minha cidade não tem beleza nenhuma
nasceu de um espasmo involuntário de progresso
num turbilhão de espermas e concretos
um entulho da ópera é minha cidade
é o sambaqui de Sampa
é um discurso de argumentos falhos
é impossível amá-la de olhos abertos
(mas se fecho os olhos corro risco
de cair em um de seus penhascos)
é como a feia que cura a virgindade dos moços
e não cobra ao menos “obrigado”
minha cidade de olhos sonsos
queria ser o Godzilla para abraçá-la
e reduzi-la com meu raio atômico
estrangulá-la de um amor tão réptil
e distribuirei travesseiros de alfazema
aos que tomam o primeiro trem
sussurrando mantras impossíveis:
Macunaíma Macabéa Mauá
Jorge de Barros

6 ociosos:
Excelente texto. Me identifiquei com a última estrofe.
Jorge, que retrato! Parabéns, meu amigo!
bj
é impossível amá-la de olhos abertos
(mas se fecho os olhos corro risco
de cair em um de seus penhascos)
Nunca ouvi uma definição tão definitiva de nossa cidade.
Todo grande amor tem que ter uma boa colherada de ódio, senão azeda.
Encontro aqui ecos de certa música do Lenine. Gosto.
Muito bem retratado...
Me dá saudade de cada defeito do Grande ABC! E saudade de você também!
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