o concreto fermenta
lentamente, vagarosamente
o asfalto escorre
pombas tristes
abdicam do voo
por migalhas
uma moto se cala
despedaçando-se em êxtase
de desintegração
uma ambulância
apavora o sono do trânsito
inutilmente
estamos aguardando
movimentação
do trem à frente
um mendigo
fita o crepúsculo
como um rochedo
luzes rubras vão
sem começo ou fim
luzes brancas vêm
em becos úmidos
dançam luzes de neon
cores proibidas
um grito voa
entre espigões, vãos
e comerciais
silenciosamente
o rio podre reflete
uma lua pura
Jorge de Barros
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