terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Da Economia da Maldade

“Tinha que matar logo tudo!” ele me disse. O chaveiro aqui da rua. Fui fazer uma cópia da chave da nova fechadura. Questão de segurança. A cidade anda muito violenta. E enquanto o pacato velhinho fazia a cópia, eu ouvi sua velha televisão noticiar mais um incêndio em uma favela. Incêndios em favela me comovem. Na verdade, as favelas me comovem. Eu já tive vergonha da comoção que sinto pela pobreza, sentimento burguês, mas minha criação católica, graças a Deus, entranhou em mim a compaixão (além da imagem antiquada e boba de um velhinho sentado num trono que me vem toda vez que o assunto é Deus, embora eu saiba que essa imagem seja boba e antiquada).

“No interior, a gente matava verme com creolina, isso aí tudo é verme, tinha que matar logo tudo” e riu. Uma risada que buscava minha concordância ou minha complacência. Eu podia ter discutido. Podia ter falado sobre direitos humanos, sobre miséria e sobre crueldade. Até sobre democracia, marxismo, eu podia até ter falado sobre o Cristo. Mas peguei minha chave e, sem esboçar qualquer reação ou sentimento, a não ser um levantar de sobrancelhas ambíguas, dei as costas, apressado. Fiz isso porque me cansei de discutir com comerciários em geral. Eles costumam ter uma opinião muito fixa, como o ponto de sua loja ou o preço na vitrine. Prefiro discutir com camelôs. São mais flexíveis.

Mas também tem o fato de que não se deve discutir ou ofender a convicção de um homem que sabe abrir portas trancadas. Não que eu esteja desconfiando do caráter de meu chaveiro, mas é que eu posso, um dia, procurá-lo de madrugada para resolver um problema de tranca emperrada e necessitar muito de sua boa vontade.

A questão, porém, que eu trouxe pra casa como um pensamento empedrado é: de onde vem a maldade do meu chaveiro? Talvez ele a tenha aprendido do trio de ladrões que, certa noite, entrou em sua casa (porque, afinal, a ciência dos chaveiros não é tão oculta quanto desejamos) e espancou a ele e a esposa, o que o obrigou a mudar para um apartamento, o que deixou a mulher triste longe de suas plantas e seus gatos, o que a levou à depressão e ao suicídio debaixo de um ônibus que ninguém admite. E assim, o velho chaveiro levou, daquela surra, uma dor no ciático que dói quando a temperatura cai e que o lembra da lápide que dói mais profunda ainda. É possível.

Quem sabe se a maldade daquela madrugada fatídica, concentrada em uma única parcela amarga, ele venha agora distribuindo em pequenas doses para seus clientes desavisados na forma inofensiva de palavras hostis contra qualquer miserável que ele veja sofrendo ou definhando por aí. E que, ainda como um brinde, lhe dá a esperança da existência do Deus vingador que não o socorreu naquela noite. Maldade essa que a sua senhora, sem poder exorcizar assim pouco a pouco nos ouvidos alheios, devolveu ao mundo de uma vez só, na forma de seu corpo imolado em via pública. Talvez.

Mas isso não justifica o fel das palavras do velho. Mas explica. “E se você tivesse sua mulher, sua irmã ou sua mãe estuprada e morta por um desses, continuaria defendendo os direitos humanos?”, eu ouço por aí de muita gente que nem imagina que a própria revolta e indignação que as move está na raiz da formação desses direitos. Ah, se eu perdoasse o genocida de tudo quanto eu mais amo, que coisa estranha seria. Seria a santidade? A loucura? Ou será que eu ia querer vingança? Então há alguma lei que me proteja e me impeça de me tornar igual ao meu algoz, um genocida? Espero que haja, no caso de eu não suportar uma auréola.

