Domingo, 22 de janeiro de 2012, manhã.
Reintegração de posse no bairro do Pinheirinho em São José dos Campos.
Esta foto também estava no jornal de hoje. Aconteceu alguma coisa na Nigéria, mas não na primeira página.
Reintegração de posse no bairro do Pinheirinho em São José dos Campos.
Seis mil moradores. Conflitos. Sangue e lágrimas. Desentendimentos entre as autoridades. O governo federal se disse surpreendido, o poder estadual, na figura do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Sartori, mandou soltar os cachorros. Enquanto os tribunais discutiam as suas incompetências, o choque cumpria a “ordi”, porque “missão dada é missão cumprida”.
Domingo, 22 de janeiro de 2012, manhã.
Manifestação pró-animais da Avenida Paulista.
Cinco mil manifestantes, pelo menos. Indignados com a enfermeira que espancou o yorkshire e contra outras barbáries cometidas contra os animais. “au, au, au, Justiça Animal”. Gente fantasiada, alguns com seus cãezinhos assustados a tiracolo. Os organizadores surpreenderam-se com a quantidade de manifestantes. Destaque para o rapaz com o poodle gigante.
Com cães assim tão explícitos nas páginas dos jornais não há quem não se sinta inclinado a escolher um lado. Haverá quem diga que é futilidade demais desfilar fantasiado na paulista, com seus pets e bibelôs, enquanto a uns 90 quilômetros dali famílias estão sendo expulsas de suas casas e agredidas brutalmente pelo Estado. Haverá quem diga o oposto, que as famílias foram notificadas dentro dos prazos legais, que as radicalidades é que causam os conflitos e que os protestos pacíficos como os da Paulista são mais aceitáveis dentro dos processos de participação cidadã.
Porém, qual violência é maior? Se é que é possível medir assim a violência...
Machado de Assis, em Esaú e Jacó, conta a história dos gêmeos univitelinos Pedro e Paulo que, apesar da aparência idêntica, comportavam-se de maneira oposta, mas eventualmente suas ações contrárias visavam ao mesmo fim. Por exemplo, quando tinham sete anos e sua mãe lhes proibira de subir nas árvores para pegar frutas, eles passaram a usar um moleque...
Paulo era mais agressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fruta das árvores, era um moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, e às vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e outro dos gêmeos não soubesse agredir e dissimular; a diferença é que cada um sabia melhor o seu gosto, coisa tão óbvia que custa escrever.
Machado de Assis, Esaú e Jacó, Cap XVIII
A história se passa durante a mudança de regime no Brasil e o Bruxo do Cosme Velho esfrega na nossa cara que, Monarquia e República eram irmãs gêmeas e que, no final das contas, o povo, tal qual o moleque da “parábola”, terminaria sem a fruta e com um galo na cabeça ou uma promessa falsa. São dois dos modus operandi preferidos de um estado autoritário... mas voltemos aos cães e à questão:
O que é pior? Levar uma bofetada por defender uma causa, ou ser recebido com tapinhas nas costas, elogios à sua nobre causa e receber promessas falsas, desmobilizantes e depois um escarnecedor “adeus até nunca mais”? O que foi mais inútil? Se é possível medir assim as inutilidades... A “Tropa de Choque” do Pinheirinho ou a manifestação da Paulista que a mídia cobriu como um carnaval de excêntricos?
Eu voltei pra casa pensando nestas coisas todas e, olhando o jornal, uma coisa me chamou a atenção. As fotos da repressão em São José dos Campos e do protesto pacífico na Paulista eram muito diferentes, mas havia uma importante semelhança, melhor, uma essencial semelhança. Havia, naquelas cenas, olhares gêmeos, como destaco a seguir. Reparem nos olhos, apenas neles, esqueçam, por um segundo, o cenário e o contexto ao redor:Perceberam? Eles estão confusos, não sabem o que está acontecendo, não sabem o que tudo aquilo significa, não gostam do barulho e queriam estar nas suas respectivas caminhas sem serem carregados, confusamente, pelas pessoas que mais amam.
O mundo que nós construímos, com toda a sua lógica, com toda a sua tecnologia, com todas as suas leis e modelos de mercado, só começará a caminhar para algum lugar decente se os donos desse tipo de olhar se tornarem a prioridade máxima de todos os governos, movimentos sociais, corporações, sindicatos, etc... etc... Porque por enquanto, este é o mundo que temos a oferecer para eles:Esta foto também estava no jornal de hoje. Aconteceu alguma coisa na Nigéria, mas não na primeira página.
Jorge de Barros


7 ociosos:
Sim, foi solicitado, informado, instruído que não se deveria levar os animais para a manifestação.
Sim as sombrancelhas da menina na foto de cima demonstram sua preocupação, não, o focinho do cachorro não demonstra a preocupação e o quase pavor da menina, sorry.
Algumas pessoas levaram seus cães como fariam com suas crianças. Não é novidade que muitos substituíram uns pelos outros. É, pode ser muito provável que o cão possa não querer estar ali, mas essa comparação foi forçar a barra.
Nós não construímos o mundo. E quem o construiu não fez com lógica. A economia só é proveitosa por que uns podem ser explorados e não são os governos que vão tornar a humanização prioridade máxima. Muito menos as corporações.
Sim, este é o mundo que temos a oferecer e é um presente de grego, e exatamente por isso tem gente saindo na rua, mesmo com suas incoerências e faltas, pela tal humanização que precisamos.
