engraçadinho anônimo conseguirá trocar a programação divina e colocará para os eles assistirem um filme de Luther Blissett (APOCALIP-S.A. -0,1); e isso enfurecerá e ofenderá os deuses profundamente. Então Posídon despertará o Kraken que assolará o planeta inteiro.
APOCALIP-S.A. -último
1. Notícia da aproximação de um meteoro que acabará com a vida na Terra. Não há o que fazer.
2. As pessoas incrédulas demorarão para perceber que o fim está próximo e a maioria continuará sua rotina, até que, pouco a pouco, com a repetição da notícia, a ficha cai.
3. Saques, estupros, depredações, assassinatos, loucura, barbárie.
4. Todos correm para as igrejas, para os templos, para os seus locais sagrados e pedem a misericórdia num rogo súplice longo e comovente.
5. Ondas de suicídios, um quarto da população não aguentará a pressão.
6. Os sobreviventes se resignarão e resolverão ir até os parques e fazer piqueniques para esperar o grande choque final. Confissões são feitas, perdões são concedidos, brigas são remediadas. Todos cantam, dançam e se divertem. De repente, fica claro para todo mundo o quanto a vida não era tão difícil assim, o quanto era possível ter feito do planeta um lugar melhor pra todo mundo. A vida parece agora ter um valor inestimável e uma grande alegria ilumina o coração da humanidade.
7. Tarde demais. BUM!
Lausanne, Switzerland, inverno de 1998
2 ociosos:
Bárbaro!
Salvou-me de um mês tedioso, só de imaginar os chatos em chamas, restabeleceu-se meu humor.
Vida longa a LB!
Jorge, valeu por compartilhar esssa obra-prima. Li e reli atentamente cada palavra. E como aconteceu com Edson Bueno, Luther Blissett também surtiu efeito em meu humor, um deleite imensurável.
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