Mas de onde vem a maldade do trio? O trio que humilhou, roubou e espancou um casal de velhinhos do bairro do Ipiranga? Talvez da violência da falta de recursos e de alternativas. Talvez da discriminação que vai pingando gota a gota como um ácido no caráter. Porque há recursos que são desviados, da merenda, dos projetos educacionais, da saúde, da infraestrutura. Há esquemas que estão implantados nos sistemas de licitação para levar um além e não importa se o remédio vai faltar, o asfalto esfarinhar e a sopa azedar. Uma maldade oficial que vai se acumulando como a sujeira que decanta na água turva e forma a lama amniótica que engendra os monstros. E que de tanto acumular um dia forma uma ilha, um monturo de ódio, de medo e de revolta, que sem que ninguém espere cai como uma avalanche de merda sobre o cotidiano de um pacato cidadão inocente que não fez nada para merecer aquilo. Fez? Não, não fez, mesmo que tenha votado muito errado.

Uma maldade lenta e sistemática na malversação da coisa pública vai se acumulando em vários pontos espalhados, formando uma constelação de vidas desgraçadas, e assim como os micro-organismos do paleozoico submetidos à imensa carga de temperatura e pressão viram o óleo-combustível altamente inflamável, assim, o substrato da maldade acumulada na vida de um desses pobres marginalizados, de vez em quando, é vomitada num turbilhão de violência sobre um manso cristão que, se sobreviver ao encontro, sairá pela vida distribuindo a violência recebida como fedor escapando dos poros, pouco a pouco, pelo resto de sua existência.

Foi assim que o meu chaveiro me atingiu com seu mau hálito moral.

A Maldade que pinga, um dia transborda. A Maldade que despenca pesada sobre alguém, quando não se pode devolvê-la de uma vez, vai sendo distribuída aos poucos, de grão em grão a toda parte.

Mas a questão é, de onde vem a maldade dos nossos administradores públicos? Mas ao mesmo tempo em que eu sinto que essa é uma grande questão, a questão central deste problema, também penso que não devo enveredar pela História ou pela Religião, ou corro o risco de cair em um dilema do tipo ovo e galinha. Quero concluir apenas com uma esperança! Uma vaga suspeita, não comprovada, de que com a Bondade possa acontecer o mesmo ou algo parecido, mas a quantidade de eventos registrados é tão reduzida que ainda não me foi possível formular direito uma tese a respeito, do que se conclui, embora de forma temerária, que ela seja um tanto quanto discreta, e volátil às lentes da televisão. Assim como o bóson de higgs, ajudaria a explicar muita coisa, mas  quem lhe pega o rastro? Oremos.
Jorge de Barros

6 ociosos:

Chris Clown Oliveira disse...

Quando disse que estou desiludido, desanimado e inseguro Jorge é sobre isso... Esses fatos cotidianos mexem demasiadamente comigo.
Deflagra em mim um angústia por maldade, pelo medo de a bondade me distanciar dele e me aproximar dos favelados em chamas.
É triste isso, ser um pequeno burguês que não se livra desses valores.
É triste uma vida assim...

Edson Bueno de Camargo disse...

Complexo é esbarrar com a maldade em nós mesmos.

Ou pior que isso, mergulhar na indiferença.

Fabi disse...

esses sao pensamentos que sempre chego a pensar, quando ouço algum comentario parecido desse seu chaveiro, é triste pensar, que a minoria é aquela que pensa a favor dos 'favelados', tudo seria bom, se eles nao existissem, mas nao por que foram mortos, mas sim tiveram oportunidades como a nossa, de se tornarem pequenos burgueses.

Dia disse...

O sofrimento sempre vai exisitr, a natureza não veio com manual de justiça moral.

Anós, que temos sensibilidade ao sofrimento e consciência do meio cabe a tarefa de saber lidar.

Quando soubermos, fluiremos pela vida como gotas num rio.

O Budismo já aprendeu, mas não é intrínseca dela a capacidade de compreender.

Dia disse...

Quando será que tropeçamos da condição de meros reagentes para agentes?

Hélio disse...

Sabe, também penso muito a respeito... Eu penso? Só isso. Talvez esteja ai o problema! Eu consigo enxergar a máquina que nos destrói, mas de modo efetivo não tento desmontá-la. Procuro bons políticos? As vezes. Mas fico pensando: quem manda na nossa “democracia” (sim, entre aspas! Pois apenas o direito de se expressar não conota uma democracia.) não são os partidos? Novamente só penso... preciso fazer mais! “Disseminar o bem...”. Também estou tentando.