Dentre os que desfilaram seus poodles gigantes também havia gente com cartazes de fatos sangrentos, que muitos preferem ignorar, os mesmos fatos que corrobam coisas como a violência policial na desocupação de Pinheirinhos.
Se a passeata era para o mundo, para os governantes ou para eles próprios, não chega a ser importante. Eles estavam tentando, talvez até para conscientizarem a si mesmos.
Porque escarnecer? Seria melhor que continuassem em suas cadeiras, postando palavras de revolta na internet?
Sim, os cães foram explicitados nas páginas dos jornais, os folhetins escolheram um lado. Isso não significa que você tenha que escolher o mesmo.
Pergunto-me se a revolta era com o destaque do lado extravagante da passeata contra as ninharias da mídia em relação à Pinheirinhos ou se era por a passeata não estar do lado das criancinhas e moradores que estavam no fogo cruzado da polícia.
Uma coisa eu sei. Pouca gente foi educada para enfrentar cassetete e por questões tão espinhudas. Fomos todos domesticados e não civilizados.
E os governos, como sempre, sujam a patinha só na medida que os interessa, e querendo ou não, estamos todos levando tapinhas nas costas ou soco nos beiços, é ou não é? Revoltados ou não, na rua, em casa, ou sendo expulsos das suas... pagando os impostos e tomando tapinhas...
Meu querido Jorge...obrigada por ser tão transparente e sensível em sua escrita. Escrever é uma forma de não "abanar o rabo".
Parabéns!
bjs
Só esclarecendo: eu pretendi enfatizar os olhares confusos daqueles que mais necessitam na nossa proteção, logo, os que mais são atingidos pelas catástrofes: crianças, animais, idosos, etc. Por isso usei o termo "confusos" e não outro.
Também pretendi comparar as duas estratégias do poder para desmobilizar as ações e oprimir: a violência física (PM no Pinheirinho) e a violência simbólica (cobertura da mídia no ato contra a crueldade com os animais).
Obrigado pelos comentários.
Creio que todos têm o direito de se manifestarem quando não estão de acordo com algo.
As três fotos me chamaram a atenção e me fizeram concluir que, aconteça o que acontecer, nada muda na vida daqueles que vivem por baixo, impossibilitados de se defenderem.
Entra ano e sai ano, as coisas acontecem e aqueles que, do topo da pirâmide assistem a tudo, levantam suas mãos ao céu, agradecendo por continuarem por cima.
Muito bom, você escreve muito bem Jorge.
GENTE! O caso Pinheirinho está no Supremo e o presidente do STF, ministro Cézar Peluso, precisa decidir se julga a liminar, que pediu a suspensão da operação de reintegração de posse iniciada no dia 22 ou se deixa para o Pleno do STF decidir; quer dizer, ele precisa resolver se vai decidir, agora, sozinho, ou se vai esperar o término das férias forenses em 02 de fevereiro.
Então, sugiro o envio de email para o ministro: cpeluso@stf.jus.br
A notícia está na página do STF:
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=198129
E no meu blog:
http://www.scmcampinas.blogspot.com/2012/01/pinheirinho-recorre-ao-supremo.html
Segue o texto do email que mandei para o ministro:
Título do email: SOMOS TODOS PINHEIRINHO
Exmo. Ministro,
Tem o presente email a finalidade de solicitar a Vossa Excelência o julgamento da LIMINAR no Mandado de Segurança 31120 impetrado, ontem (23/01), pela Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais de São José dos Campos (SP), a fim de que seja determinado à Polícia Militar do Estado de São Paulo e à Guarda Municipal de São José que suspendam IMEDIATAMENTE a desocupação da área denominada “Pinheirinho”, cuja posse é reclamada pela massa falida da empresa Selecta, mas que vinha sendo ocupada, desde 2004, por cerca de 1.300 famílias sem teto.
A operação de reintegração de posse, iniciada no dia 22, de forma violenta, em meio a conflito de competência entre as Justiças Estadual e Federal, feriu direitos fundamentais dos moradores de “Pinheirinho”, colocando milhares de pessoas - entre elas, crianças, idosos e portadores de necessidades especias - em situação de risco social, moral, físico e psíquico.
A DECISÃO sobre a suspensão desses atos perpetrados pelo Poder Público, que atentam contra a dignidade da pessoa humana, não pode aguardar o término das férias forenses em 02 de fevereiro, já que patente o “periculum in mora”.
Contando com a compreensão de V. Exa.,
Atenciosamente,
Nome
Profissão
(RG. *** )
Talvez tenha lido errado o seu "tom".
O cachorro ainda me parece curioso.
'O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, negou seguimento (arquivou) ao Mandado de Segurança (MS 31120) em que a Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais de São José dos Campos (SP) pedia a suspensão imediata da desocupação da área denominada Pinheirinho, cuja reintegração de posse ocorre desde domingo, dia 22.
Segundo o ministro Peluso, o pedido da associação é “inviável”. Ele aplicou ao caso a Súmula 267, do STF, que determina que “não cabe mandado de segurança contra ato judicial passível de recurso ou correição”.'
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=198324
Acho que estou ouvindo um barulho. É TAP TAP TAP.
O lugar em que mais precisaríamos de pessoas comprometidas, justas, éticas e assertivas seria o governo, mas não. Não.
Democracia numa república semi-analfabeta: é o paradoxo definitivo.
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