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sábado, 18 de fevereiro de 2012

152

White Wave - Milton Avery; 1954

Todo dia, o primeiro 152 sai do terminal Sacomã às 5h30min, segue pela via Anchieta, em direção ao litoral, mas não chega nunca ao mar. Seu destino é São Bernardo do Campo. Seus ocupantes se conhecem há anos, mas sem trocar palavras, apenas os olhares cúmplices congestionados de sono. Trabalhadores de fábrica, atendentes de telemarketing, empregadas domésticas e três professoras. E todos, inclusive o motorista e o cobrador, jamais foram à praia, sequer viram o mar. Todos os dias, há anos, veem a placa LITORAL, mas nunca sentiram a areia quente formigar sob os pés, a espuma da vaga efervescer sobre a pele, a frescura salobra das águas irritar os olhos... Foi isso o que, a seu modo, disse dona Juraci, 61 anos, doméstica, preta, óculos fundo de garrafa com armação cor de casco de tartaruga: “Nunca que eu vi o mar grande!”. E todo mundo calou com essa frase ecoando fundo na alma. E o ônibus parado por causa de um caminhão que se complicou com a lei da gravidade, o trânsito congestionado a perder de vista, quilômetros de gente atrasada. As professoras ainda mais agoniadas, pois o sinal da escola já ressoara alhures e os alunos deviam estar em estado de alegria caótico, com as coordenadoras de disciplina em calculado estado de desespero. As empregadas aflitas com as patroas preocupadas e furiosas, esperando o pão quente da padaria, precisando delas para deixar as crianças na escola e seguir para o trabalho (ou shopping), e as atendentes de telemarketing e os trabalhadores das fábricas já estavam angustiados com as explicações tartamudeadas que iriam bater nos muros de aço da indiferença dos chefes irascíveis. Vinte minutos passados. Trinta. O sol se levantando em mais um dia escaldante. E o desespero inicial se transformando lentamente em resignação. O que haveriam de fazer? Era esperar a consequência do atraso, apenas as professoras ainda se angustiavam, pois agora se viam na iminência de perder também a segunda aula. E perderam mesmo, bem como a terceira, e foi aí que o trânsito se movimentou. “Nunca, nunca vi o mar!”, “Já tamo tudo atrasado mesmo!”, “O mar como será que ele é?”, “Você também nunca viu?”, “Não acredito!”, “Nem eu!”, “Eu também não!”. Foi assim que, naquela segunda-feira, o 152 não pegou a saída do Km 18, seguiu em frente, desceu a serra, arrebentou a cancela do pedágio, cruzou a Avenida Beira-Mar, enfiou-se pela areia e, enquanto seus ocupantes risonhos fechavam cuidadosamente as janelas, mergulhou no Oceano Atlântico para sua grande aventura marinha...

Jorge de Barros

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JOÃO FICÇÃO

Wild Man - Ron Mueck, 2005
 
João se levantou às cinco da manhã, como fazia todos os dias. Tomou banho, acordou os meninos pra escola, tomou o café ralo da mulher, foi ao espelhinho do banheiro pra conferir o penteado e teve a nítida e súbita consciência de que era um personagem de ficção... Mas o relógio já caminhava e não dava tempo pra pensar na vida, e lá foi ele descer o morro. Depois o ônibus, o trem, e ainda caminhar uma porção até a firma. E foi pensando em como era engraçado tanta coisa real, assim, ao alcance de sua mão, tanto detalhe no mundo, tanta gente, tanto carro, tanto tudo ser apenas coisa de ficção. Mas aí a rotina do trabalho lhe roubou o tempo de pensar em qualquer coisa. Ele fazia pneus. Trabalho duro, sistemático, alienante. Ainda bem que tinha o horário de almoço pra merecidamente encher o bucho, preencher o tempo com papo de futebol e ainda fumar um cigarrinho. Mas nada daquilo era de verdade – ele sabia – nem o arroz com feijão, nem o gol do fim de semana, nem Zé Titela, seu parceiro de máquina, palitando os dentes bem ali na sua frente... e João olhava a fumaça do cigarro subindo, subindo, depois sumindo devagar, no vento... então sentiu uma coisa estranha que ele nunca tinha sentido antes e nem sabia bem explicar. Era um tipo de inquietação.
A tarde trouxe mais trabalho, tinha que bater a meta do dia e “pensamento em linha de produção não é luxo pra peão”. Suor até o fim do expediente. Depois a condução de volta: caminhada, trem, ônibus e, pra completar, o escadão do morro... Bem no meio da subida, o preto Izé, na sua cadeira de entrevado, sempre saudava: “Ê João, Feliz foi o Jesus que só subiu o calvário uma vez!”. Ao que ele respondia: “Pois é, véi Izé, foi que eu parcelei minha cruz em suaves prestações”. Aí um dedinho de prosa, uma pausa pra descansar, um copo d’água, notícias da comadre e dos meninos, o segundo cigarrinho do dia. Depois terminar a subida pensando em como podia ser aquilo… no momento em que virava as costas, seu Izé, na sua cadeira pobre, o lençol velho no colo, o emaranhando de rugas, a carapinha revolta, a voz rouca cheia de chistes, tudo isso desaparecia, porque a realidade toda, nessa ficção que era sua vida, só podia existir em função dele. Será que os degraus iam desaparecendo conforme ele os deixava pra trás? Virou-se rapidamente, mas viu apenas os velhos degraus tão conhecidos do morro: deformados ao capricho do terreno, displicentemente cimentados, e o capim bravo a retomar espaço entre as fissuras e falhas. Não dava pra enganar o reflexo do espelho...
Mas, então, o aconchego do barraco e o feijão da patroa fizeram-no esquecer tudo por mais uns minutos. Logo, ouviu as notícias das crianças e as traquinagens do telejornal... tudo mentira, tudo ficção, um mundo inteirinho inventado. Mas pra quê? Foi aí que ele pensou se não seria possível inventar uma realidade melhor... Porque tudo tinha que ser tão do jeito que era? Ah, se ele fosse inventar uma história, ia ser uma bem diferente da sua, uma bem bonita, com princesa loira, com bandido que vira mocinho – ele achava que os melhores heróis eram os que antes tinham sido vilões – com bang-bang, com escapadas espetaculares e com um beijo no final... Pra que inventar uma história tão sem sabor feito a dele? Foi aí que notou o reflexo de seus olhos pensativos nos olhos cansados da esposa. E sentiu uma pena danada dela, que só existia pra lhe fazer o café todas as manhãs, e depois só voltava a existir, no fim da tarde, pra lhe servir a janta quente.
Saiu pra fumar o último cigarro do dia, em cima da laje, olhando a multidão de janelas pobres iluminadas por reflexos de televisores. A mesma luz mortiça e indecisa em todo canto. Tudo tão repetitivo, tudo tão cotidiano, tudo tão terrível de tanta esperança aflita... Mas, nesse instante, teve uma ideia que trouxe algum alívio pra suas angústias: num mundo como aquele, era bom mesmo que tudo não passasse de uma grande mentira...
E foi assim que João fechou seus olhos pra enxergar, enfim, só a verdade.
Jorge de Barros

