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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JOÃO FICÇÃO

Wild Man - Ron Mueck, 2005
 
João se levantou às cinco da manhã, como fazia todos os dias. Tomou banho, acordou os meninos pra escola, tomou o café ralo da mulher, foi ao espelhinho do banheiro pra conferir o penteado e teve a nítida e súbita consciência de que era um personagem de ficção... Mas o relógio já caminhava e não dava tempo pra pensar na vida, e lá foi ele descer o morro. Depois o ônibus, o trem, e ainda caminhar uma porção até a firma. E foi pensando em como era engraçado tanta coisa real, assim, ao alcance de sua mão, tanto detalhe no mundo, tanta gente, tanto carro, tanto tudo ser apenas coisa de ficção. Mas aí a rotina do trabalho lhe roubou o tempo de pensar em qualquer coisa. Ele fazia pneus. Trabalho duro, sistemático, alienante. Ainda bem que tinha o horário de almoço pra merecidamente encher o bucho, preencher o tempo com papo de futebol e ainda fumar um cigarrinho. Mas nada daquilo era de verdade – ele sabia – nem o arroz com feijão, nem o gol do fim de semana, nem Zé Titela, seu parceiro de máquina, palitando os dentes bem ali na sua frente... e João olhava a fumaça do cigarro subindo, subindo, depois sumindo devagar, no vento... então sentiu uma coisa estranha que ele nunca tinha sentido antes e nem sabia bem explicar. Era um tipo de inquietação.
A tarde trouxe mais trabalho, tinha que bater a meta do dia e “pensamento em linha de produção não é luxo pra peão”. Suor até o fim do expediente. Depois a condução de volta: caminhada, trem, ônibus e, pra completar, o escadão do morro... Bem no meio da subida, o preto Izé, na sua cadeira de entrevado, sempre saudava: “Ê João, Feliz foi o Jesus que só subiu o calvário uma vez!”. Ao que ele respondia: “Pois é, véi Izé, foi que eu parcelei minha cruz em suaves prestações”. Aí um dedinho de prosa, uma pausa pra descansar, um copo d’água, notícias da comadre e dos meninos, o segundo cigarrinho do dia. Depois terminar a subida pensando em como podia ser aquilo… no momento em que virava as costas, seu Izé, na sua cadeira pobre, o lençol velho no colo, o emaranhando de rugas, a carapinha revolta, a voz rouca cheia de chistes, tudo isso desaparecia, porque a realidade toda, nessa ficção que era sua vida, só podia existir em função dele. Será que os degraus iam desaparecendo conforme ele os deixava pra trás? Virou-se rapidamente, mas viu apenas os velhos degraus tão conhecidos do morro: deformados ao capricho do terreno, displicentemente cimentados, e o capim bravo a retomar espaço entre as fissuras e falhas. Não dava pra enganar o reflexo do espelho...
Mas, então, o aconchego do barraco e o feijão da patroa fizeram-no esquecer tudo por mais uns minutos. Logo, ouviu as notícias das crianças e as traquinagens do telejornal... tudo mentira, tudo ficção, um mundo inteirinho inventado. Mas pra quê? Foi aí que ele pensou se não seria possível inventar uma realidade melhor... Porque tudo tinha que ser tão do jeito que era? Ah, se ele fosse inventar uma história, ia ser uma bem diferente da sua, uma bem bonita, com princesa loira, com bandido que vira mocinho – ele achava que os melhores heróis eram os que antes tinham sido vilões – com bang-bang, com escapadas espetaculares e com um beijo no final... Pra que inventar uma história tão sem sabor feito a dele? Foi aí que notou o reflexo de seus olhos pensativos nos olhos cansados da esposa. E sentiu uma pena danada dela, que só existia pra lhe fazer o café todas as manhãs, e depois só voltava a existir, no fim da tarde, pra lhe servir a janta quente.
Saiu pra fumar o último cigarro do dia, em cima da laje, olhando a multidão de janelas pobres iluminadas por reflexos de televisores. A mesma luz mortiça e indecisa em todo canto. Tudo tão repetitivo, tudo tão cotidiano, tudo tão terrível de tanta esperança aflita... Mas, nesse instante, teve uma ideia que trouxe algum alívio pra suas angústias: num mundo como aquele, era bom mesmo que tudo não passasse de uma grande mentira...
E foi assim que João fechou seus olhos pra enxergar, enfim, só a verdade.
Jorge de Barros