Lupicínio Rodrigues
Às vezes interrogo meus parentes, próximos e distantes, a fim de verificar se há raiz genética para a anomalia que leva pessoas comuns a fazer versos. Sou o único poeta que a boa cepa da casa de meu pai produziu e, da família estendida, tenho notícias de uma tia paterna que já se pôs a versejar em cordel e minha avó materna que era uma grande criadora de chistes e parlendas. Mas qual foi minha surpresa ao descobrir recentemente alguns versos feitos por meu próprio pai, o insuspeitíssimo “Senhor" Jorge, Ministro dos Enfermos da Paróquia São João Batista, vigilante aposentado, migrante pernambucano, guardião da moral e bons costumes...
Vou resumir. De vez em quando, após o almoço de domingo, entre louça suja e uma lata de goiabada cascão, meu pai conta suas histórias e dá os seus sermões para a assistência que não tenha debandado para a sala ver Faustão. Eu geralmente prefiro ouvir as histórias do meu velho. O que vou contar agora é uma mistura de vários trechos das memórias dele, colados em mosaico a fim de fazer um todo com começo meio e fim, pois geralmente meu pai conta tudo pela metade, já que quando chega em algum detalhe constrangedor ou picante, ele costuma parar a história, olhar ao redor e dizer: “chega, tá bom de história” e frente a nossa insistência, ele completa: “tem coisa que não se diz, que é melhor guardar” e pronto. Eu, dessa forma, costumo cutucá-lo, perguntando desta ou daquela história, ele então começa a recontar e, quando tenho sorte, avança um pouquinho mais além...
Pois bem, meu velho, quando jovem, veio pra São Paulo trabalhar no pesado. Só que, como ninguém é de ferro, costumava frequentar os bailes e boates da capital paulista para gastar um pouco do dinheiro e da liberdade que tinha por aqui. Entre as modalidades de diversão do início dos 60 havia o “baile-taxi”, casas de dança que tinham dançarinas contratadas. Os homens pagavam por dança e as moças anotavam em cartelas cada vez que eram solicitadas para dançar, ao final, o rapaz pagava à casa, que fornecia uma comissão para a dançarina. É claro que esse tipo de baile, muitas vezes, era a porta de entrada para a prostituição, e é mais claro ainda que muitos dos rapazes se apaixonavam por aquelas damas dançarinas e gastavam salários inteiros numa noite de muita dança, sorrisos ambíguos e declarações ao pé do ouvido.
Meu pai era um pé de valsa. Até hoje ele coloca lá no velho aparelho de som os seus LP's ainda mais velhos: tangos, boleros, sambas-canção, sambas de gafieiras... teria ele se apaixonado por uma daquelas dançarinas? Teria ela enlaçado o garboso rapaz nordestino e trabalhador braçal dos armazéns gerais, de cabelo lustroso de brilhantina, bigode gaiato e olhar de Clark Gable? Mas “as moças de São Paulo não casavam com rapazes nordestinos” ele me disse certo domingo, enquanto fixava os olhos numa mancha de macarrão na toalha de mesa e suspirava longamente, num dia em que se recolheu mais cedo.
Mas o mais impressionante foi o que descobri recentemente... domingo passado, ele me estendeu um velho guardanapo quase se desmanchando e todo rabiscado. Eram versos!? Tentei ler, mas entendi pouca coisa. De quem eram? Ele me explicou que, certa vez, enquanto apreciava uma dor de cotovelo em um bar da capital, outro frequentador, tão cabisbaixo quanto ele, puxou conversa, e começaram falar mal das mulheres. Papo vai, papo vem, quando perceberam estavam compondo um bolero para suas respectivas desilusões. Mas no meio do processo, seu mais novo amigo foi interrompido pela dita cuja, a tal ingrata, que veio lhe pedir perdão e carinho. Sem nenhum orgulho, o boêmio levantou, colocou o chapéu, olhou para o meu pai e disse solenemente: “mesmo uma mulher malvada vale mais que uma canção boazinha” e foi só aí que meu velho reconheceu o figura: era Lupicínio Rodrigues, o próprio inventor da expressão “dor-de-cotovelo”.
Aí vai a letra da canção, que meu pai teve que terminar sozinho. Creio que os pesquisadores do florilégio das canções de corno nacionais vão ficar muito satisfeitos. Também advirto que, como algumas partes do guardanapo estavam puídas e manchadas, tive que reconstruir poeticamente algumas partes da canção, apenas as duas primeiras estrofes estavam completamente legíveis e a memória de meu velho também foi essencial para a reconstrução da obra. Quanto à história de meu pai - o que aconteceu com ele e a dançarina - isso eu vou ficar devendo. Não consegui ainda que ele chegasse na parte dos finalmentes, mas assim que tiver novas notícias e detalhes, mando publicar.
Amigo Verdadeiro (bolero)
Jorge Gonçalves e Lupicínio Rodrigues
Violão, amigo verdadeiro,
E há de ser o derradeiro,
Aqui sobre este chão,
Vá dizer àquela mulher
Que ela não vale sequer
Um verso desta canção
Violão, se ela se queixar,
Se lágrimas derramar,
Não acredite não,
O que vem dela é falsidade
Ela não vale a metade
De um centavo de tostão
Violão, vamos sair pra beber,
Só assim posso conter
Essa minha aflição
E me diz nessa conversa,
Como uma desgraça dessa
Conquistou meu coração?
Jorge de Barros

4 ociosos:
Os neurocientistas acreditam que todo vício tem origem genética, é uma propensão, a poesia pode pular uma geração ou outra, mas está em cada célula do seu corpo esperando a hora.
Olá, Jorge,
que neste 2011 tenhamos discernimento e inspiração: discernimento para sermos justos e sensíveis, inspiração para regarmos a vida com poesia.
"A sorrir eu pretendo levar a vida
Pois chorando eu vi a mocidade perdida.
Finda a tempestade, o sol nascerá..."
(Cartola)
Simplesmente ADOREI, lembrei-me de meu pai e de tantas histórias que ele me contou de seus bailes inesquecíveis. Belíssimo!
Beijos pra Ti
Talvez talento seja hereditário! :)
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