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

SciFi - Spleen - SP



GODZILLA!
salve-me da sombra desses arranha-céus!

Jorge de Barros

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DIA DE PROTESTO



Feriado na quarta-feira, aniversário de São Paulo, levantei cedo para ir protestar.
Confesso que não sou um habitué de protestos. Claro que participei de alguns na faculdade, quem não o faz? Além do Fórum Social Mundial, embora o Fórum tenha muito mais cara de evento oficial.
Parei em frente ao espelho e pensei: “com que roupa eu vou?”. Parece um detalhe banal, mas depois dos eventos da USP com o “revolucionário da GAP”, a imagem pode se tornar uma verdadeira armadilha.
No metrô, eu encontrei a massa. Mas não estava indo pra nenhum protesto, eram torcedores do Corinthians, pois também era dia de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior.
Já na Praça da Sé, deparei-me com um caldo ralo de manifestantes que tentavam se espalhar e circulavam sem muita ordem. Bandeiras de alguns partidos de esquerda, outros à esquerda da esquerda. Um grupo de palhaços. Um grupo de estudantes. O pessoal do Sindicato. Algumas pessoas que vieram da comunidade ameaçada do Pinheirinho em São José dos Campos. O grupo de apoio aos massacrados da Cracolândia. E também, sentados nas muretas ou deitados no chão, com seus olhares esquivos e movimentos de coral, os mendigos da Sé. Este é um dos lugares mais tristes de São Paulo.
Eu circulei por ali, procurando algum rosto conhecido e então me lembrei do 35. O carregador de malas da estação da Luz do conto de Mário de Andrade. Aquele que saiu no primeiro de maio, em pleno regime do Estado Novo, buscando irmanar-se com os seus, mas só encontrou uma cidade vazia, eventos oficiais, policiais por todo o canto para garantir a “ordem” e também um jogo de futebol! “...aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o Primeiro de Maio...” Era isso, eu me sentia um pouco como o 35.
Foi então que um dos manifestantes começou a gritar da escadaria: “A Kassab está na missa!”, então resolvi entrar na igreja, pensando no mau gosto de se referir ao prefeito no feminino com intenção depreciativa. Opção sexual de ninguém deveria ser usada desse modo.
Dentro da igreja, eu reencontrei a massa. A catedral estava lotada, era a missa em homenagem à cidade de São Paulo. Apesar de alguns olhares atravessados para o adesivo “Somos todos Pinheirinho” no meu peito, eu até que me sentia em casa, pois cresci correndo entre bancos de igreja ouvindo “psiu” dessas mesmas beatas. E até acho bonito ouvir a voz do povo ressoando na catedral. O bispo Dom Odílio Scherer, que dias antes havia elogiado a ação da polícia na Cracolância, fazia um discurso de conciliação durante a homilia. A velha Igreja de sempre.
E o bispo lembrou a vida de Paulo de Tarso, que dá o nome à cidade, e de como ele ouviu o chamado de Cristo e, de perseguidor dos cristãos, passou a apóstolo. São Paulo era soldado, oprimia e matava uma minoria religiosa em nome do Império Romano. Eu lá em pé, ao lado da pilastra, fiquei pensando quando é que a cidade também teria a sua epifania e deixaria de massacrar os pobres.
Lá fora, os manifestantes ligaram os carros de som. “vamos cercar!”, “ele tá lá dentro!”, “vamos nos dividir nas saídas para ele ver a gente!”. Então eu me persignei e fui lá fora atender esse chamado.
Uma ideia logo chegou ao microfone: “vamos dar um abraço na catedral!”. No início foi um pouco difícil organizar as pessoas, eu duvidei de que havia gente o suficiente, mas logo aconteceu. E de braços dados começamos a gritar palavras de ordem e canções de luta. Mas havia também muita raiva naquela corrente. As ações da Polícia Militar no Pinheirinho, na Cracolância, na USP... logo alguém gritou: “Assassino!” e depois outro, e mais outro... eu fiquei imaginando o prefeito e o governador tomando sua hóstia ao som dessas vozes.

Bispo: O corpo de Cristo.

Vozes: ASSASSINO!

Governador: Amém.
De repente, um cabeludo com sotaque espanhol entrou na roda com a namorada brasileira e me perguntou: ¿Por qué estás gritando "Asesino" para la iglesia?”. Eu expliquei pra ele os últimos acontecimentos, a truculência, as mortes, os desaparecimentos. “Ah, el prefeito está ahí dentro?” E ele então se juntou a nós. Nossos hermanos latinos sabem protestar bem, tratam isso com muito mais naturalidade do que a gente. A namorada brasileira dele estava claramente constrangida, enquanto ele agia com a maior naturalidade, como se nós estivéssemos empurrando um carro enguiçado e ele tomasse a iniciativa de ajudar a fazer o bicho pegar na banguela. Foi uma gentileza de vizinhos.
Depois foram as tentativas do prefeito de sair da igreja, a primeira, frustrada, a segunda, com ovadas, socos e cotoveladas, gás pimenta e bomba de efeito moral. Mas o que mais se disparou foram fotografias para os jornais. Resultado: um ferido, uma dúzia de ovos desfalecidos e o movimento todo reduzido à meia dúzia de fotos mal tiradas.

Mas depois veio a marcha até a prefeitura. Os manifestantes pareciam ter triplicado, pessoas que estavam na missa devem ter se juntado ao grupo inicial, além de alguns transeuntes. Ah, o 35 deve ter nos seguido, bem velhinho, ao passo solene dos anciões, mesmo com o ciático incomodando. E ele, se fosse jovem, teria se juntado ao grupo moreno de sindicalistas, que após a confusão ficaram contando vantagens de quantos socos e pontapés deram e omitindo os que levaram, com o ritmo de narradores de futebol. Imaginei que depois, no fim do dia, os policiais do outro lado também deveriam conversar entre si sobre as borrachadas e coturnadas que desferiram. Vinte segundos de pescoções equivalem a meses de narrativas homéricas.
Mas à passeata. Foi nesse momento que eu senti aquilo. Estávamos nas ruas da cidade e elas eram nossas. Parecia que, se permanecêssemos juntos daquela forma, e pudéssemos deliberar, consentir e agir, tudo seria possível. O planeta ficaria bem e as crianças estariam seguras. Mas durou pouco essa sensação, porque depois que atravessei o Viaduto do Chá e meus olhos se alongaram no Vale do Anhangabaú, eu vislumbrei, mais uma vez, a massa...

Estava acontecendo um show em homenagem ao aniversário da cidade. E era tanta gente reunida que minha marcha ficou parecendo um pinguinho de gente. Será que eles sabiam? Será que, se nós fôssemos lá avisá-los de que há gente perdendo suas casas para empresários podres de rico construírem “empreendimentos imobiliários”, eles se juntariam a nós?
Então eu deixei a marcha e fui em direção à massa. Estavam felizes, dançando, brincando, flertando e, quando me juntei, o cantor puxou o coro do hino do Corinthians, porque o time paulista havia vencido o campeonato. Enfim... feriado, futebol e música. A vida é boa! Os problemas a gente vai levando.
Encolhido, como o 35 no fim do seu Primeiro de Maio, esmagado pela apatia, tomei o metrô de volta pra casa. Foi aí que eu reparei em um garotinho se esforçando ao máximo para explicar para um pai gigantesco e sonolento o que era “SOPA” e “PIPA” e como o governo americano estava ameaçando a liberdade na internet. Era um garoto de uns nove anos, no máximo, que se estorcia para dar exemplos para um pai indiferente, cujo olhar lembrava o indiferente vagar dos elefantes marinhos. E o menino falava, falava, falava mais ainda, até o desespero do pai, que não tinha alternativa senão ouvir. Sorri para aquela pequena cena doméstica e guardei comigo uma pequena epifania. Próximo protesto, estarei lá.
Jorge de Barros